Sunday, 16 March 2014

O oceano no fim do caminho

O Oceano no fim do caminho
Neil Gaiman
Tradução: Rita Graña
Páginas: 184
Coleção: Via Láctea Nº 113
P.V.P.: 13,90€
ISBN: 978-972-23-5199-7

[caption id="attachment_1810" align="aligncenter" width="265"]http://www.presenca.pt/ http://www.presenca.pt/[/caption]

Há algo que tenho a certeza quando termino de ler as narrativas de Gaiman: quero que os meus filhos cresçam a ler os livros dele. Gaiman está para os livros como a Pixar está para os filmes, consegue ao mesmo tempo encantar crianças e adultos. O oceano no fim do caminho representa os dois lados de um ser humano: o infantil, onde a imaginação é uma arma poderosa para sobreviver à infância e o adulto, que sente uma nostalgia dos seus tempos de infância e quer voltar a sentir a inocência.


O oceano no fim do caminho consegue capturar o pior do nosso mundo imaginário infantil: os monstros, com o pior do mundo adulto: a angústia, o sacrifício por aquele que mais amamos e a perda, dando no fim uma sensação de falsa esperança. Recuperamos temas já característicos da obra de Gaiman como a identidade e a morte.

No Oceano, a personagem principal não possui nome. Essa ausência de uma marca de identidade forte, já tinha aparecido na “Estranha vida de Nobody Owens”, onde, como o nome indica, o rapaz era um “nobody”. No entanto somado a esse “ninguém” havia um apelido. No Oceano não. De certa forma, esta ausência de identidade que marca o protagonista contribui para uma sensação de que ele é mais do que uma personagem, é um símbolo, que encerra em si todo o espírito do que fomos uma vez na nossa infância. E tal como na infância fantasia e realidade estão diluídas, Gaiman aproveita essa distorção para criar uma história simples mas ao mesmo tempo complexa. Aliado a essa complexidade, surge Lettie, que é uma sidekick poderosa, uma espécie de amiga imaginária para os mais pessimistas (ou realistas) e talvez para os mais optimistas a amiga que sempre quisemos ter. Lettie vem de uma família poderosa e antiga que protege o nosso mundo dos monstros. A família Hempstock aufere uma aura de sabedoria e calma, assegurando que o protagonista não está a enlouquecer quando vê os monstros, por exemplo quando Urusula (uma suposta pulga) aparece e tenta seduzir o pai. Ursula detesta o protagonista porque ele consegue ver quem ela é, mas na verdade ela não é um monstro, mas sim provavelmente uma mulher que apenas está a ter um affair com o pai e, por isso, torna-se num monstro na cabeça da personagem.

Mais do que Lettie e o rapaz, o Oceano é ele próprio uma personagem presente. Situado no fim de um caminho, o Oceano representa a ponte entre os dois mundos (dos vivos e dos monstros), mas simultaneamente é uma espécie de limbo. O “lane” (traduzido para português e brasileiro como “caminho”) representa a “lane” da vida. Não é por acaso que o homem se suicida no fim do caminho e sempre que a protagonista perde alguém importante, regressa a casa das Hempstock e ao fim desse caminho. Neste lugar, o tempo é uma mistura de memórias mal misturadas, onde o protagonista regressa para reviver os bons momentos da sua infância (mesmo que seja imaginária) e fugir da sua vida aborrecida e banal.

O fim do caminho não tem qualquer utilidade para os adultos a não ser alimentar-se de memórias e o oceano de vidas. Lettie marca o protagonista numa espécie de ritual de passagem de criança inocente e feliz a alguém que começa a conviver com a perda. Mesmo sabendo que Lettie não está em casa, o protagonista volta sempre para poder voltar a ser feliz e inocente, tendo possivelmente, a consciência que isso nunca será possível, mas mantendo a esperança. Se toda a história que ele nos conta é verdadeira, isso nunca iremos saber.
Este livro é tanto um conto fantástico como um livro sobre a memória e o modo como ela nos afeta ao longo do tempo. A história é narrada por um adulto que, por ocasião de um funeral, regressa ao local onde vivera na infância, numa zona rural de Inglaterra, e revive o tempo em que era um rapazinho de sete anos. As imagens que guardara dentro de si transfiguram-se na recordação de algo que teria acontecido naquele cenário, misturando imagens felizes com os seus medos mais profundos, quando um mineiro sul-africano rouba o Mini do pai do narrador e se suicida no banco de trás.

1 comment:

  1. Adorei este livro e concordo plenamente com tudo o que dizes sobre ele! Fantástico :)

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