Wednesday, 30 November 2011

Mais uma antologia, mais uma voltinha!


Com o “boom” de Antologias e revistas sobre fantasia, terror e ficção científica, a Vollüpsa aparece no panorama nacional como uma promessa desde à muito prometida, mas que demorou a ser cumprida. A antologia organizada por Roberto Mendes está divida em três partes: Ficção Científica, Terror e Fantasia, contando com catorze contos ao todo. Misturando alguns autores não publicados e autores já consagrados do panorama português, a Vollüpsa é uma antologia que promete bastante, ao começar pela capa extraordinária do artista português Augusto Peixoto.

O design interior é simples e competente, permitindo uma leitura fácil num e-reader. A nível de impressão pode deixar o leitor mais exigente a torcer o nariz. Talvez uma edição para e-book e outra versão impressa seria mais agradável a nível de design. De facto no e-reader a leitura é um sonho, contudo num mercado tão competitivo ao nível da Fantasia, há que piscar o olho ao leitor mais inexperiente e arrastá-lo com uma linha invisível até aos livros nas prateleiras. Use o chicote se preciso... só para dar umas pancadinhas de amor aos possíveis leitores.

De modo a tornar esta crítica menos pesada, analisarei em mais detalhe um conto que enche as medidas e um conto que não fora tão bem conseguido. Os contos de Ficção Científica são os que apresentam maior qualidade literária, dando especial atenção ao conto de João Ventura e de Luís Filipe Silva. No lado oposto os dois contos que ficaram mais aquém (talvez por uma questão de estilo mais próprio) foram os da Carla Ribeiro e Carina Portugal.

“Eternidade” é um conto que leva rapidamente o leitor pelos caminhos da procura pelo absoluto e da sabedoria. Quantos filósofos e escritores tentaram encontrar na sua vida o absoluto, o Caminho inalcançável sem sucesso? “Se é alguém generoso que procura o Caminho, se sinto que nele existe o amor pelo seu semelhante, sou rápido e eficiente: nem chega a sentir quando a vida o abandona.” (Eternidade, 21) Embora o conto tenha o rótulo de Ficção Científica, se o leitor abstrai-se da classificação é tão fácil de imaginar este conto como algo real. Antero de Quental lamentava nos seus poemas a vontade de atingir o nirvana e o Absoluto “Chegar onde eu cheguei, subir à altura / Onde agora me encontro - é ter chegado/ Aos extremos da paz e da Ventura” (Nirvana) ou até mesmo o Fernando Pessoa que escrevia com a mão de Álvaro de Campos uma “Passagem das horas”

“Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.”

(negrito da minha autoria)

Se João Ventura oferece uma visão pessimista e a catarse da demanda eterna pelo infinito nunca é atingida, será que esta só conseguirá ser alcançada depois da morte? O caminho será o caminho da sabedoria só poderá ser atingida após esta vida? A riqueza de interpretações e multiplicidade de significados conferem ao conto “Eternidade” um balanço bastante positivo no fim da sua leitura.

Com um tom menos positivo temos “O acorde das Almas”, conto que se encontra na categoria errada, por não se tratar de modo algum de um conto de terror. Uma designação mais apropriada seria “Gótico-emo” ou “Purple prose”, só para arrumar os cadáveres na gaveta certa da morgue. Esta crítica pode começar com uma série de perguntas básicas: qualquer ficção terá de conter duas coisas principais, serão estas, uma história (ou setting ou plot, ou o que lhe queira chamar para ser ranhoso e diferente) e personagens. No “Acorde das almas”, o leitor parece um espírito fantasmagórico que deambula pelas páginas perdido sem saber porque raios está a ler aquilo, nem quando é que aquilo acaba. A preocupação dominante está presente na escrita e na forma como os adjectivos (não) fluem. Poderão argumentar (os ranhosos que gostam da palavra setting) que é uma questão de estilo. Poderão ainda espetar com o artigo da Wikipedia sobre o “purple prose” mais conhecido por ser um estilo com forte adjectivação que sobrecarrega os textos. “Os meus olhos estavam cerrados quando, pouco depois de sentir uma mão na minha elegante e esguia cintura, ouvi uma tentativa de resfolegar, todavia uma tentativa infrutífera.” (O Acorde das Almas, Portugal) O português carregado e pouco fluído aliado a uma história com pouco fio condutor, não ajuda a estabelecer uma ligação. O leito sentirá talvez que fora erguida uma muralha de gelo, onde a autora descreve um mundo extremamente pessoal que habita dentro da sua mente, enquanto o leitor luta desesperado, em vão na demanda heróica do conteúdo.

O outro conto que ficou bem aquém das expectativas foi “A Queda” e para ser descansar da prosa fluida enumerei os aspectos mais intrigantes ao ler o conto, são eles:
• Quantidade de vezes que uma frase começa por “E” ou pelo verbo “ser”; (um Drinking game com esta regra neste conto e tire umas 50 fotos de si bêbado para o Facebook);
• A personagem principal lê-se Damien... juro que todas as vezes que lia o nome esbofeteava-me porque pensava sempre na palavra “Daemon”. Problema nº 2: eu sei que Júlio não é propriamente um nome sexy, mas Damien? Ora e nomes portugueses, não podem vir incluídos no menu?
• Nota-se uma descendência do português traduzido da fantasia anglo-saxónica.
Reconheço, contudo que a Carla tem vindo a fazer um esforço para abdicar da “purple prose” e isso já é visível neste conto. Falta ainda abandonar o tema dos demónios que isso não dá com nada.

Agora que houve um balanço mais detalhado de três contos, segue-se um gostinho especial dos outros contos, que merecem destaque igual nesta crítica curtinha.

O Pequeno Guia do Céu, de Tristan de Sapincourt
Afonso Cruz | Um conto muito bem escrito, que reafirma Afonso Cruz como um grande escritor português, mestre na arte de contar histórias. O leitor fica com um sabor agridoce por ter aprendido mais sobre um tópico pouco abordado.

Natal®
Carlos Silva | Um conto um pouco cliché, que peca por abordar um tópico já há muito explorado sobre o Natal e a sua verdadeira essência, face ao tradicional versus moderno e/ou futurista em demasia. Apresenta um tom cómico e trocista devido à sua impossibilidade.

A Queda de Roma, antes da Telenovela
Luís Filipe Silva | Uma mais-valia nesta Antologia. A prosa do Luís Silva é competente e dá a sensação de orgulho na língua portuguesa e na maneira como não perdemos a identidade de ser português mesmo num conto de Ficção Científica. Talvez seja isso que falte a sério neste panorama, mesmo que sejam estereótipos do polícia parvo, ou do político barrigudo e corrupto. Se essas personagens podem saltar do dia-a-dia para o papel e deformadas na Ficção Científica, para quê seguir os moldes da literatura Anglo-saxónica?

Génesis – Apocalipse
Roberto Mendes | Um conto delicioso pelo seu conteúdo, apesar de ser uma ignóbil da Ficção Científica de Asimov (para já). Metade das referências ficaram pelo caminho e no fim fica sempre a sensação que o conto fora para uma audiência reduzida e iluminada, enquanto outros ficam num canto ignorantes.

Enquanto Dormias
Nuno Gonçalo Poças | Um conto que podia ser bem mais curto e directo. Há uma dificuldade muito grande em escrever terror em português, mas acima de tudo queremos estabelecer algo desde o início: escrevemos terror para aterrorizar? Incomodar? Enojar os leitores? Ou simplesmente para criar uma sensação de desconforto? Ao responder a esta pergunta torna-se mais fácil desvendar ao leitor como queremos que este atinja o nosso objectivo.

A Máquina
Álvaro de Sousa Holstein | Nostálgico e com traços de pintura bem delineados a prosa de Holstein relembra os escritores românticos portugueses com uma escrita bonita e harmoniosa. O conto é muito fácil de se enfiar na imaginação do leitor e deixa uma sensação de conforto e acima de tudo de nostalgia.

O último
Joel Puga | Li este conto quando participei na Antologia e lembro-me que foi este o motivo pelo qual ando constantemente a perguntar porque raios é que o Joel ainda não foi publicado? A imaginação de Puga não tem fim e se há coisa que falta neste mundo é imaginação para escrever e criar.

A Sala
Marcelina Gama Leandro | Um conto com um tom bastante infantil e acolhedor, repleto de magia que me fez lembrar do seu conto publicado na Fénix 0 “O roubo dos figos”. Talvez a Marcelina tenha encontrado o seu dom de escrever histórias de fantasia que tanto podem agradar a adultos como a crianças e nesta dualidade é que entra o verdadeiro talento da escrita.

Uma Questão de Lugar
Pedro Ventura | Tal como o conto do Roberto Mendes, “Uma questão de lugar” necessitava de uma série de conhecimentos prévios para entender o objectivo do conto. Partindo do princípio que se trata de uma homenagem a Rod Serling e Stuart Rosenberg (personagens do Twilight Zone) o conto é interessante. Agora a nível pessoal esperava algo mais do tom de Goor e uma personagem mais do estilo da Kaledra – mas isso é quando as opiniões se metem ao bedelho. Com ou sem entender as referências ao Twilight Zone, o conto pode ser lido individual e apreciar um ritmo acelerado da leitura.

Vermelho
Regina Catarino | Longe do tom original e diferente a que Catarino nos tem habituado nas suas participações de outras revistas, o conto “Vermelho” parece-se com um recontar a cena no “Livro do Êxodo”, que conta a história dos israelitas que atravessaram o mar Vermelho em fuga dos egípcios. Complicada é a tarefa de entender o porquê do conto se encontrar na secção de Fantasia, visto ser mais realista chamar-lhe Ficção em geral, sem querer afirmar que esta travessia aconteceu mesmo ou não. Um conto alternativo que confere um tom mais sério e menos fantasioso à própria fantasia.

Em tom de conclusão Vollüpsa é uma Antologia que vale a pena ser adquirida devido á sua multiplicada de estilos, que poderão agradar a vários públicos. O tempo que demorou a ser preparado leva-nos a questionar se a batalha da vontade de fazer algo, contra a realidade face aos problemas de editora/ distribuição não bloqueiam todos os anos mais projectos que poderiam emergir.