Tuesday, 11 June 2013

No pós-25 de Abril

Revolução Paraíso
Paulo M. Morais
Páginas: 360
Editor: Porto Editora

Sinopse:
Alternando realidade e ficção, um romance que nos transporta aos agitados dias da pós-revolução: o retrato de um país que, entre o PREC e as eleições livres, procura um novo rumo.

Ler este dia após o 10 de Junho deu um ênfase especial ao livro e ao seu valor. O 25 de Abril é aquela data que nenhum português esquece, é aquela data que fica sempre na memória dos portugueses para que nunca se volte a repetir. O “paraíso” no título é uma esperança para um Portugal futuro, já que o livro retrata o caos e que o país mergulhou após a revolta. As pós-revoluções são sempre caóticas quase anarquistas e “Revolução paraíso” consegue bastante bem mostrar essa confusão especialmente política.

Tendo formação em jornalismo, Paulo M. Morais auxiliou-se no suporte jornalístico para conseguir produzir uma narrativa fictícia com factos e discursos que aconteceram. Esta mistura pode-se tornar cansativa para um leitor que ora é-lhe oferecido nacos de história sobre as personagens, ora tem páginas e páginas de detalhes sobre a vida em 1975. O mais curioso sobre esta obra é o facto de que as duas coisas juntas não tornam o livro excepcional, contudo um leitor pode encontrar duas coisas: personagens e algo menos secante e informação. A não-ficção domina quase o romance todo, nota-se que o autor teve uma pesquisa excelente e incansável sobre o assunto e consegue transportar para o leitor as mesmas sensações de confusão de um povo que não estava habituado a votar, tal como a própria ignorância deste quanto por exemplo às siglas dos partidos que foram a votos em 1975.

Por outro lado, conta-se que houve um certo desencantamento pelas personagens ao tentar dar um simbolismo demasiado óbvio com os nomes (Pandora, Adão e Eva, Viriato) e cujos sentimentos das personagens muitas vezes eram apenas mencionados, sem dar ao leitor a oportunidade para sentir. Contudo a história de Amália, o seu destino e o seu futuro foi o momento que conferiu mais dramatismo e emoção ao livro. Existem outras personagens que retratam de forma exímia a moral do salazarismo, nomeadamente o beatismo e o moralismo de Deodete e Olímpio. Essas duas personagens estão presentes para que não se acredite que no 25 de Abril todos estavam do lado dos capitães de Abril. O destino delas acaba por representar o destino da ditadura em Portugal.

“Revolução Paraíso” é um excelente livro para quem quer saber mais sobre o que aconteceu depois daquele ano de 1974 e o autor pode vir a agradar dois tipos de leitores, contudo ao passo que na não-ficção consegue informar o leitor, na parte da ficção ainda tem arestas a limar, nomeadamente na exposição das personagens. Só a leitura de um próximo romance do autor é que poderá verificar se essas arestas ficaram limadas, que é o que, certamente, farei. Depois de ter estudado o nazismo alemão, julgo que a atitude portuguesa de “always remember, never forget” é a atitude certa. Enquanto os alemães sentem vergonha do que os seus políticos fizeram, Portugal receia constantemente que os seus governantes se tornem Salazares ou Marcelo Cateanos. Livros como este tornam possível que nunca se esqueça o que Portugal passou e ficará para sempre registado de como mais de que uma vez o povo resgatou a sua independência e a democracia triunfou.

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