Wednesday, 16 January 2013

Zombies are people too!

Sangue Quente
Isaac Marion
Editora: Contraponto
Páginas: 248


Sinopse:
R. é um jovem em plena crise existencial. É um zombie. Numa América devastada pela guerra, pelo colapso da civilização e pela fome incontrolável de hordas de mortos-vivos, R. anseia por algo mais do que devorar sangue quente. Só consegue pronunciar alguns monossílabos guturais, mas a sua vida interior é rica e complexa, cheia de espanto pelo mundo que o rodeia e desejo de o compreender - bem como a si próprio. R. não tem memórias, não tem identidade e não tem pulsação, mas tem sonhos. Depois de um ataque, R devora o cérebro - e, com ele, as memórias - de um rapaz adolescente, e toma uma decisão inesperada: não devorar a jovem Julie, a namorada da sua vítima, e até protegê-la dos outros zombies. Começa então uma relação tensa mas estranhamente terna entre ambos. Julie traz cor e vivacidade à paisagem triste e cinzenta da semi-vida de R. e a sua decisão de proteger Julie pode até trazer de volta à vida um mundo marcado pela morte?

Tão assustador quanto divertido e surpreendentemente terno, Sangue Quente é um livro sobre pessoas mortas que se sentem vivas, pessoas vivas que se sentem mortas - e o que podem sentir e fazer umas pelas outras. 

Oh dear, oh dear... depois do Eterna Saudade começo realmente a pensar que quem se atreveu a escrever sobre zombies a apaixonarem-se sabiam o que estavam a fazer. Primeiro, porque não se deixaram desleixar na parte do humor e nas explicações e, segundo porque estes livros, Sangue quente e Eterna Saudade (ambos da Contraponto, uh who'd have thought?), levantam questões filosóficas bem mais interessantes do que muitos livros com zombies *cough* Walking dead *cough*.

Safe,’ I tell her, letting out a sigh. ‘Keep . . . you safe.’

A questão inicial de Sangue quente prende-se com a questão de memória e identidade de R., um zombie que lembra-se de muito pouco ou nada da sua vida anterior. O foco no livro vira-se para a mente de um zombie ou undead (whatever you say, bitchies), em vez de focar nos problemas dos humanos que tentam sobreviver. Temos um zombie que tenta lembrar-se de quem é e o porquê de ser um deles (ora só nos primeiros parágrafos temos mais profundidade de muitos outros livros). A questão da memória alia-se às causas da praga. 


I am dead, but it’s not so bad. I’ve learned to live with it. I’m sorry I can’t properly introduce myself, but I don’t have a name any more. Hardly any of us do. We lose them like car keys, forget them like anniversaries. Mine might have started with an ‘R’, but that’s all I have now. It’s funny because back when I was alive, I was always forgetting other people’s names. My friend ‘M’ says the irony of being a zombie is that everything is funny, but you can’t smile, because your lips have rotted off.

Numa mensagem bonita de esperança e amor e com muito humor/trolling à mistura, R. é a caricatura de uma pessoa hoje em dia, cinzenta sem vida, fruto da rotina. A sua relação com Julie evolui de forma alternada entre a vontade de a proteger e a vontade de controlar os seus impulsos mais básicos, como arrancar braços de pessoas vivas e comê-las.

How did this start? How did we become what we are? Was it some mysterious virus? Gamma rays? An ancient curse? Or something even more absurd? No one talks about it much. We are here, and this is the way it is. We don’t complain. We don’t ask questions. We go about our business.

A questão de humanos versus zombies também é abordada, de forma, claro a que os humanos pareçam idiotas, de cabeça sempre fervida, ao contrário dos zombies (ou undeads, whatever) que embora sejam movidos por "urges" básicas, conseguem mudar. A mensagem de Marion passa pela evolução de um ser, que tomamos como irracional e acrescenta-lhe profundidade e humor.

Quem não gostar de zombies filosóficos, com humor e com capacidade para falar (ainda que de forma atabalhoada), mais vale nem pegar no livro. Quem estiver aberto a novas explorações de zombies, Sangue quente e Eterna Saudade tem muitas questões e repostas a oferecer. São livros que com um fundo cómico e divertido passam mensagens bonitas de esperança, lealdade e amor, num mundo destruído.

Em inglês podem ler ainda:

1 comment:

  1. Acho que partilhamos mais ou menos a mesma opinião em relação a este livro, tal como em relação a "Eterna Saudade". São livros que são muito mais do que aparentam para quem está aberto a algo novo. Infelizmente, na minha opinião, grande parte dos leitores pega nas obras apenas pelo puro entretenimento e não consegue ler nas entrelinhas.

    (Depois do discurso...) Gostei da tua opinião, obviamente.
    Beijinho* Boas leituras.

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