Thursday, 9 May 2013

Escravas: parte I - Vendidas


Para dar início à rúbrica "Em busca do Médio Oriente", escolhi o livro "Escravas" de Zana Muhsen e Miriam Ali da ASA. Não é dos livros mais bonitos para começar uma rúbrica, já que o conteúdo deste é bastante cruel. Contudo, Escravas é um livro bonito, ainda que escrito por dois ghostwriters que vêm anunciados. Gostei dessa sinceridade. Confesso que à própria Zana e Miriam ser-lhes-ia muito difícil escrever sobre a angústia que passaram durante anos, a melhor forma de passar esse testemunho seria através de um outro autor. Andre Croft foi exímio na sua tarefa de passar os sentimentos de Zana para o papel.
No livro “Escravas” estão reunidos três livros: Vendidas, Sem piedade e Uma promessa a Nádia. Vendidas foi um sucesso nos anos 90, a história real levada para os media de Zana Muhsen, uma criança de 14 anos que fora vendida com a sua irmã Nádia pelo próprio pai. Zana e Nádia viviam em Inglaterra com a mãe e irmãos, a mãe, Miriam Ali, que não vivia com o "papá". A inocência de Zana e a sua jovem idade nota-se bastante no início da obra. Croft e Muhsen conseguiram criar um "starting point" bastante lúcido, deixando o leitor sempre ocorrente dos olhos de Zana. Embora, a narração autodiegética é sempre limitada à versão da personagem principal e narradora, especialmente àqueles que gostariam de saber mais sobre a mentalidade dos homens como por exemplo, Abdullah, que estava tão assustado como Zana.

A verdade é que é impossível odiar o marido quando na verdade é um homem fraco e doente, que se sujeita à vontade do pai, como todos os filhos iemenitas. Odiamos, sim, o seu pai Abdul Khala, que é um monstro, que se serve da violência para forçar Zana. Nádia por outro lado parece uma rapariga bastante apática e resignada. Anos mais tarde, Zana disse que fugiu por causa de Nádia, que se não fosse pela sua irmã não teria fugido. Depois de ler estas páginas, acreditamos nisso. Acreditamos que Zana tinha força interior suficiente para infernizar a vida daquela família e que dado o estado de saúde do seu marido, provavelmente ele acabaria por morrer e Zana seria livre. Mas não foi assim que a história se deu, aliás se este fosse um romance ficcional, Abdullah provavelmente seria um homem fraco, mas de coração tão grande que Zana se apaixonaria por ele e teriam um final feliz romântico. Mas a realidade não é assim, e assistimos à luta incessante pela libertação contra as regras, contra a tradição.
De salientar que o mundo para o qual Zana e Nádia são atiradas é um mundo completamente medieval. Tal como Zana mais tarde diz, na capital as mulheres são tratadas de forma bastante diferente do que na aldeia para onde elas foram levadas, onde nem sequer aparece no mapa. Este contraste apresenta-se bastante bem estabelecido: na cidade cosmopolita, onde há uma certa liberdade, mas onde as mulheres ainda pertencem ao homem como se fossem propriedade, algo que dificulta bastante a sua libertação. Libertação esta, que representa uma vitória a nível dos direitos humanos e das mulheres. São bastantes as questões que ficam na cabeça: e se Zana se tivesse conformado e tentado conhecer Abdullah? Será que se calhar encontrava no suposto marido um homem bom? Mas a sua luta representou uma batalha épica a favor dos direitos e ensinou de certa forma que uma mulher não é propriedade e que tem escolhas e direitos. Gostava mesmo que um dia Abdullah escrevesse a sua versão, que se calhar ele estava tão assustado como ela, mas novinho e inexperiente não sabia o que fazer. Que se calhar quis ter uma oportunidade que nunca teve, mas isso são divagações de um coração romântico.

A segunda parte prende-se com a visão da mãe Miriam Ali e a sua luta para ter de volta as suas filhas.
Em suma, a primeira parte de Escravas, para um livro que fora escrito por um ghostwriter é muito bom. Croft pega nos sentimentos de Zana, na sua revolta e angústia e passa-os na perfeição para o papel. O final feliz de Zana faz-nos pensar que mesmo na realidade, por vezes podemos ter um final digno dos contos de fadas, mesmo que o príncipe encantado não exista. No fundo, a nossa heroína regressa a casa, cansada, exausta, mas com esperança que a sua luta tenha inspirado outras mulheres a libertarem-se das suas prisões. Zana é um modelo a seguir, uma inspiração e uma lutadora melhor que muitas personagens por ser real e ter existido.

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