Wednesday, 25 July 2012

Contos para mulheres crescidas

Erotic Bedtime Stories for women
Nancy Madore
Editora: Spice
Páginas: 256

Num livrinho que reúne treze contos pecaminosos com sadomasoquismo, voyeurismo e outras pancas jeitosas, “Enchanted: erotic bedtime stories for women” pega nos mais conhecidos contos de fadas tradicionais (não os alterados pela Disney) e dá uma reviravolta feminista para todos os gostos. Quantas vezes não acabamos de ouvir um conto de fadas terminar com o “e viveram felizes para sempre?” Onde a fantasia acaba e a realidade começa Nancy Madore explora vários fins alternativos de alguns contos de fadas, de realçar pelo menos três: Cinderela, Barba-azul e A guardadora de gansos. 

 O conto da Cinderela, em especial, começa por explorar uma vertente deixada ao acaso em todas as versões tradicionais: a Cinderela vai ao baile, encontra-se com o príncipe, ele lá fica enamorado e quando perde o sapato tenta encontrar a dona e quando encontra por fim a Cinderela, casam-se. Problema nº 1: não há amor na relação. Madore foi perspicaz em notar a velocidade estonteante de acontecimentos no conto tradicional. Essa será o primeiro problema que tanta colmatar na sua versão: fazer com que haja amor e uma ligação mais pessoal entre os dois. O sapato de cristal adquire o símbolo equivalente ao casamento e por conseguinte a uma prisão: “Well yes, but they are so confining!” replied Cinderella.”. Pode-se, de igual forma, acrescentar que o sapato tem uma conotação sexual e que o pé simbolizava (no conto tradicional) a vagina da mulher o sapato seria o objecto sexual do homem. (Penguin Dictionary of Sybmols, 889) O twist engraçado e erótico da mesma forma no conto passa mesmo pela mudança de mentalidades das personagens. Se, a Cinderela no tradicional fica à espera que o homem que lhe chegue a casa, Madore atribuiu à personagem feminina mais autonomia para tomar as rédeas da relação. A moral da história (se pudemos chamar assim) concentra-se mais no amor do que no acto sexual. Esta versão tem mais chances de acabar com um final feliz do que a tradicional, ambas as personagens tiveram peso semelhante. O difícil segundo Madore nos conta não é ter sexo, mas sim conseguir fazer amor “How could he have so arrogantly disregarded the secrets to bringing her body pleasure?” 

O segundo conto “Barba-azul” começa tal e qual copy & paste do tradicional até que chega a parte onde a esposa abre o quarto proibido. Madore opta por criar um quarto com objectos sadomasoquistas, contudo mantém o sangue na chave. A chave é o símbolo do poder dado à mulher, tendo este poder que ser reprimido. Nesta versão a chave é mais um de ritual iniciação a uma fase sexual da sua vida. O sangue na chave é um indicador claro da prova que o casamento fora consumado. But Bluebeard drew his lips away from hers, chiding her softly, “A loving wife does not take what is not given freely from her husband.” Barba-azul torna um castigo horrível (30 chicotadas) em algo positivo (o facto de amar a mulher, não a suportar ver infeliz). Apesar das mesmas características sádicas estarem presentes, o homem não é visto como um homicida, mas como um perverso capaz de amar. A mulher altera a sua posição de pecadora e incumpridora, para uma simples mulher humana que erra e que é perdoada.

“A guardadora de gansos” tem menos pormenores do conto original e mais alterações. Muito sucintamente é uma abordagem claramente romântica com um menage pseudo-lésbico lá pelo meio, que não se sabe lá muito bem o que lá está a fazer, mas no título tem “erotic” por isso enfia-se sexo a eito. 

O tom assumido durante a obra é leve e distancia-se do tradicional e do feminismo pesado do século XX. Não é um livro aconselhável a ninfomaníacas, nem a meninas pudicas. Qualquer estimulo sexual provocado pelo dito cujo não é da nossa responsabilidade, com o acréscimo de poder ler as histórias com o mais-que-tudo e ser mais barato que o viagra.

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