Tuesday, 25 September 2012

Bradbury é... well he's Bradbury!

Não comecei pelo Fahrenheit 451, porque não me apeteceu! Ponto. Queria ler algo diferente do autor que não fosse ficção científica e disseram que este livro é muito bom. Ora bem, sim é, confirmo. Não é o melhor dele, não é obra-prima, mas um Bradbury será sempre um Bradbury.
O estilo próprio de escrita e o ambiente são entraves à leitura no início, mas cedo somos sugados pela estranheza da narrativa. Mas primeiro a sinopse em inglês que dá para entender mais ou menos a premissa:

Ray Bradbury, the undisputed Dean of American storytelling, dips his accomplished pen into the cryptic inkwell of "noir" and creates a stylish and slightly fantastical tale of mayhem and murder set among the shadows and the murky canals of Venice, California, in the early 1950s.Toiling away amid the looming palm trees and decaying bungalows, a struggling young writer (who bears a resemblance to the author) spins fantastic stories from his fertile imagination upon his clacking typewriter. Trying not to miss his girlfriend (away studying in Mexico), the nameless writer steadily crafts his literary effort--until strange things begin happening around him. Starting with a series of peculiar phone calls, the writer then finds clumps of seaweed on his doorstep. But as the incidents escalate, his friends fall victim to a series of mysterious "accidents"--some of them fatal. Aided by Elmo Crumley, a savvy, street-smart detective, and a reclusive actress of yesteryear with an intense hunger for life, the wordsmith sets out to find the connection between the bizarre events, and in doing so, uncovers the truth about his own creative abilities.

Bradbury é um escritor, que mesmo com uma tradução que tem momentos menos bem conseguidos, consegue criar na mente do leito um cenário típico "noir", com personagens estranhas e marcantes. "A morte é um acto solitário" pode ser apelidado de policial, embora fuja do mainstream (e ainda bem) e consiga guiar o leitor, ajudando-o por vezes e, noutras, larga, deixando o leitor à deriva, duvidando de tudo e de todos.
Nota-se que Bradbury tem duas fixações: o circo e personagens femininas obesas. 
As personagens deste livro são bizarras, mas algo de fresco num mundo literário povoado de personagens de cartão. O barbeiro que mal sabe cortar cabelos, a cantora de ópera obesa, cuja dispensa está cheia de frascos de maionese, a ex-actriz de filmes mudos Constance Rattigan, que nos relembra Norma Desmond do filme "O crepúsculo dos deuses" e Crumley, o detective que investiga as mortes com a ajuda do narrador. O narrador é uma personagem complexa, talvez uma projecção do próprio Brabury, ou seja, um escritor que começa a ter sucesso com os seus escritos (A morte é um acto solitário foi a sua segunda obra depois do livro "Algo maligno vem aí, traduzido pela Saída de Emergência).
"A morte é um acto solitário" não é um livro fácil, mas rapidamente somos sugados para a prosa característica do autor, que nos marca para sempre. 

Um Bradbury, será sempre um Bradbury. Nunca irão ler outro livro igual a este.

1 comment:

  1. O meu sentimento em relação a este livro, é que ele já se situa na fase decadente do Bradbury, onde este nosso amigo começava já a ser um retrato dele mesmo. Ou seja, Bradbury pega nas temáticas dos velhos contos, passa-lhes uma esfregona em cima para ninguém notar, e pimba, volta a colocar tudo no mercado. É a nostalgia a chupar uma pastilha de nostalgia. Infelizmente os velhos dinossaurios passaram todos por esta fase. Frank Herbert e as intermináveis sequelas da Duna. Clarke e as intermináveis sequelas do Rama. Asimov e as intermináveis sequelas dos robôs. Heinlein e as intermináveis sequelas do pedófilo imortal. Simak e intermináveis revivalismos agrários. Não há como fugir. Ás vezes, maldade minha, penso que se eles tivessem morrido uns anitos antes, a obra deles seria perfeita. Perfeita como a do Kornbluth, Cordwainer Smith, Henry Kuttner, Charles Beaumont. Enfim. Do Bradbury, além do Fahrenheith 451, das Crónicas Marcianas, do Homem Ilustrado, resta ainda o grande, grande Something Wicked...é sobre este que deverias falar, Ana. Quanto à trilogia de Hollywood, boff...

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