Sunday, 13 March 2011

O peso da reflexão

O Revisor
Ricardo Menéndez Salmón
Editora: Porto Editora
Páginas: 128

O facto de conseguir conciliar muitas vezes a linguagem usada nas críticas e a linguagem usada na escrita criativa não se aplica a este livro. Se um crítico literário terá de forçosamente escrever a crítica para um livro com o intuito de a publicar, penso que existem livros que só ficam a perder com as palavras escolhidas, que não fazem jus à edição. “O revisor” é um desses livros, tal como “The left hand of darkness” de Ursula le Guin que me deixou sem palavras. Qualquer tentativa de dizer o quão maravilhos o livro é não iria passar de uma tentativa frustrada de aliciar o comprador mais desconfiado a adquirir esta preciosidade escondida por entre tantos livros nas estantes das livrarias.

Ao lado de “A Paixão Segundo Constança H.” de Maria Teresa Horta e “As novas Cartas Portuguesas”, “O revisor” de Ricardo Menéndez Salmón está perto do que chamamos tão raramente de perfeição.

“Antes de a escrita existir, os nossos antepassados escreviam nas paredes das cavernas. Aquele primeiro ecrã do mundo recebe hoje o qualificativo de arte, o que não deixa de ser uma ironia. Essa capacidade humana para mudar o sentido dos factos, para interpretar, provoca-me um enorme desassossego. Por definição, usurpamos tudo, traduzimos tudo, de tudo fazemos hermenêutica. Porque se transformaram as bibliotecas em espirais perpétuas? Porque insistimos em jurar que «sobre gostos não há nada escrito», se acontece precisamente o contrário?”

“Uma inversão tão magnífica do statu quo, uma derrota tão impressionante de qualquer lógica intelectual, não auspiciava, evidentemente, nada de bom.
Mas nessa altura estávamos demasiado confusos para reflectir: só os mortos pesavam.
E a morte pesa muito.
Tanto que impressiona.
Àquela hora já todo o país estava preso à notícia.” (48)

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