Tuesday, 15 January 2013

Nova Iorque contada por um irlandês

Sempre tive a impressão (talvez errada) que os irlandeses são pessoas bastante amistosas, com que se pode partilhar uma caneca de boa cerveja depois de um dia horrível no escritório, ouvir umas piadas e depois voltar para casa. Uma posição face a um estilo de vida que tem tudo para ser frenético. A Irlanda e Nova Iorque de Behan não é a mesma que a nossa. O autor (poeta e dramaturgo) irlandês publicou a sua versão de Nova Iorque em meios da década de 60 e só há dois anos atrás chegou às livrarias portuguesas através da colecção de literatura de viagens.




Nova Iorque
ou Brendan Behan's New York
Brendan Behan
Editora: Tinta-da-china
Ilustrações de Paulo Hogwarth


O que o leva a ler literatura de viagens?

Literatura de viagens são um vício recente e que ainda tem pouco peso nas nossas livrarias. Contudo, nada me satisfaz mais do que ver autores conceituados a largarem as suas histórias complicadas, a abandonar as máquinas de escrever com os próximos manuscritos prontos a serem publicados, pegar num bilhete de avião (ou até ir de carro) e registar um olhar novo.
Um livro de viagens é muito mais do que descrever as paisagens ou um povo. Nele está centrado todo um ponto de vista daquele autor, naquele momento com a influência de um certo estado de espírito. Tal como ninguém conta uma história da mesma forma, os autores de literatura de viagens impossibilitam a mesma cidade de ser revisitada da mesma forma. Quando Peter Carrey visitou o Japão, guiado pelos filmes japoneses e em memória das vítimas do ataque de Hiroshima e Nagasaki, a visão do seu filho era especialmente motivada pelo visível avanço tecnológico e as mangas. A mesma visita resultou num livro com experiências diferentes. Nunca iremos ler a mesma cidade num livro de viagens e aí está a riqueza deste tipo de literatura.
Se é complicada a tarefa de registar uma viagem, o trabalho de um crítico revela-se mais ingrato. Torna-se impossível apontar defeitos a experiências vividas por outras pessoas, mais quando nunca visistamos

O quão diferente é Nova Iorque da Nova Iorque de Behan?

Behan sempre teve problemas
com a bebida. Desenvolveu
diabetes, que o levaram a várias
comas e problemas de saúde.

A Nova Iorque de Behan é bastante coloquial e difícil de seguir. Quase consegue imaginar a voz de um irlandês grave, um pouco rouca a descrever-lhe uma viagem que fez aos Estados Unidos da América. Behan perde-se, divaga, conta piadas (que teriam tão mais piadas se estivéssemos num pub a ouvi-lo contá-las), mas consegue dentro de uma marca oral, deambular pela cidade quase sem destino, numa espécie de sucessivos acasos, que no fim acabam por puxar o leitor de um lado para o outro sem tempo de recuperar.

Depois de ter estado em Nova Iorque qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-á conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro.

A Nova Iorque de Behan reflecte-se, sobretudo, na sua romaria por bares, pubs, clubes, na velocidade com que acontecem as cenas, cruzando a realidade com um misto de reflexões ou de comentários feitos pelo próprio.
- Oh, não - argumentei. - Por amor de Deus, o uso que ela faz da gramática não lhe dá o direito de ganhar o primeiro prémio.
Ora eu sei tanto de gramática quanto o meu traseiro sabe de tiro ao alvo, o que, garanto-vos, não é muito, mas estava numa situação desesperada, de maneira que não tive alternativa senão deitar abaixo a rapariga para ajudá-la. Por fim, lá consegui convencer o homem a mudar de ideias.
- Quer reduzir a carta dela para o terceiro prémio? - perguntou-me ele.
- Ah, não, ela merece o segundo. A gramática também não é tudo. 

O uso de trocadilhos com palavras reflecte o choque de duas culturas: americana versus irlandesa, através das conotações dadas a uma palavra.


(...) Brendan é cá dos nossos; um verdadeiro pró.
Em Inglaterra, chamar isto a alguém não seria propriamente um elogio*.
*(pro pode ser prostituta)
- Meu Deus, o que queres dizer com isso, «um verdadeiro pró»?
Então, Jim explicou-me que se estava a referir aos escritores profissionais.

A Nova Iorque dos anos 60, é um retrato repleto de humor e com uma visão de fascínio por uma cidade que Behan mostrou ao público no ano da sua morte. Para quem nunca visitou a cidade, poderá seguir o mesmo roteiro que Behan aos frequentar os bares, conhecer pessoas e deixar que as ruas da "Big Apple" nos guiem.

Já vi pessoas com homossexualidade, tal como já vi pessoas com tuberculose, e não há qualquer tipo de semelhança.

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