Thursday, 2 May 2013

Um conto de fadas de época

O Beijo Encantado
Eloisa James
Editora: Quinta Essência
Preço: € 16.6

Forçada pela madrasta a ir a um baile, Kate conhece um príncipe e decide que ele é tudo menos encantado. Segue-se um esgrimir de vontades, mas ambos sabem que a atracão irresistível que sentem um pelo outro não os levará a lado nenhum. Gabriel está prometido a outra mulher - uma princesa que o ajudará a alcançar as suas ambições implacáveis. Gabriel gosta da noiva, o que é uma surpresa agradável, mas não a ama. Obviamente, deve cortejar a sua futura princesa, e não a beldade espirituosa e pobre que se recusa a mostrar-se embevecida. Apesar das madrinhas e dos sapatinhos de cristal, este é um conto de fadas em que o destino conspira para destruir qualquer oportunidade de Kate e Gabriel poderem ser felizes para sempre. A menos que um príncipe abdique de tudo o que o torna nobre. A menos que o dote de um coração indisciplinado triunfe sobre uma fortuna. A menos que um beijo encantado ao bater da meia-noite mude tudo.


Esta história começa com uma carruagem que nunca foi uma abóbora, embora fugisse à meia-noite; uma madrinha que perdeu o rasto da sua pupila, embora não tivesse varinha de condão, e várias pretensas ratazanas que secretamente teriam gostado de andar de libré.

Eloisa James reconta o conto de fadas da Cinderela, enquadrando num romance de época com personagens típicas do romance de época típico dos dias que correm. Existe um fosso bem grande entre uma das primeiras versões da história da Cinderela ou Aschenputtel (como é denominada na língua alemã, em português Gata Borralheira), e as versões da Disney. James pega na espinha da história da Cinderela: rapariga órfã, escrava da sua madrasta, sem nada que conhece um príncipe. As semelhanças acabam aí. Embora a primeira versão de Aschenputtel seja bem mais negra: as irmãs cortam os calcanhares para calçar o sapato de vidro e durante o casamento os seus olhos são arrancados por corvos, James decide ir por uma versão mais light e romântica, fazendo bom uso da mensagem: segue o teu coração e quem amas e manda o dever às favas! Na versão alemã, as irmãs são castigadas por serem más, contudo na versão de James, sentimos que estamos a seguir uma história cor-de-rosa, a madrasta não é assim tão má, nem as irmãs, a própria Kate comete erros e o príncipe está longe de ser um modelo de virtudes. Estes tons cinzentos das personagens contribuiu para uma valorização do livro.

Meninas bonitas em contos de fadas são tão banais como seixos na praia.

Como Eloisa James começa o seu romance “Milagre de amor”, a verdade é que a caracterização da mulher em “O beijo encantado” continua a ser a beleza da mulher. Ainda que Kate tenha direito a mais atributos como um espírito indomável e inteligência/educação, isso não impede de ser tratada sempre como uma mulher sem dote e sem posses. Este factor faz com que a sua aproximação para com o príncipe seja mais natural e embrenhe o leitor na história de amor – a sua espontaneidade para com Gabriel, os seus diálogos e a forma como o trata leva-nos a que tenhamos pena de Kate por não ter o que “merecia”. A personagem de Gabriel é uma mistura entre fascínio e ódio. Tal como em muitos romances escrito por mulheres, os homens parecem ser no início maus e arrogantes para depois terem espaço para serem mudados pelo amor. Gabriel é um homem que se rege pelo dever dever e que não acredita em casamentos românticos. O que ao início parece um bloco de gelo, vai ficando cada vez mais terno para com Kate, sem querer desistir de cumprir o que lhe é esperado como príncipe. Como é típico nestes romances, tanto o homem como a mulher só se apercebem o quanto se amam quando se afastam ou quase perdem o outro.

Um dos pormenores mais engraçados, foi a menção da “french letter” no original e na versão portuguesa “preservativo”. Bem, na verdade não sabemos como se referiam os portugueses ao preservativo, contudo o termo “french letter” é o equivalente, devido ao facto de os franceses usarem bastante o preservativo no século XVII, contudo não entendo porque é que um príncipe utilizaria tal utensílio quando, na verdade, na Inglaterra este era usado apenas com prostitutas (ao contrário da França, onde era utilizado na Corte devido ao teor sexual que se vivia nela).

Em suma, "O beijo encantado" é daqueles livros obrigatórios para quem gosta de contos de fadas e romances de época. Embora eu prefira sempre as versões originais às actuais, visto serem mais negras e moralistas, Eloisa James criou um romance que fará certamente muitas leitoras sentirem o seu peito apertado durante a leitura. Não podemos esperar nada mais do que um "viveram felizes para sempre", visto que os bons são sempre recompensados e todos merecemos ter o nosso verdadeiro amor.

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