Thursday, 16 May 2013

Anna Karenina: o veredicto final

Anna Karenina
Leão Tolstoi 
Editora: Edições Europa-América
872 páginas
Tradução de: João Neto
Actualizado, anotado e corrigido por Maria Ivanova Miklai


Depois das personagens estarem todas apresentadas, é tempo de entrar na montanha russa de emoções que é o livro “Anna Karenina”. Emoções pode ser mesmo a palavra-chave deste livro e o amor igualmente. Após o baile tanto Kitty como Karenina encontram-se assoladas por sentimentos: Kitty de raiva, Karenina de amor. Todas as personagens tratam o amor de forma diferente. Quando Kitty leva demasiado tempo a admitir que tem sentimentos por Levin, Karenina reconhece a sua paixão por Vronsky, mas tenta ignorá-los. O seu marido, por sua vez, não se importa que Karenina ame outro homem, desde que essa paixão não circule na sociedade de forma a dar origem a escândalos.





Sempre disse que é impossível detestarmos as personagens de “Anna Karenina”, mesmo quando Karenina trai o marido com Vronsky, a consumação do acto é triste e pesada, pois as personagens têm consciência do bem e do mal que estão a fazer. Tolstoy coloca-as contra a parede: Karenina e Vronsky são miseráveis um sem o outro, contudo se continuarem separados essa infelicidade só aumenta. Talvez por isso, o leitor também não consiga ficar feliz por ver o casal junto quando nos é dito que é algo imoral. O destino das personagens é bastante regido por essa moral: as pessoas que se regem pela moral religiosa são compensadas, aqueles que as quebram são castigadas. Contudo nem tudo é preto no branco e Tolstoy parece mesmo criticar a falsidade dos sentimentos: o destino de Karenina é regido pela sociedade e não pela vontade do autor. Aliás, o autor critica, através da personagem de Karenina, a forma como as mulheres eram tratadas na sociedade caso quebrassem os seus votos morais. Ao contrário do seu irmão, Stiva, que dá a entender que os seus encontros amorosos com as perceptoras não terminaram, mas que por ser homem não é castigado. Por isso, através do seu romance Tolstoy convida o leitor a ir além das convenções morais e socias da época e reflectir sobre as mesmas.

Anna Karenina é uma personagem bela no seu carácter e ao contrário de Bovary que mostra-se com um caracter exagerado, Karenina é dócil, uma boa mãe e só quer o que todas as personagens querem: ser feliz e amar. 

No filme, todos os símbolos têm um foco: o comboio, símbolo do progresso e de morte e o cavalo de Vronsky, que simboliza Anna e o seu amor por ela.
Embora a mais recente adaptação de Anna Karenina não tenha sido bem recebida pelos críticos devido à excessiva teatralidade da mesma, todos os temas, símbolos e especialmente emoções das personagens estão bem vincadas. A atracção de Vronsky por Karenina, o desespero de Dolly no início, o sentimento de culpa por parte de Karenina quando chama de “assassino” a Vrosnky enquanto consumam a relação e a pacatez do marido e a alienação no casamento. Todos os sentimentos apresentam-se de forma exagerada, talvez para não restarem dúvidas ao leitor/espectador quanto aos mesmos.

Por fim, “Anna Karenina” é um clássico excelente que mexe connosco de forma racional e irracional. Queremos mudar o destino das personagens e deixar as convenções de lado, ainda que isso seja impossível. Tolstoy era um escritor de personagens: a história já fora escrita por vários autores, mas só Tolstoy conseguiu conferir humanidade às mesmas. Por isso, enquanto leitores resta-nos assistir à tragédia que é esta história de amor e juntar o livro à lista dos “livros obrigatórios.”

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