Monday, 25 June 2012

"Fáxabor queria um bilhete para Marte!"

Hoje trago-vos dois livros de dois escritores portugueses que escrevem ambos sobre géneros diferentes. Ainda que não tenham nada em comum salvo a língua em que escrevem, a sociedade tenderá a ser mais gentil para o segundo e o primeiro, por muito bom que seja, será o filho bastardo, um "wannabe" que nunca chegará às luzes da ribalta. O primeiro livro é do autor João Barreiros (sim o senhor que me cedeu uma lista de 30 livros, é um amor), autor de FC portuguesa e anda cá há mais tempo que eu, por isso merece muito respeito! O segundo é João Ricardo Pedro, autor do livro "O teu rosto será o ultimo" vencedor do prémio LEYA 2011. Começamos mal! Um ganha um prémio e os marcianos não ganham nenhum? Comecemos então as críticas dos dois livros para ver se arranjamos um bilhete para Marte ou para uma viagem no tempo até ao 25 de Abril?


A verdadeira invasão dos marcianos
João Barreiros
Editora Presença
Páginas: 160

Quando comprei este livro pensei que ia ler algo steampunk puro: heróis dos primeiros romances steampunk, tecnologia toda a vapor, contudo penso que o livro é mais cyberpunk que steampunk. Não que estas designações afectem a qualidade do texto que está óptima, mas comprei por dizerem que era steam e na verdade é cyberpunk, mas na verdade I could not care less qual é o género!

Ler este livro pode ser comparado a uma boa refeição, começamos pelas entradas uma boa saladinha, seguido de uma sopa de espinafres ou uma sopa de tomate (my favourite) e para prato principal um bom bacalhau e para sobremesa algo docinho. A refeição parece estar completa, mas falta algo. Provavelmente será o cafézinho, a bica para degustar de toda a refeição. Acabamos esta obra esmagados pela prosa bonita de Barreiros. Temos um pouco a tendência de adjectivar a escrita: competente, poética, chata, aborrecida, mas as palavras que Barreiros escolhe são sempre as mais indicadas para as situações, seja para retratar um ambiente claustrofóbico, seja para aliviar o ambiente ou minar uma piada mais leve.

João Barreiros consegue com algum cuidado, tal como Hänsel fez há uns séculos atrás deixar migalhas para o leitor através de um cruzamento entre personagens fictícias e os seus criadores. Entendo, contudo, o porquê deste livro não ter caído nas graças da população em geral.O leitor português é preguiçoso e a prosa de Barreiros requer conhecimentos bons de literatura (pelo menos das personagens) e quem não leu The war of the worlds, nem sabe quem foi Edgar Rice Burroughs (se bem que agora com a edição da SDE do John Carter acho difícil este nome passar despercebido) a leitura torna-se lenta e possivelmente penosa. Still, para quem entende todos os "pwns" e as referências literárias é impossível não achar o livro genial. Talvez sejam as personagens que não estabeleçam aquele "clique" que os leitores tanto gostam, ou talvez a falta de uma mulher na prosa para baixar os níveis de testosterona. Antes que nos percamos nos "talvez", é um livro que vale a pena ser adquirido e lido por todos. E nada de dizer que "ai FC não é o meu género...", pois "A verdadeira invasão dos marcianos" está acima de qualquer género, é literatura da boa.


Fica a sinopse do livro:

Estamos em 1902, cinco anos depois da Invasão Marciana, que quase destruiu por completo o nosso planeta. Para responder ao assalto, a Europa, Rússia e Estados Unidos esqueceram as divergências ideológicas, étnicas e económicas, e formaram o mais gigantesco complexo militar-industrial da história da humanidade. Missão: ocuparem Marte e mostrarem aos marcianos sobreviventes quanto custa atacar traiçoeiramente a espécie humana. Num dos assaltos, os jornalistas Jules Verne e H. G. Wells, pacifistas por natureza, sonhadores de uma utopia não sabem o que fazer. Ainda por cima naufragaram no hemisfério sul do planeta a milhares de quilómetros do local de poiso do exército terrestre. As perguntas parecem não ter resposta: Que criaturas são essas, os Priiiiik, espécie de avestruzes inteligentes que parecem ter sido escravizadas pelos polvos?


Passamos agora para o segundo livro, um romance de estreia do autor João Ricardo Pedro vencedor do Prémio LEYA.
O teu rosto será o último
João Ricardo Pedro
Editora: Dom Quixote
Páginas: 208


Por norma a Dom Quixote é das poucas editoras portuguesas, cujas obras são das melhores de sempre. Este livro prometia muito, desde o título poético até ao prémio que recebeu e a sinopse. Mas é este o mal dos políticos e do marketing, promete-se muito, recebe-se pouco. Eu gostava de "dar" numa de intelectual, sacar dos óculos e dissertar sobre o quão maravilhoso este livro foi e quão enriquecedora fora a experiência de pegar neste livro e beber das suas palavras significados que me fariam descobrir o sentido da vida e o significa desta... Não aconteceu, mas podia ter acontecido! Em vez disso acho que comprava mais rapidamente um bilhete para Marte!

O problema do livro em si está no autor que tenta passar para o papel algo que não é, tenta assumir uma personalidade que não consegue controlar e o resultado é um emaranhar de situações desconexas, cujo estilo de escrita é uma salada de frutas que não se entende. O início começa bem, fresco, leve com algum excesso, confesso, de calão (e eu adoro calão nos livros, mas de facto aqui durante 10 páginas seguidas era um por página e sem contexto), no entanto a partir de uma certa parte o autor parece mudar de personalidade de adopta um estilo de escrita à José Luís Peixoto com repetições desnecessárias. Mais à frente o autor parece ainda querer sugar a personalidade da escrita de Saramago e arrisca a escrever uma frase com mais de 10 linhas, que resulta em algo sem sentido. Confesso que estava a ler e pensei "Estilo de escrita o tanas! Podia muito bem ter partido esta frase em três e ficava algo muito mais apelativo"... mas nãããõ! Vamos arriscar a escrever numa primeira obra algo que Saramago levou anos a conseguir... Bem, enfim, em frente!

A história em si podia ter sido melhor estruturada, o autor podia ter pegado em cada família e geração e ter seguido um pouco a corrente de consciência, sem andar de um lado para o outro a saltar e nem sabemos a idade das personagens (em alguns episódios isto importa), nem porque raios aquela situação está a acontecer. O livro precisava de uma revisão, pelo menos para ser menos abstracto e esperar que o leitor entenda tudo sabe-se lá como. Depois supostamente este livro deveria retratar o 25 de Abril, ainda assim é complicado entender de facto o período e os traumas do período da Guerra do Ultramar com uma prosa seca e sem conteúdo. O pai de Duarte regressa da guerra um homem diferente, mas não se sabe o porquê., um flashback ou analepse para arrepiar o leitor com os episódios de guerra. Ou seja, em vez de dizer "O teu pai não é o mesmo desde que veio da guerra", mostrar o motivo pelo qual ele mudou. Nisso ALA é mestre. Outra coisa que o livro peca é o excesso de informação que é dita em vez de mostrada. Acho fantástico que em Portugal um prémio destes seja atribuído a algo que seja só "tell", "tell,"tell". O cúmulo aconteceu quando o médico se apaixona pela sua governanta em apenas duas linhas. Saiu da aldeia três semanas, voltou olhou para ela e a partir daí começou a chamá-la "minha Laura": "Minha Laura vamos casar. Minha Laura é um menino. Minha Laura chama-se António. Minha Laura a nossa nora parece ser boa pessoa (ou moça não me lembro)." e é assim que sabemos os acontecimentos.

[Esta parte contém SPOILERS evite-a]
As personagens são algo de esquisito. Não são "likable", não temos tempo de sequer nos importarmos, nascem, morrem... we don't care, porque não há tempo suficiente para sequer gostarmos ou odiarmos.

Duarte é o pior de eles todos, um suposto génio do piano, ignora este seu dom e torna-se numa personagem supostamente trágica, mas que não passa de um alienado no mundo. A personagem de Duarte consegue ter um episódio onde, após ter convidado um amigo (que é um prodígio no desenho) para lhe fazer um retrato enquanto toca piano, encontra-o a (perdoem-me a expressão) bater uma no sofá em vez de desenhar o retrato... nesta altura pensei "Calma! Saca de todos os teus conhecimentos de leitura hermenêutica e arranja já de imediato uma explicação para este acontecimento!" Como era uma da manhã não consegui, agora com algum distanciamento pensei que Duarte fosse um homossexual algo reprimido (?) e aquele episódio o tivesse traumatizado, visto ser algo que ele, provavelmente, não entendesse na altura (não faço ideia que idade o rapaz tinha), ou então soubesse o que era e, sabia que era algo mal visto e proibido. Mesmo assim foi a cena "wtf" do livro.

Em suma: O teu rosto será o último vem envolto de uma capa bonita, de uma máquina de marketing muito boa e que consegue convencer os mais ingénuos que isto é boa literatura. No entanto, deixem-me que vos diga, se vocês não entendem um livro (excepto os clássicos) a culpa não é vossa, é do autor que não soube explorar bem os elementos que tinha à sua disposição. Claro, que há muitas pessoas que pegam em palavras bonitas e pré-feitas, escrevem uma opinião tal e qual o livro, com uma embalagem bonita, mas que na realidade não passa de um adjectivado oco. Sendo assim, este livro aparenta ser algo que não é, com muita pena minha, pois acho que tinha potencial para ser algo muito bom (a roçar no genial).

Fica a sinopse do livro:

Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?

1 comment:

  1. oh god... depois de ler esta opinião sinto-me um bocadinho burra, confesso.
    Eu gostei do livro. Não adorei, mas gostei qb.
    Essa cena do sofá é de facto non sense.

    Gostei do blog :)
    Boas leituras

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