Thursday, 3 January 2013

Onde está o branco em ti?

Onde está o branco em ti?
Ricardo Antunes
Editora: Quinta Essência
Páginas: 176

Sinopse:
O amor está vivo. Temos de o procurar enquanto vivemos. Uma estranha e súbita morte leva um grupo de amigos a procurar respostas que os façam encontrar um sentido para aquele inesperado acontecimento. Numa viagem em que se irão confrontar com o mundo, com os outros e finalmente consigo próprios, vão viver momentos de intensa alegria, cheios de risos e afectos, mas também momentos marcados pelas aparências, pelas lágrimas e pelas desilusões. Gradualmente, aproximam-se do limite a que conduzem as suas opções. Nessa altura, dá-se o confronto entre o desejo de deixar tudo para trás e retomar os dias de sempre e a vontade de penetrar definitivamente no caminho que os levará às respostas que, afinal, sempre procuraram.

Foi com bastantes expectativas que iniciei a leitura deste livro. Estava na mira já há algum tempo, mas só no mês de Dezembro tive coragem de pegar no livrinho, que é curto e é esse o motivo pelo qual teve péssimo rating. Em 176 páginas é impossível contar uma história sem recorrer a infodump. Vários acontecimentos em catadupa fazem com que o leitor seja atirado para um mundo de jovens que não está familiarizado mas isso não importa. O autor esquece-se que existe um leitor e expele tudo o que tem para escrever, sem parar para pensar que talvez convém desenvolver a relação amorosa. O livro peca também pelo excesso de "tell" para momentos cruciais: as personagens começam a namorar, traem, contam aquilo que sentem, sem nunca mostrar afecto ou tristeza ou sequer ciúme. O que resulta num livro oco, com personagens pouco cativantes, num emaranhado de acções pouco racionais de uma juventude perdida, à deriva com filosofia de vida imatura. Prova disso são as constantes faltas que algumas personagens dão na escola, e as constantes tentativas de acordar os "adultos" da sua vida rotineira. Há cenas que não fazem sentido: como quando o grupo faz uma manifestação ao colocaram-se nas linhas de comboio para alertar as pessoas do que a rotina lhe estava a fazer à vida - mas quem é que se mete em frente de um comboio para alertar sobre a rotina?? Se fosse em defesa das crianças com HIV em África, tudo bem - mulheres vítimas de tráfego humano - ok - crianças que são exploradas e ganham 50 cêntimos por dia?? - Sure, metam-se nas linhas de comboio para protestar contra isso... mas contra a rotina? Iam-se matar por causa da rotina?

Outra cena que não faz sentido é quando o protagonista vai a uma entrevista de emprego para apresentador do telejornal porque pensa que vai mudar o mundo (mas ele acabou o secundário?) e consegue o emprego, no meio de 700 candidaturas... sem licenciatura? Sem cunha? By mere pure luck?... are you fucking kidding me? Eu conheço N jornalistas desempregados e o autor escreve sobre um puto mimado de Cascais, que não sabe o que quer da vida e consegue um emprego just with fucking luck? Aqui achei que simplesmente estava a gozar com a minha cara, porque quantas pessoas não conheço com mestrado que não arranjam emprego e aqui está expresso um facilitismo obtuso.
O cerne da história: o amigo que se matou e deixa vários documentos de computador encriptados para os amigos descobrirem, só me deixou um sentimento: dude, you had a lot of trouble before killing yourself! Quer dizer, se deixasse um bilhete - tudo bem. Uma carta, ok... agora vários documentos que são apenas textos de um rapaz em depressão e vagos? What for? Porquê colocar diversas passwords, pistas etc para um amigo tentar encontrar e ler as tuas tretas suicidas? Ele nem explica o porquê de se suicidar, está depressivo, parece que anda a ácidos e puff mata-se... Não é por nada, mas muita gente que se suicida não planeia: saltam de comboio, tomam cianeto, é preciso coragem para chegar ao momento e fazê-lo. Por isso, até o suicídio do amigo parece falso e apenas um conflito estrategicamente colocado para haver história, quando na verdade, não há necessidade nenhuma de haver aquele suicídio.

As personagens são ocas disfarçadas de pseudo-filósofos. Prova disso é como citam Nietzsche, mas não passam de pessoas temperamentais que não sabem o que querem da vida.





MEGA SPOILERS
*you have been warned*
Como por exemplo quando a rapariga trai o protagonista, nem acaba com ele e começa logo a namorar com outro rapaz sem lhe dizer... Ok tudo bem, a rapariga é uma besta, still depois de saber o protagonista diz que TEM SAUDADES DELA!! DEPOIS de ela o trair?! Are you kidding me? Ele nem fica chateado.
MAIS MEGA SPOILERS
Numa saída à noite, um rapaz tenta vender droga a um rapaz do grupo e ele passa-se da cabeça e saca de uma pistola... e foi aqui que o meu cérebro desligou e pensei: quem é o rapaz menor de idade (acho eu), que anda com uma arma na rua? Tudo bem, não sabemos NADA de nenhuma personagem, sem ser que querem mudar o mundo, mas mesmo assim: background, não? Pois...em 176 páginas nope, no time for that! INFODUMP all the way.






O livro tinha claramente muito espaço para explorar, principalmente personagens, de onde vêem, o que estudam, quais os seus objectivos de vida. As emoções tinham de ser mostradas e não ditas, como se o leitor fosse burro e acima de tudo, dar a mão ao leitor. O livro abandona completamente o leitor e nota-se que é mais uma história que o autor quer forçar-se a escrever do que a contar para alguém. Não há um tu do leitor, mas apenas um eu do autor.

Meninos, eu não duro para sempre, mas sigam o que aqui a Ruiva diz, que não se arrependem. Deixem de lado essas tretas do infodump e do tell atabalhoado que só vos prejudica! Invistam no show, desenvolvam as vossas personagens. Levem anos a escrever um livro, isto não é uma corrida para ver quem publica primeiro. Se demorarem anos a escrever algo bom: fantástico. Depressa e bem, há pouco quem. Se o Tolkien demorou anos a escrever os seus livros, não se apressem.

Não duvido que tenha havido pessoas a gostarem deste livro, prova disso são as várias 4-5 estrelas no Goodreads, contudo isso não implica que o livro seja um flop total, cheio de infodump com pouco espaço de desenvolvimento.

1 comment:

  1. Por acaso, até teres referido que iria ler, não tinha reparado neste livro, nem me tinha apercebido de que havia um autor Português na QE.

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