Tuesday, 16 October 2012

O imaginário de João Barreiros

A Bondade dos Estranhos
O projecto candy-man
João Barreiros
Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 152
Editor: Edições Chimpanzé Intelectual

Sinopse
Apesar de ser um livro de leitura perfeitamente independente, este é o 1º volume daquela que será a 1ª Trilogia de Ficção Científica Portuguesa, intitulada " a Bondade dos Estranhos". É uma aventura contagiante, escrita com um ritmo frenético e um sentido de humor muito cáustico, (típico de João Barreiros, incontestavelmente considerado o maior nome da literatura séria de Ficção Científica em Portugal) que nos oferece todo um polémico universo futurista por desbravar, em que os humanos dividem a terra com três espécies alienígenas, que nos prometem utopias distintas. Neste 1º volume, a jovem Joana, a heroína da obra, sujeita que foi a um projecto científico que lhe dá um nível de empatia superior ( o projecto candy-man) é chamada para tomar conta de 500 crias aleinígenas, que são tudo menos crianças, numa espécie de "jardim de infância" que se revela um ecosfera alienígena fascinante e muitíssimo perigosa.

Apesar de ter dado 3 estrelas no Goodreads (Ai o mal destas estrelas), antes de passar à crítica posso dizer que gostei do livro e houve cenas onde adorei e disse "Muito bem pensado". As três estrelas referem-se claramente às personagens, à história criada pelo autor e pelo seu fabuloso uso de humor. E antes de me alongar mais gostaria de dizer que o João Barreiros consegue melhor. Hell, o homem é considerado o melhor escritor tuga de FC e depois destas 150 páginas queria o verdadeiro twist como "A verdadeira invasão dos Marcianos". Tal não aconteceu e ficamos algo enervados por ver algo com tanto potencial ficar-se apenas por uma história assim. Agora passando para a crítica.

João Barreiros entra a matar numa noveleta (que até é tuga) com bastante vocabulário em inglês para abrir a história com o "initial incident" que mais tarde se ligará à história principal. Barreiros não tem papas na língua e é delicioso entender o seu humor. Problema: nem todos lêem inglês ou alemão. E embora seja contra o excesso de tradução em notas de rodapé, a palavra "Angst" (medo em alemão) precisava realmente de uma nota para entenderem a piada. Acho que se este livro tivesse chegado a um público mais abrangente, as pessoas não iriam entender a dica e, ou sentir-se-iam confusos, ou então não entenderiam a piada. Ler e não entender para mim é igual a não ler nada. Mas nem sempre o humor do Barreiros se faz passar através das palavras. A personagem Joana é um menina que pelos vistos se passa do carretos e ferve em pouca água. É uma anti-heroína em todos os níveis: é desconfiada, resolve as coisas com pouca paciência e com muita violência, tudo por causa do projecto Candy-Man.

A grandiosidade do livro centra-se mesmo neste projecto. Uma experiência que foi feita em alguns meninos, lá vinha o Candy-man e se calhasse aquele candy, os meninos seriam muito sortudos. Óbvio que calhou a Joana, mas o engraçado é a sua reacção face ao candy. Porque é que haveria de comer um doce oferecido por um estranho? Sempre lhe disseram para nunca aceitar nada de estranhos! 1º lição que Joana aprendeu foi mesmo essa. O comprimido/candy mudou-a para sempre (e meninos autores aprendam que o Tio Barreiros não dura para sempre, assim se justificam coisas numa história em vez de ficar com pontas soltas). Embora o projecto faça parte do passado de Joana e apresenta consequências para a história principal, esta é bastante simples. Joana, de forma a soldar a sua divida para com o Estado Português (ahhh Portugal na FC), terá de tomar conta de nada mais do que 500 crias alienígena... com a ajuda de uma arma, claro. A história salta entre passado e presente e se a noveleta começa muito limpinha, o final (que o sr. Luís Filipe Silva devia de pegar *cough* *cough*) é uma completa bloody mess. 

Mas o autor consegue fazer melhor (e já conseguiu com a verdadeira invasão), algo que não funcionou bem foi a introdução da Virgem Maria na história. Barreiros habitua-nos a ter tudo planeado, sempre com justificações plausíveis, mas a Virgem Maria e os pastorzinhos foi colocada a martelo, sem justificação e representou apenas uma handicap para a plot avançar (uma estrela a menos) e o twist genial típico do Barreiros nunca chegou a acontecer (menos outra). Permanecem as três estrelas pela história muito bem planeada, as personagens bem construídas com motivos e objectivos claros e o cenário/imagens que o autor consegue manter bem vivas na mente do autor.

Agora tenho para ler "Se acordar antes de morrer" onde o autor juntou os seus contos e ainda a continuação de "Um dia com Júlia na Necrosfera".

19 comments:

  1. Obrigado, Ana pelo cuidado e atenção para com o meu livrinho. Só tenho a acrescentar que o Síndroma de Fátima existe mesmo no mundo real. Experiências feitas no laboratórios, nos states (anos80 acho eu), provaram que, se bombardearmos os lobos parietais de qualquer ser humano com um campo electromagnético intenso, desperta nesse indivíduo profundos estados mistico/religiosos, incluindo mesmo visões de divindades. Mesmos ateus. Claro que essas visões variam consoante a cultura de quem as sofreu. Sendo Joana portuguesa e portando de um universo judaico/cristão, é natural que estas visões se materializem na forma da Virgem..

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  2. ....Ora qual é a intenção dos Spleen? Conglomerar a espécie humana num antegosto de uma metaconsciência (a famosa Singularidade do Vinge ou o Ponto Ómega do Teilhard de Chardin. Para isso estavam a construir na Libia um mega portal capaz de seduzir por inteiro Islâmicos e Budistas. Mas os Spleen, sendo quirópteros marsupiais, todos eles trazem consigo, na bolsa, um mini gerador. Foi esse gerador a funcionar em pleno, ali deixado para o Arravold se vingar da mulher, que a nossa amiga Joana apanhou por inteiro. As visões arrancaram. A Virgem não seria pois, mais do que a visualização memética do interface com a metasingularidade.

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  3. Não te esqueças que a Joana era uma feromemética. E que materializava em ícones visuais, qualquer tipo de informação transmitida directamente ao cérebro. Quando a esfera de singularidade se activou, Joana "viu" a interface sob uma forma que considerava familiar, tanto mais que já sabia que a proximidade de um Spleen podia provocar uma crise brutal de conversão mística. O "Síndroma de Fátima" é conhecido neste universo pelas sociedades humanas: baseado no que aconteceu em Fátima, podemos dizer que, quem lá estava presente, foi infectada por um meme viral. Os Spleen aproveitaram-se desse programa imanente a toda a cultura humana.

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  4. Ok. Então todos nós temos "visões" religiosas mesmo sendo ateus? Ao que parece...E para quem servem elas, em termos antropológicos? Servem de força coesiva entre os membros de uma determinada tribo. Quem se une sob a pata de um determinado deus, tem mais oportunidades de sobreviver do que um grupo étnico de ateus consumados. Bom...Antonin Artaud enlouqueceu quando regressou dos states. A verdade é que o desgraçado foi tomar mescal juntamente com uma tribo do Novo México. E viu os deuses deles. Sujeitou-se à contaminação memética da tribo. E passou-se dos carretos, claro.

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  5. John c. Wright, um autor ateu de Fc publicado pela Presença, entrou em paragem cardíaca, passou pela situação de morte aparente, viu Jesus, o Céu e o Bom Deus e, ao regressar desse estado alucinatório provocado pelas endorfinas do cérebro em vias de morrer, converteu-se, e agora só escreve tretas, o infeliz. Espero que a nossa amiga Joana tenha resistido melhor do que ele, ao ponto de convencer a Singularidade a multiplicar-lhe os dedos e a transformar em Super-nova a estrela original dos Cabeças-de-Abóbora. Ao fim e ao cabo, na minha novela, a Virgem e os Pastorinhos não são mais do que um ícone num megacomputador onde se carrega para estabelecer uma comunicação. Um ícone adaptável à cultura de quem o utiliza. A única solução para a Joana poder escapar-se à guerra do divórcio, seria utilizar o gerador de Singularidade. E, se o utilizasse, teria de clicar no ícone, ou seja na Virgem.

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  6. Ao fim e ao cabo, perguntarás tu, de que trata afinal a Bondade? Ora, trata de um divórcio radical. Moral da história? Entre marido e mulher, não metas a colher...
    Desculpa, Ana, tanta verbosidade. Mas tinha de tornar clara a presença da Virgem. Era suposto o Seixas ter falado da zona de exclusão de Fátima, onde os Spleen instalaram à sorrelfa um macro gerador. Agora ninguém lá entra, numa extensão de dezenas de quilómetros. Pois se entrar, trama-se. Ou seja, converte-se. Era suposto, sim, mas, como todos nós sabemos, ele nunca mais vai escrever a sequela. Nem ele nem o Luís. Shame on them.

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  7. Bom, quanto aos conceitos de Assimilação e Acomodação são conceitos retirados da psicologia genética do Piaget. São estádios por que passa uma criancinha antes de atingir um nivel cognitivo superior. Do confronto entre a Assimilação e a Acomodação, surge o Equilíbrio, até que haja algo de novo que inicie um novo desequilibrio e por consequência a necessidade de uma nova Assimilação. O cérebro adapta-se deste modo, passando a estádios cada vez mais complexos, até atingir as operações formais, aí por volta dos 12-16 anos. Eu mudei o Equilíbrio para outro termo:Fusão. O ponto onde a Joana perde a humanidade e passa a ser um híbrido alienígena. Joana tornou-se num monstro. E como monstro wue é, fundiu-se em quatro espécies diferentes.

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  8. Joana come os Cabeças-de-Abóbera, come os Angst, fertiliza-se com a Esfera da Singularidade dos Spleen. Tornou-se numa criatura pós-humana. E conseguiu tomar de assalto a Empresa da Vielmina Spratz. Um hostile take-over, como se fiz na gíria. Bom, que querem os Spleen? Querem converter TODAS as espécies. Que querem os Angst? Criar uma Mónada Gestalt de todos os seres vivos, anywhere. E isto porquê? Porque no Fim dos Tempos, quando o Universo colapsar num imenso Buraco Negro, só poderá haver UMA Singularidade. Qual delas? A dos Angst ou a dos Spleen? Mas como o Universo é quântico, teoricamente, tal qual como o gatinho de schrodinger, AMBAS existem potencialmente. Até que se abra a caixa.

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  9. Ai que chato que eu sou...mas disseste que a Virgem apareceu ali, de repente, à força da machada...Mas não. Já no prólogo, Wiston falava que se sentia feliz por não ter de sofrer com o Síndroma de Fátima. E dizia que estava imune por ter tomado o comprimido "verde". Assim podia realizar trabalhos de wetwork entre as comunidades Spleen, sem ser atormentado por visões religiosas. Este comprimido só a poucos é dado. Ou seja, apenas a quem estiver ao serviço exclusivo da companhia de drogas psicotrópicas do Arravold. Companhia essa que a Vielmina tomou de assalto. E sabotou todos os stoques de comprimidos, provocando assim a morte a quem os provou. Joana é uma das raras sobreviventes do processo. Mesmo assim sofreu uma overdose.

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  10. Jesus... volto daqui a um ano, quando tiver absorvido toda a info XD

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  11. Hihi...i'm so mean...i was born evil...

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  12. http://en.wikipedia.org/wiki/God_helmet

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  13. Ora aqui está aquilo que ru andava à procura:

    http://www.transhumanmedicine.com/2011/08/03/is-god-in-our-brain/

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  14. Comecei a ler este livro (cópia gentilmente oferecida pelo autor *bows*) anteontem e ainda não parei.

    Em relação às (malditas das) estrelas do Goodreads: é algo injusto atribuir uma estrela a menos ao autor por causa das expectativas que se têm em relação ao seu trabalho, non? Cada livro é um livro independente. Nem todos precisam de um twist no final para funcionarem bem. O facto de o autor, pela frequência de uso em obras anteriores, nos habituat a twists, não significa que esteja em falha quando termina uma obra sem eles. Digo eu xD

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  15. Este livro é o remake redux do Disney no Céu entre os Dumbos e os 4 Milhões de Lolitas com sopros de A Arder Cairam os Anjos. Or so it seems. Isso e alguns paralelismos com os mais recentes do Egan.

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  16. Fiquei com uma vontade enorme de ler este livro :)

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  17. Com os romances fo Egan? Arre, Loureiro, sgora estou comovido. Nunca pensei chegar aos calos do calcanhar co Egan. Thanks a lot, meu!

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  18. Escrevi Egan e pensava no Bear. My bad que os confundo sempre.

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  19. Ag, ok, já estou mais descansado. Humildemente confesso que não percebo 70% dos livros que o Egan escreve.

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