Saturday, 23 April 2011

Dia mundial do livro


Embora hoje seja o dia mundial do livro, quantos livros não lemos e compramos durante o ano? A todos os bookworms por aí espalhados, feliz dia do livro e feliz Páscoa!


Bela adormecida de chicote

The Claiming of Sleeping Beauty

Anne Rice
writing as A. N. Roquelaure
Editora: Penguin Putnam Inc
Páginas: 253



Mais de um ano esperei ansiosa para ler este recontar do meu conto de fada favorito “A bela adormecida” não sei o que me atraiu sempre no filme na Disney. Adorava a voz brasileira da Maleficient e dava por mim na primária a discutir com a minha melhor amiga (most beloved Lara) qual seria a cor do vestido da Aurora que aparecia no fim do filme (se bem se lembram no fim do filme da Disney as duas fadas mudam constantemente a cor do vestido para ora rosa, ora azul). O rótulo de prosa erótica é um pouco errado. “The caliming of Sleppy Beauty” é basicamente um romance sadomasoquista, que apaga de imediato a ideia da Anne Rice como escritora de “vampirada”.

Violada e acordada por um príncipe após cem anos de sono, Beauty acompanha o seu Crown Prince para ser a sua escrava e aprender a obedecê-lo. Em constantes humilhações e através de muita observação assistimos a uma mulher mimada transformar-se numa pessoa racional e inteligente. A mente de Beauty divaga e sofre na sua condição de escrava, sendo das poucas pessoas que de facto se rebela constantemente contra o poder instituído. Os jogos de poder, sedução, dor e humilhações face a um ser humano – e para além dessas humilhações, as reacções que os escravos têm face aos seus soberanos, fazem com que o leitor coloque-se no lugar de Beauty e reflicta sobre o seu lugar.

Rotular “The Claiming of Sleepy Beauty” apenas como um romance erótico é talvez ser um pouco redutor, já que a parte erótica apesar de ser uma constante apenas serve para desenvolver o tema da condição humana ou a falta de condições humanas. Publicado em 1983 já após vários livros onde o sexo não era propriamente tabu, a passividade da mulher é seriamente questionada e tal como no conto tradicional do Capuchinho Vermelho, Beauty não consegue submeter-se às leis e ser obediente.

Wednesday, 20 April 2011

Um jogo vazio

Game of Thrones
A song of Fire and Ice 1
George R. R. Martin
Editora: Bantam
Páginas: 720


Na minha curta vida literária (5 anos) ainda me apetece dar-me um bom par de bofetadas por acreditar em publicidade e gloriosas promessas. O problema de ler várias críticas é que se cria demasiadas expectativas que podem sair muitas vezes furadas. Pessoalmente gosto de ler um livro que me faça reflectir sobre vários assuntos ou então um livro que descreva sentimentos e tenha um ritmo próprio.

Das 670 páginas que constituem o "A Game of Thrones" o que mais irrita é a estrutura interna da obra. Dividida por capítulos dos quais cada personagem nos conta um bocado da história, há que detestar a palha e os fillers. Quando a história da Danny estava emocionante e a cativar-me para ler mais, eis que tinha que ler mais 5 capítulos com a Catelyn, Tyrion, Jon etc até chegar à continuação da história da rapariga. Compreendo a necessidade de dividir a obra desta maneira, já que consegue-se equilibrar a atenção dada a cada personagem, contudo o ritmo da obra fica quebrado. O facto de se ter optado pelo narrador heterodiegético compõe outro problema. Não só a narração é mais fácil de ser seguida - em vez de "I" temos "Catelyn" ou "Ned", mas também não pede qualquer esforço ao leitor para saber quem está a falar. Problema nº 2: toda a narração é desprovida de sentimentos (tirando a narração da Danny e por vezes da Sansa). O meu problema com os narradores heterodiegéticos é o facto de afastarem por vezes o leitor sem se aperceberem. Não é que precisamos de nos identificarmos com as personagens, tal coisa é muitas vezes impossível, contudo parece que muitas vezes despejam-se acontecimentos e ficamos perdidos em coisas que aconteceram mas não são descritas.

Outro problema em relação às personagens é o facto de serem estereotipadas: Eddard o nobre senhor cheio de valores e princípios, sempre cheio de razão; Sansa a miúda fútil que só quer ser rainha; Arya a Maria-rapaz que não gosta de bordar e prefere manejar uma espada; a rainha que é má e corrupta etc. Apenas Danny e Jon Snow apresentam apresentam uma evolução (e no fim Sansa também se encontra numa espécie de limbo) e penso que Danny é a mais humana de todos - reflecte, faz erros - sofre as consequências.

Dentro das personagens (e isto perdoem-me mas tem de ser dito) a maneira como as personagens femininas são tratadas. Irrita-me profundamente que em pleno século XX ainda se coloque a mulher submissa e oca como normal, enquanto a mulher que quer pegar numa espada é algo diferente. Se "Game of Thrones" fosse um romance histórico respeitava essa decisão, agora o mundo de Martin não é o nosso mundo, nem tem a nossa História, daí que o autor tem poder para mexer nas leis. Apesar disso reinam as "dark ages" e só Danny e Arya safam-se deste perigo. O próprio facto de o sexo ser de costas faz eclodir este tratamento pobre face às mulheres. Submissa, de joelhos sem revelar a sua cara e sem revelar a sua tristeza - é mais fácil de facto fornicar uma mulher sem saber o que ela está a sentir, ao passo que de frente os homens seriam obrigados a ver as expressões das mulheres. Esta tendência muda a meio do livro, o que me faz crer que com o tempo o autor ficou mais sensível a muitos erros que cometeu nas 400 páginas anteriores.

Em suma "Game of Thrones" não é um mau livro, simplesmente não é tão bom quanto o pintam, ou seja, considero-o sobrevalorizado. Apresenta falhas, que certamente serão colmatadas à medida que o autor também começa a liderar a história para o caminho que pretende. No fim encarei este primeiro volume como isso mesmo - o primeiro, a introdução para no futuro relembrá-lo como "tudo isto começou aqui".

Saturday, 16 April 2011

Mad woman in the attic



Porque este mês o blog está de parabéns, pois faz um aninho, a verdade é que antes de criar o Illusionary Pleasure tentei criar um blog no wordpress, mas como não conseguia criar o template que quis (este que estou a usar neste momento) desisti da ideia. O blog era para ser chamado "Mad woman in the attic" uma referência ao livro Jane Eyre e à personagem Bertha Mason. Abandonado o projecto no wordpress nunca mais peguei no blog até ontem. Achei boa ideia começar a colocar lá os meus escritos até para começar a receber um feedback mais vasto. Continuo a tentar actualizar este blog até porque é o projecto que sempre quis ter - um blog independente onde escrevo as críticas de alguns livros que vou lendo aos poucos. O "mad woman in the attic" fica como blog secundário onde vou postando as tretas que vou escrevendo como me sinto (no one give a crap) e se estiver mais inspirada meto ainda uns vídeos/ textos/ situações que contribuem para a minha escrita.

Monday, 11 April 2011

D. Sebastião não morreu

Dez Mil Guitarras
Catherine Clément
Páginas: 368
Editora: Porto Editora

Em tempos de crise, reler algo sobre o nosso tão glorioso passado só faz com que batemos com a cabeça nas paredes a pensar que Portugal nunca aprende e que o seu azar em relação aos seus governantes. Catherine Clément tem uma prosa soberba, directa e carregada de imaginação. Para quem gosta de um bom livro histórico ainda que com um grande balanço entre imaginação e factos históricos. Através da voz de um bardo, o leitor acompanha as aventuras e utopias de grandes reis e imperadores da Europa em contraste com o uma hipotética vida de D. Sebastião após a batalha de Alcácer-Quibir. Um livro que satisfaz aqueles que gostariam que a vida de D. Sebastião tivesse um final mais ou menos feliz longe do mítico regresso por entre as brumas.

Saturday, 9 April 2011

Nanozine nº 2

É com muito orgulho que justifico a minha ausência aqui do lugar com a publicação da Nanozine nº 2. Após ajudar a Leonor e a Alexandra na árdua tarefa de rever textos e dar ideias para o desenvolvimento deste projecto, fiquei um bocado perdida no tempo e gerir faculdade, leituras e revista tornou-se penoso. Ainda assim o resultado final está aqui e Abril espera-se um mês menos cansativo e produtivo.

(Sexual) Toys are not only meant for boys

Tabu
Jess Michaels
Editora: Quinta Essência
Páginas: 240

Após ter lido "Something reckless" vi que a Quinta Essência tinha apostado no livro da mesma autora e decidi ver what the fuss is all about. Seria Tabu tão bom quanto Something reckless? Sim e superou as expectativas. Ultimamente mergulho cada vez mais no mundo da prosa erótica e torna-se cada vez mais claro distinguir os bons livros dos maus nesta categoria. Se olhar para um ano atrás em que li pela primeira vez "Fanny Hill" e falhei em ler "Emanuelle", não consigo parar de sorrir com o quanto evolui a nível de mistura de géneros. À um ano atrás teria evitado "Tabu" e nem sequer me passaria pela cabeça comprar livros com o nome "Romance sensual" na capa. O que mudou? A minha forma de estar na literatura, a forma como vi a figura da mulher, a maneira como eu própria comecei a esboçar a mulher na minha cabeça. Com tudo isto "Tabu" provou ser um romance fiel aos ideias da mulher.

Cassandra é uma costureira que conseguiu ter sucesso na vida graças ao seu talento, mas a sua vida amorosa está arruinada. À quatro anos Nathan, o seu noivo, esperava-a debaixo da chuva pela sua amada, mas ela nunca chegou, através de uma carta forjada por seu pai, Nathan pensa que Cassandra o traiu e fugiu com outro homem. Uma vida fora de Londres seria perfeito para esquecer o seu grande amor, mas quando os dois amantes se encontram novamente Nathan ameaça Cassandra a ser a sua escrava sexual a fim de revelar o seu negócio secundário.

As personagens femininas são fortes, independentes e decididas sem perder a sua feminilidade. Cassandra em especial é a prova de que uma mulher pode ter sucesso tanto na profissão como na cama sem ser apelidada de "puta". A ideia de que os homens preferem as virgens já está claramente ultrapassado e em pleno século XXI as mulheres começam a exigir um lugar na literatura erótica, onde o prazer não é exclusivo aos homens. Uma obra assim, tal como Vivi Anna afirmou numa entrevista, seria impossível à décadas atrás.

Apesar da capa revelar uma tendência para um público-alvo feminino, este tipo de livros é para ser lido por homens e mulheres. Recomendado e lanço um apelo à Quinta Essência, que tem arriscado tanto com estes lançamentos, para traduzirem o "Something reckless".

Saturday, 2 April 2011

A beleza do amor

Tim
Colleen McCullough
Edição: Colecção Sábado
Tradutora: Maria do Carmo Cary
Páginas 200

Quando lemos um livro que tem como personagens uma encarnação de um Deus em forma de homem e uma mulher fria e quarentona esperamos um romance cor-de-rosa, light em que tudo está bem quando acaba bem. A esta receita inicial vamos adicionar uma deficiência ao Deus e dar um coração à quarentona. Com esta base a receita para o sucesso de "Tim" está concluído, muita da beleza no cai nas beleza das situações, mas sobretudo na simplicidade das personagens. Ao ultrapassar as barreiras da atracção física, Colleen McCollough apela a uma reflexão por parte do leitor em relação ao amor puro e ao direito à diferença/ igualdade. Um homem, mesmo que portador de uma deficiência seja ela motora ou cognitiva tem todo o direito de ter uma vida feliz e normal, onde a sua diferença passe a ser uma igualdade perante todos. Não são precisas descrições longas, até porque o raciocínio de Tim é bastante simples e pragmático, para provar que o livro ainda que bom, peca pela superficialidade das relações amorosas. As personagens evoluem mas não há descrições com os sentimentos de Mary que poderiam ser exteriorizados com mais profundidade ou complexidade. Quando fechamos o livro temos a sensação de que reflectimos sobre o assunto e saímos mais ricos como pessoas/ indivíduos, ainda assim uma parte literária fica a querer mais.