Wednesday, 22 May 2013

Nos terraços da revolução



“Queria mostrar um lado do Irão normalmente escondido do grande público – as suas pessoas calorosas, cómicas e generosas.”

Terraços de Teerão
Mahbod Seraji
Editora: Presença
Páginas: 344

“Terraços de Teerão” encontra-se como oposto de uma imagem criada pelo mundo ocidental do mundo oriental. Sou daquelas pessoas que sempre que vai ver um filme onde os mauzões terroristas (sim porque homens orientais mauzões têm de ser terroristas) são os iranianos/iraquianos ou afegão rolo os olhos. Por isso, “Terraços de Teerão” é uma lufada de ar fresco no meio de livros e mentalidades que visam o Oriente como os maus da fita.

Em vésperas da revolução de 1979 que destronou o Xá, Seraji mostra os ideais de um grupo de jovens adultos divididos entre a ocidentalização do seu país e as suas tradições. Durante a história várias críticas são tecidas a estes dois extremos: o extremo dos professores de Ahmed e Pasha que acreditam que a matemática (a razão) e a obediência resolvem todos os problemas, elogiando as ruas dos Estados Unidos e a disciplina dos ocidentais que quando vêem um semáforo vermelho param. A crítica feita aos casamentos arranjados, que o próprio pai de Pasha diz já ser antiquado e que os pais deviam de quebrar com essa tradição e uso da burqa, que no fim representa um elemento libertador ao contrário da conotação negativa.

Seraji constrói duas histórias de amor bonitas, ensinando ao Ocidente que numa terra de um ditador com a SAVAK às costas a controlar o regime nada consegue impedir que os jovens pensem por si. Pasha, Ahmed, Iraj e o Doutor são símbolos da revolta iraniana contra um regime ditatorial. Embora Pasha seja uma espécie de ponte harmonizadora entre Irão e Ocidente, o Doutor tem um misto de ódio e fascínio com a Ocidentalização. Todos eles sofrem com o regime e mesmo aqueles que não são considerados inimigos do Xá, sofrem com a prisão e tortura de pessoas amigas por lerem livros proibidos. A revolta na cabeça destes jovens apega-se ao leitor e tal como Seraji envia uma mensagem de esperança para o seu país, sentimos que no fim também queremos que Irão mantenha a sua identidade, sem o sufoco que foi o regime de Pahlavi.
O amor é um dos principais temas do livro. O amor jovem de Ahmed e de Pasha prende-nos e ensina. O amor é aquela estrela que tal como no telhado de Pasha guia os jovens quando o seu mundo à volta parece ruir ou esmaga-los.

A mulher tem bastante poder na prosa de Seraji: é ela que escolhe quem amar e casar, ela pode-se manifestar através da sua dor, é ela que opta pela burqa para se esconder ou para se salvar. Ao contrário do que muitas vezes vemos, a mulher tem poder e consegue usá-lo para se manifestar.

Terraços de Teerão é um livro muito bonito e obrigatório para quem quer conhecer o outro lado do Oriente, um lado que embora nem sempre bonito, acaba por passar uma mensagem de esperança para o futuro. Ainda que o futuro de Pasha seja o nosso presente e este não tenha sido concretizado, há sempre jovens prontos a lutar pelo futuro do seu país.

NOTA: Para quem não sabe, o Xá Mohamed Reza Pahlavi foi condecorado com a medalha da Ordem de  D. Henrique em 1967.

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