Thursday, 27 February 2014

A queda de Artur

[caption id="attachment_1906" align="aligncenter" width="258"]http://www.europa-america.pt/ http://www.europa-america.pt/[/caption]

Ficha Técnica:
A queda de Artur
J. R. R. Tolkien
Christopher Tolkien
Editora Publicações Europa-América
Dezembro 2013
P.V.P: 22,25€
Edição bilingue
Mais informações: http://www.europa-america.pt/

TOLKIEN E A FACETA MENOS CONHECIDA DO PÚBLICO


A Queda de Artur não é um livro, é um poema inacabado de Tolkien, onde o autor tentou contar uma versão fiel ao estilo medieval da história do Rei Artur. Fortemente influenciado por Thomas Malory e Geoffrey of Monmouth (Le Morte d’Arthur), Tolkien delineou os versos usando a métrica característica do Old English e o verso aliterativo (escrita marcada pela aliteração). Para os mais distraídos, Tolkien já tinha feito uma incursão pelos versos aliterativos através do épico Sir Gawain and the green Knight, que retrata a história de um cavaleiro da Távola Redonda do Rei Artur, depois de ele e toda a corte serem desafiados por um cavaleiro verde a dar-lhe um golpe com a condição de passado um ano e um dia o cavaleiro poder retribuir esse golpe.


Para muitos, Tolkien é o criador do Senhor dos Anéis e da Terra Média, para mim Tolkien foi um dos académicos que se esforçou por trazer o Medieval de volta. Tanto ele como C. S. Lewis ficaram para a eternidade como autores de fantasia e os seus escritos e pesquisa académicos foram esquecidos pelas grandes editoras.


ARTUR COMO MITO


O século XX viu a lenda de Artur ganhar forma através das Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley e a trilogia dos senhores da guerra de Cornwell. As duas abordagens pegavam nas personagens e davam-lhes temas/abordagens actuais. Bradley usou a sua obra para tratar temas feministas, Cornwell usou a pesquisa histórica e temas típicos da literatura medieval para dar forma à trilogia. No entanto, Tolkien gozou de tempos diferentes. A queda de Artur é um poema puro. Tem beleza, musicalidade e há algo nas personagens e no desenrolar da história que soa a clássico. Não existe um Lancelot mau, nem uma Guinivere fria e cruel. As personagens são caracterizadas através do seu aspecto físico, o que não é mau, visto que a literatura Medieval se apoiava na beleza e virtude das pessoas, no entanto essa visão neutra das personagens que não são mais do que vítimas dos temas típicos medievais (o amor, a nobreza, a intriga da corte).


Ainda assim Tolkien não descurou outros pormenores como descrições do ambiente e de pronúncios ao desastre. Um dos maiores desafios enquanto autor é conseguir transmitir o ambiente a acção através dos sons/palavras. São raros os autores que conseguem através do sons das palavras transmitirem os sentimentos das personagens; ora de tristeza, ora de raiva e talvez seja a harmonia perfeita entre o poema como forma e como conteúdo que marca o mais recente trabalho publicado por Tolkien, um dos melhores.


Tolkien consegue ainda um pequeno milagre ao fazer com que o leitor dispa o preconceito criado pelas personagens dos autores recentes e sente um misto de tristeza e admiração pelos infortúnios de Lancelot, Guinevere e Artur. Lancelot é o cavaleiro amargurado, mas nobre que salva o seu amor mesmo que isso vá contra a sua moral; Guinivere não é uma mulher fria. É uma rainha que amou um cavaleiro extremamente belo e foi correspondida. Artur, embora tenha sido a pessoa traída, sentimo-nos incomodados com a sentença dada a Guinivere (fogueira) e não conseguimos impedir de sentir felicidade quando vemos Lancelot a salvar a sua amada, qual cavaleiro in a shiny armour. Este esplendor típico medieval e a mais-valia do poema.


Para além disso, Tolkien escreveu versos com uma beleza poética rara, que são feitos para serem lidos em voz alta, tal como os trovadores da época. Existe uma musicalidade extraordinária que a tradutora Rita Guerra tentou com sucesso passar para o Português. Tal como “A lenda de Sigurd & Gudrun” este poema não era fácil de ser traduzido (desconfio que a lenda foi pior porque para além de ter muito da poesia edda, ou edda em verso, a sua extensão era maior).


O PROBLEMA DO LIVRO QUE NÃO TEM NADA A VER COM J.R.R. TOLKIEN


O que “estraga” o livro são mesmo as notas extensas de Christopher Tolkien que parece mais interessado em dar uma versão académica light do trabalho do pai, do que reconstrui-lo e terminá-lo.


Provavelmente alguns leitores, fãs do mito de Artur, irão achar o poema e as longas notas explicativas de Christopher um encanto. Para quem já tem conhecimento das métricas, diferentes versões da lenda Arturiana, as longas notas poderiam ser transferidas para um ensaio académico onde fosse aprofundado a relação entre o poema de Tolkien e o romance de Malory e Monmouth.  Ainda assim sentimentos alguma pena pelo filho (já quase com 90 anos) ter dedicado a sua vida a terminar muitas obras do pai, ao passo que o seu filho, Simon Tolkien, já conseguiu seguir uma carreira literária mais livre.


Quanto mais nos concentramos no poema em si e ignoramos as notas de Christopher, mais nos apaixonamos pelas palavras que Tolkien nos deixou.

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