Thursday, 20 September 2012

Entrevista a Célia Loureiro

ENTREVISTA A CÉLIA LOUREIRO
Autora de “Demência” e o “O Funeral da Nossa Mãe”



A autora Célia Loureiro prepara-se para publicar o seu segundo romance “O funeral da nossa mãe” pela Alfarroba. Após uma viagem a terras celtas, não haveria melhor timing para entrevistar uma autora com as baterias carregadas.

Célia se pudesse escolher um local com casa paga, onde pudesse dedicar somente à escrita, qual seria?
Antes de mais, obrigada por me porem a reflectir sobre este género de coisa. Na realidade já tinha pensado bastante nisso. Se pudesse… se tivesse meios de me isolar só para escrever, para onde iria? Durante anos julguei que poderia refugiar-me numa das bonitas aldeias do nosso país a criar qualquer coisa de muito zen e introspectivo. Mas então compreendi que é precisamente o viver e o mover-me que me traz inspiração. É o ter rotinas, o quebrá-las, o ter hábitos e contrapô-los a coisas novas que me faz querer criar algo a esse respeito. Por muito romântica ou poética que seja essa ideia, não estou a ver-me isolada para escrever… Mas há aqui um apartamentozinho pequeno em Almada velha, a pedir lírios brancos nas janelas e mobiliário antigo, quem sabe um gira-discos também, aonde talvez pudesse ir descarregando, com tranquilidade, aquilo que vou apreendendo da vida e que me faz querer escrever.

O seu primeiro livro “Demência” trata temas delicados como o Alzheimer e a violência doméstica. Que tipo de pesquisa foi realizada de modo a ser fiel a esta realidade de muitas mulheres em Portugal e não só?
Infelizmente não tive grande necessidade de pesquisa quanto à violência doméstica – os casos sucedem-se na televisão, jornais, rádios, etc. Fala-se bastante nisso, as mulheres dão a cara e contam as suas histórias em qualquer programa da manhã da televisão nacional. Bastou-me estar atenta, conhecer a opinião em redor e as sentenças aplicadas. Quanto ao Alzheimer, tive uma bisavó que tinha Alzheimer. Não me era especialmente chegada, porque quando eu comecei a ter discernimento já o dela estava gravemente comprometido pela doença, daí que só tenha conhecido o lado menos “saudável” dela, o lado que a doença espelhava. Já na altura tinha lido bastante e agora também li bastantes artigos a esse respeito. Às vezes surgiam numa sala de espera, eu rasgava a folha – coisa tão bonita – e metia-a na mala para depois digitalizar para o computador e ir lendo quando tivesse tempo. De resto, quando se volta atrás no tempo, por vezes também se é necessário confirmar alguns pormenores. Mas no fundo é isso que me dá prazer na escrita, descrever uma realidade genuína, embora não contemporânea por vezes, ou não ao alcance do meu total discernimento, e aprender também eu a seu respeito.
Como é que as personagens surgem nas suas histórias?
Às vezes a personagem é mais importante do que a própria história. Não no caso do “Demência” em específico, mas há personagens que, por si mesmas, só poderiam ter aquela história e a carregam em si com credibilidade. Não gosto de estereótipos, tento afastar-me um pouco disso, mas também um pouco dos meus gostos. A Letícia, por exemplo, é loira; não em busca do ideal de beleza, mas porque assim já se destaca de toda a gente, já fica à margem de todos, que espero que imaginem morenos e grisalhos, ou simplesmente morenos. Ela está à parte e até o cabelo marca isso. É meio desajeitada no trato, não se esforça por que gostem dela, já não quer gostar nem confiar em ninguém para que não voltem a deixá-la mal. Podia pegar na descrição atrás e metê-la num romance qualquer – a pobrezinha foi magoada e não quer voltar a sofrer – mas eu gosto de trabalhar realidades mais complexas. Isso todas sofremos constantemente; desilusões e recomeços. Dói muito na altura mas ultrapassa-se com facilidade. A Olímpia estava extremamente vulnerabilizada pela doença: logo quis que o outro lado da moeda fosse um passado de luta intensa e uma vitória triunfante. Assim entende-se que a vulnerabilidade é algo que lhe é imposto, ela lutaria sempre enquanto pudesse. A personagem costuma surgir-me antes da história, é assim que tem sido geralmente. Custa-me mais criar as estruturas do romance e depois povoá-las de gente. Prefiro partir da história pessoal de alguém, da sua personalidade, e encaixá-la num ambiente que convenha.
Tem programado segundo o Goodreads três livros de romance histórico referentes à Trilogia do Vinho. Qual o principal desafio quando se escreve romances históricos?
Terei de refazer bem esse conceito de “Trilogia do Vinho”. O vinho tem um papel terciário – nem digo secundário – em dois desses romances e secundário, vá, no terceiro e último. Mas é algo em comum aos três. Aconteceu ser uma trilogia. Tinha escrito o terceiro, dei por mim extasiada em relação ao terramoto de Lisboa de 1755 e elaborei assim o enredo do primeiro. E depois tive a ideia do segundo, que estou quase a terminar. Os desafios têm sido mais do que muitos… Adiei a escrita do primeiro (“1755”) porque achava que não tinha informação suficiente sobre a época, quis reunir mais. Reuni trinta páginas de pesquisa de qualidade e rendeu-me apenas seis páginas introdutórias ao romance. Então julguei que precisaria de dez anos para escrever um romance histórico… E lancei-me ao “1809” só para ver no que dava, porque não tinha tanta fé nele como no “1755”. É assim que os apelido, temporariamente, para me situar. Em menos de seis meses cheguei às quatrocentas páginas. Para elas contribuíram centenas de páginas da Gazeta de Lisboa – 1805, 1806, 1808, 1810 – e ainda o diário de Clarissa Trant, digitalizado directamente de um Campus Universitário na Austrália, e não termina por aí … Adquiri bibliografia, vali-me da que já dispunha, visitei as bibliotecas do meu concelho, pesquisei em sites especializados na época de fontes fidedignas, li obras de época, estudei a arte da altura para poder visualizar estas personagens todas – algumas conhecidas – que acabo por mencionar. Não é fácil e, a cada dez páginas, há um soluço. Tenho de parar e pesquisar acerca de algo novo, mas considero que estou a pouco mais de cem páginas do fim e tenho um grande carinho por este romance. Terei também um trabalho exaustivo posterior para compor tudo. Este precisa mesmo de ser muito bem alinhavado, não basta “talentos” para a escrita. Vamos ver aonde vai, porque penso que possa ir longe. A mim entretém-me sobremaneira e estou constantemente a ir atrás relê-lo por prazer.

Afirmou que não era adepta de romances de fantasia. Se a incitassem a escrever um romance paranormal, por onde começaria?
Paranormal incluí o quê? Criaturas que se infiltram neste mundo por onde caminhamos? Se assim é não faria ideia. Não sei lidar com vampiros nem fantasmas nem lobisomens… Mas gosto bastante de lendas, bruxas, princesas, fadas, etc… Talvez algo tipo Game of Thrones com uma heroína forte como personagem principal – claro que nunca chegaria à sua qualidade, mas depois de visitar a Irlanda, não posso deixar de querer escrever algo místico relacionado com esse país de duendes e fadas. O que é que a irrita mais quando está no processo criativo da escrita? A pertinência da narrativa. Pergunto-me por vezes se aquilo que me entretém a mim entretém também o leitor. Mas irrita-me, sobretudo, a falta de tempo para poder limar as arestas das obras como bem entendo, para poder pesquisar, registar e trabalhar tudo o que preciso para continuar a aprender e transmitir algo de importante naquilo que escreva. Irrita-me que seja incapaz de escrever ao ritmo dos meus pensamentos, o que me faz perder bastante tempo. Acima de tudo, odeio o meu teclado. Basicamente é isto.

Que temas gostaria de trabalhar nos próximos livros?
Na continuação de “O Funeral da Nossa Mãe”, vai surgir uma personagem com uma deficiência. Gostaria de tratar esse assunto mais a fundo, talvez venha a dedicar um livro à dor de ser mãe de uma criança diferente. À dor mas também ao sabor do triunfo dessas mães, que acabam por ser umas heroínas ainda mais do que as das crianças normais, e que por vezes abdicam muito mais das suas vidas em prol do bem-estar dessas crianças. Quero escrever sobre perder-se um filho. Já tenho um romance nesses termos mas precisa de ser melhorado. Quero escrever um romance dito romance – explorar o amor de uma faceta saudável. Mas também quero escrever um romance dito romance – mas explorar o amor de uma faceta doentia, que me parece mais interessante. Quero falar do amor de irmãos, da pobreza e de vingança. Quero muito escrever algo plausível sobre vingança. Não como no Conde de Monte Cristo, mas daquela que acaba por fazer mal à própria pessoa que se vinga (ainda não terminei o Conde, não sei bem como acaba o Dantès), quero que essa vingança seja quase inconsciente, simplesmente aconteça. É isto que tenho em mente de momento.

1 comment:

  1. Olá!
    Passei-te um selo no meu blog: http://ruthy-viajante.blogspot.co.uk/2012/09/selo-versatile-blogger.html

    Boas leituras!

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