Wednesday, 11 April 2012

O Silmarillion que se meta a pau!

Escritos dos Ancestrais
(Campos de Odelberon I)
Rodrigo McSilva
Editora: Presença
Páginas: 384
Website do livro
Glossário do livro

Sinopse:
Na sua obra de estreia, Rodrigo McSilva recorre a uma multiplicidade de personagens e divindades das mitologias nórdica, celta e indo-europeias, que interagem numa história alternativa em que o mundo é simultaneamente habitado por deuses, raças desaparecidas, heróis míticos e humanos. Até ao dia em que o Ente Uno, o Juiz do Tempo, indignado pela perfídia dos deuses, decide pôr fim a esta realidade e afastá-los uns dos outros. «Que a linha do tempo seja doravante como um punhal, mas com duas faces, esquerda e direita, que jamais se verão». Assim os condenou a uma estéril dualidade. Os mortais habitariam o «gume terrestre», desenvolvendo a ciência e a técnica, mas trabalhando na dúvida e na incerteza, enquanto os deuses e os que os haviam seguido habitariam o invisível «gume de odelberon» numa eternidade imutável. Cada lado ficaria sujeito às leis dos respectivos universos. Havia porém uma vaga esperança, a longínqua promessa de que, ao fim de vinte mil anos, os dois gumes, agora separados se reencontrassem... Esta extraordinária aventura ficou registada pelos inúmeros escribas que ao longo das eras foram registando os seus sucessivos capítulos.

Para escrever a crítica deste livro vou precisar de pelo menos umas cinco páginas e como sou chata que chegue sucinta, então se me meto aqui a divagar lá se vai a clientela. De modo que decidi para bem da comunidade e a minha sanidade mental dividir esta crítica em duas partes (as boas e más) e por tópicos que é para a leitura não ficar muito monótona.

Aspectos bons:

  • McSilva fez bem a sua pesquisa e conseguiu enfiar uma porradona de personagens e situações num primeiro volume;

  • A partir de meio do livro o autor começa a contar pequenas histórias que influenciam um todo. Estas histórias de pouco mais que 10 páginas, conferem ao leitor tempo para se habituar às personagens;

  • O livros faz lembrar certas vezes os épicos gregos e medievais que contam a história de vários povos em vez de personagens isoladas. Faz falta hoje em dia pensar num povo em vez de indivíduos. 


Aspectos menos bons:

  • A carrada astronómica de personagens e ausência de glossário. Eu sei que há um glossário no site do livro, mas este tem de vir obrigatoriamente com o livro, visto que são mais de 20 páginas. Em cada página chegava a haver umas três personagens novas, mais 4 menções de lugares novos. Não há tempo, nem profundidade para nos afeiçoarmos a alguma personagem e sejamos honestos até nos Nibelungos e no Beowulf era fácil afeiçoar-mo-nos enquanto leitores a uma personagem. Aqui é impossível devido ao distanciamento do narrador perante o leitor. Porra até o Martin que tem menos 70% de personagens tem uns desenhos jeitosos com as personagens todas para seguir.

  • Algumas histórias carecem de profundidade, a maior parte é: homem sonha com mulher - homem parte em busca da mulher - mulher abre as pernas para o homem porque ele é o homem da sua vida. Sinceramente as minhas aulas de cultura clássica foram passadas a chorar a rir porque muitos épicos são assim ridículos e completamente irreais, but let's face it, obras como "A Odisseia" ou "A Ilíada" não tinham muito exemplos precedentes! Foram o alicerce da literatura ocidental, agora no século XXI? Já devíamos de ter aprendido algumas coisinhas.

  • Para se escrever épicos é preciso estofo, muito estofo, senão acaba tudo por ser uma salgalhada. Sabem porque é que há poucos épicos? Outro problema é a estrutura. O livro está divido em dois momentos: os dos Deuses em que conseguimos seguir a acção perfeitamente e o plano das personagens inventadas por McSilva que, quando bem estruturado, dá para entender. Principalmente quando se diz "Eu sou o X, filho do Y e venho de Z" Oh filho tu podes vir até do Céu, eu não quero saber de quem és filho se nunca mais na vida vou ouvir o nome do pai! Já parece o sr. que escreveu o livro lá no título!

  • O design interior podia estar tão melhor. Podia-se ter criado aquele ar medieval, antigo, trabalhado, mas não é um simples papel branco com Times New Roman... fantástico. Eu amo o Tiago da Silva, é um dos melhores artistas que temos, mas aquela capa não tem NADA a ver com o livro. Não confere metade do ambiente que o livro passa ao leitor. Um friso antigo com cenas de luta ou êxodo , uma imagem de um quadro mais antigo e clássico ou então uma gravura nórdica: algo mais propício ao livro. Penso que muitas pessoas compraram o livro a pensar que iam ler uma coisa e saiu-lhes outra.


Claro que não culpo sempre o autor! Aliás enquanto autora eu escrevo, não edito os meus próprios textos. Isso seria errado e parvo. Acho que as editoras têm de rever seriamente os livros e quando digo seriamente é ler com olhos de ler. O editor não leu este manuscrito senão tinha notado logo as falhas nas estruturas. Este livro é um livro que requer paciência, dedicação, uma mente vazia para carregar informação e não agrada a todos. Sabemos que as editoras o que querem é vender! Acho que o lesado aqui é mesmo o autor, o que me deixa mais uma vez a pensar que os portugueses só querem ver dinheiro à frente e estão-se a cagar (perdoem-me a expressão) para os autores.


Devem pensar "Ah publicamos isto assim, fazemos uns cortes ali, publicidade gira e o comprador adere." Ai pois adere, sim! E os críticos? Ah esperem, esqueci-me, não os há. Porque em Portugal o que é giro são as palmadas nas costas, e nem mesmo os homens têm tomates para dizer "Isto não é assim, isto tem de ser assim! Olhe e se fizesse assim e assado?" Mas não. Continuamos a publicar livros com défices por vezes de criatividade graves e neste caso, uma simples leitura do manuscrito dava para ver que havia muito trabalho pela frente! O que me enerva é que muitas vezes como a crítica portuguesa é na sua totalidade "blogues" sem o mínimo de formação literária, pensam que outros andam a nanar e fazem os autores passarem por parvos e pior as pessoas que gostam de ler e pensam e estão atentas à leitura! 


Espero que o autor publique mais alguns livros, visto que assim poderá provar o seu valor e evoluir. Não devemos encarar as críticas negativas como algo de mau. Passo semanas a darem-me nas orelhas até que me pergunto "Como é possível ainda ter auto-estima?" It's easy, I guess. Penso "Ok eles disseram que eu fiz isto, isto, e aquilo mal. Ok o que vou fazer para melhorar? Aquilo e bla, bla bla." Até porque fiquem com esta ideia de que se dizem muito bem de uma coisa facilmente, só mostram que são pouco ambiciosos e eu gosto quando as pessoas também provam o seu valor. Nunca pensem que os autores portugueses são só maus. Temos dos melhores do mundo, só que alguns precisam de mais trabalho que outros. Alguns podem ter tantas ideias que seja difícil colocar tudo no papel à primeira. Por isso para a frente que atrás vem gente. Vamos provar o nosso valor enquanto autores, enquanto pessoas que amam a Literatura e são devotas a ela.

Agradeço do fundo do coração a mensagem do Rodrigo McSilva que me levou a não desistir da leitura, quando estava tentada a o fazer, porque houve algumas páginas que "salvaram" a obra. O objectivo é mesmo este: não desistir e raise the bar as a high as possible! E agradeço à doçura de pessoa que me emprestou o livro e deve estar a pensar que fugi com ele!

Eu agora ando a escrever com o acordo ortográfico a tese, acho que sinceramente houve coisas que escrevi com o Acordo! Já ando tão trocada, nossa estou tão confusa!

1 comment:

  1. Até foste meiguinha, desta vez. :)
    É verdade que, quando não se gosta de um livro não devemos andar com rodeios. no entanto podemos não gostar de um livro e ainda assim ver-lhe algum valor. Dificilmente encontramos um livro que não tenha nada que se lhe aproveite, mas isso não quer dizer que um leitor vá gostar de tudo só porque está publicado.

    Pessoalmente adoro a capa do Tiago da Silva, mas realmente se nada tem a ver com o livro, algo está mal.

    Ainda não li o livro nem sei se a leitura está para breve, mas quando ler já vou com predisposição para o que avisas. :)

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