Friday, 8 March 2013

Romance português de boa qualidade

Alma Rebelde
Carla M. Soares
Editora: Porto Editora
288 páginas

Sinopse:


No calor das febres que incendeiam a Lisboa do século XIX, Joana, uma burguesa jovem e demasiado inteligente para o seu próprio bem, vê o destino traçado num trato comercial entre o pai e o patriarca de uma família nobre e sem meios.
Contrariada, Joana percorre os quilómetros até à nova casa, preparando-se para um futuro de obediências e nenhuma esperança.
Mas Santiago, o noivo, é em tudo diferente do que esperava. Pouco convencional, vivido e, acima de tudo, livre, depressa desarma Joana, com promessas de igualdade, respeito e até amor.
Numa atmosfera de sedução incontida e de aventuras desenham-se os alicerces de um amor imprevisto... Mas será Joana capaz de confiar neste companheiro inesperado e entregar-se à liberdade com que sempre sonhou? Ou esconderá o encanto de Santiago um perigo ainda maior?


Bem passado quase meio ano, notei que a minha crítica do Alma Rebelde continuava em inglês! Ai a tragédia, vou já escrever uma em português, de Portugal. Comprei o e-book na Wook através de um vale que eles estavam a dar – fofinhos, fofinhos que nem eles. 

Quando comecei a ler este livro entendi de imediato porque é que ele fora publicado. Boa estrutura narrativa, bom domínio do português e personagens adoráveis. Quando se lê este livro é impossível não pensar em Lisa Kleypas e Johanna Lindsey (nos seus melhores dias). Não é um romance totalmente histórico, mas consegue ter um cheiro da época e muitos diálogos passam esse cheirinho. O que significa que este livro não teve infodump, nem enumerações típicas de alguns romances históricos portugueses. Serve como um livro para ser lido de forma rápida, como uma história de amor.


O uso do português é bastante bom. Não atrapalha a leitura, embora por vezes exista um sinónimo mais desconhecido, Carla M. Soares consegue colocar as palavras mais complexas num contexto onde o leitor facilmente se apercebe do significado. Não atrapalha, mas ensina.

A história, embora tenha uma estrutura narrativa forte e sólida, peca por ser previsível, mas não no mau sentido. Todas as cenas e actos estão bem planeados e servem o seu propósito. Contudo, visto ser um romance light (mas não brainless), não se pode esperar um fim amargo (embora a autora ainda provoque uns autênticos sustos no fim). Houve apenas dois elementos que me pareceram forçados durante a narrativa, mas não o suficiente para embarrar com o resto.

As personagens movem a história em si. Santiago parece um pouco mole ao início, sendo demasiado afectuoso para com Joana, mas depois mostra-se um homem mais real. Santiago não gosta do facto de Joana casar-se com ele por causa do dinheiro, em vez disso ele tenta conquistá-la e é ele a verdadeira “alma rebelde”. Ao contrário de Joana, que embora no início parece uma mulher burguesa típica do século XIX português, vai-se revelando ao longo da história, quando chega ao ponto de perguntar ao noivo “Julgas que tenho medo de trabalhar?”. Joana é o oposto da figura da mulher, cujo principal objectivo é casar. Ela consegue meter a mão na massa, mostrando-se uma mulher com espírito. A personagem feminina é a que sofre mais mudanças (ao contrário dos romances lá fora, onde é o homem que muda quase radicalmente – de homem chato e frio para um docinho domesticado).

Mas nem de rosas vive um romance e a autora teve o cuidado de ao mesmo tempo que se desenrola as mudanças na vida de Joana, acompanhamos a sua prima Ester, vítima de violência doméstica, que vive autênticos horrores na relação. A autora mostra que nem todas as relações são doces e terminam com um final feliz.

O facto de Santiago, chamar a Joana com o seu diminuitivo “Joaninha” fez-me lembrar constantemente da personagem principal do “Viagens na minha terra” de Almeida Garrett e a menção dos romances polémicos estrangeiros, onde Santiago revela o escândalo da Madame Bovary, onde o autor, Flaubert teve que dizer em tribunal que “Madame Bovary, c’est moi.”

No fundo é um bom livro, ideal para ser ler em pouco tempo, uma boa história de amor com personagens que sofrem alterações e com um fim que nos aquece os corações. Espero ver mais livros da autora publicados dentro deste género, pois Carla M. Soares é a prova que temos bons autores em Portugal e escusamos de importar livros lá de fora que não têm metade da qualidade.

4 comments:

  1. Eu adorei o livro :)
    A escrita da Carla aqueceu-me mesmo o coração :) E aquele final... ^^

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  2. Agora fiquei bastante interessado e tanto a Carla como a Adeselna podem tomar isso como um elogio porque é muito mas muito raro que eu leia um romance (os únicos que leio são da Johanne Harris). Portanto este é, muito provavelmente, um livro que irei ler :D

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  3. Elá! Ainda não li mas acabaste de pôr a fasquia muito alta: Johanna Lindsey não gosto especialmente, embora lhe reconheça o mérito, e Lisa Kleypas é Lisa Kleypas.

    Creio que foi uma forma simpática de elogiares este livro, mas prefiro manter a expectativa um pouco mais abaixo. :D

    De qualquer forma fiquei com vontade de ler.

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