Wednesday, 29 January 2014

Ele está de volta... não, não é o Slim Shady!

Ele está de volta | Timur Vermes| Editora: Lua de papel | Tradutor: João Henriques


Dia 27 de Janeiro (segunda feira) marcou o dia internacional do holocausto ou então conforme os alemães apelidam Tag des Gedenkens an die Opfer des Nationalsozialismus (Memorial das vítimas do Nacional-socialismo). Foi em 27 de Janeiro que os Russos entrarem no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau e se confrontaram com o terror que dias antes muitos oficiais tentaram apagar.
Um dia para lembrar para sempre algo que nunca deve ser esquecido, mas que os alemães sempre tentarem correr das suas cabeças. Todo o tipo de literatura alemã pós-Auschwitz é marcada pela vergonha. Mas já se passaram 69 anos desde que isso aconteceu e Timur Vermes julga que se Hitler regressasse, as coisas iam ser diferentes... Ou se calhar nem tanto assim.


Por isso ao longo de 300 páginas, Vermes (passando a ironia do nome em português), assume a caracterização de um Hitler irónico, solidário, sempre pronto a criticar e como sempre, com uma vontade de liderar e de poder. Através de situações cómicas, o leitor não se apercebe que está a ser seduzido pela mente perturbada de uma personagem que nunca existiu. O Hitler de Vermes, não é o Hitler do Mein Kampf. Ou se calhar até é e não nos apercebemos, tão apaixonados que ficamos por um homem velho, confuso e sozinho. O autor foi ao ponto extremo de retractar um diálogo entre uma mulher e Hitler sobre o holocausto e para que o leitor se apaixonasse ainda mais pela personagem, Hitler quase que cai na realidade de admitir que o que fez foi... Imperdoável.


Mas a Europa mudou. A euforia da liberdade pode não estar ameaçada (vejamos através das imagens vinda de Kiev), no entanto a descredibilização da democracia, a invasão da Alemanha por turcos e um passado que fora glorioso leva a que a figura de Hitler passe de homicida a comediante, de chefe de um Reich a Youtube celebrity. E Vermes envolve o leitor numa prosa aparentemente fácil, descontraída e actual, camuflada, na verdade, de enorme crítica social, uma ponta de crítica social aos alemães ao mesmo tempo que Hitler tenta subir ao poder e à fama, sempre “democraticamente” e com o apoio das massas, desta vez através da Internet e da televisão... No fim, não sabemos se os alemães aprenderam a lição, contudo o leitor sabe que se simpatizou com esta personagem chamada Hitler, algo correu mal... Ou se calhar até não?


O livro está recheado de frases quotable, de diálogos hilariantes e situações que vão deixar o leitor a fazer figuras tristes nos transportes públicos de rirem tão alto com as situações na qual o Hitler se depara. Preparem-se para uma chuva de sentimentos contraditórios à medida que vão comparando na vossa cabeça o Hitler: personagem histórica com Hitler a personagem criada por Vermes. Se calhar não são assim tão diferentes, visto que ambos gostam bastante de animais... Ou se calhar até são...


Citações:


"- Ai sim? - exclamei eu, preplexo. - E até lá o que é que eu faço?
- Não sei - respondeu ela, ainda a rir, ao esmo tempo que se virava para ir embora. - Que tal uma pequena guerra relâmpago?"


"Foi então que ela me apresentou a mais surpreendente conquista da História da Humanidade: o computador... "

"Führer rulz"

E se Hitler voltasse à Alemanha? E se os alemães o recebessem de braços abertos? E se....
Berlim, 2011. Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Sente uma grande dor de cabeça. O uniforme tresanda a querosene. Olha à sua volta e não encontra Eva Braun. Nem uma cidade em ruínas, nem bombardeiros a riscar os céus. Em vez disso, descobre ruas limpas e organizadas, povoadas de turcos, milhares de turcos. E gente com aparelhos estranhos colados ao ouvido. Começa assim o surpreendente primeiro romance de Timur Vermes, passado na Alemanha de Angela Merkel, 66 anos depois do fim da guerra. Hitler ganha nova vida. Na sociedade espetáculo, dos reality shows e do YouTube, o renascido Führer é visto como uma estrela, que uma televisão sequiosa de novidades acolhe de braços abertos. A Alemanha da crise, do Euro ameaçado, da austeridade, vê nele um palhaço inofensivo. Mas ele é real, assustadoramente real. E, passo a passo, maquiavelicamente, planeia o seu regresso ao poder – por via da televisão. Sátira ferocíssima a uma sociedade mediatizada, narrado num registo arrepiadoramente fiel ao Mein Kampf, tem tanto de romance político como de crítica de costumes. Afinal, a Alemanha de Merkel, dominadora, obcecada pelo poder e pelo sucesso, está pronta para o receber... e ele está de volta.


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