Saturday, 26 February 2011

Como cobrir adultério e violência doméstica através do amor

Outlander: nas asas do tempo
Original: Outlander
Diana Gabaldon
Editora: Casa das Letras
Páginas: 774


Normalmente existem livros que nunca pegaríamos se não fosse uma pessoa a ofereceram-nos nas épocas especiais do ano. Quando vi o embrulho da FNAC com alguma coisa gigante nunca pensei que fosse um livro, mas era. A minha futura cunhada teve a gentileza de me oferecer nos anos este volume do Outlander e pela capa seria de facto a minha cara: história, mais amor mais sexo significa “instant win”, mas depois as 700 páginas ecoavam-me na cabeça a terrível experiência que foram os livros da Meyer. Já sabem que, para mim, livros com mais de 400 páginas no formato português significa uma coisa: engonhanço e palha. Livros com viagens no tempo deveriam de ser logo um ponto positivo, mas e a história de Outlander tem tudo para ser um verdadeiro festim: cenário de um pós-guerra e a história da Escócia no século XVIII.

Contudo aqui já começam os problemas: a realidade histórica é muito mal explicada e a figura de Claire está sempre no meio, não fosse ela a personagem principal e a própria narradora. O seu casamento no século XX está por um fio: a guerra separou-a do marido e agora tentam reencontrar-se na quietude do ano de 1945. Frank, o seu marido, é uma pessoa ausente que convence muito pouco através dos seus diálogos, a sua relação merece pouco mais que meia centena de páginas e nem sabemos o porquê de eles os dois se terem casado, visto que não nutrem nenhum amor visível um pelo outro. Ou seja, passada uma centena de páginas, não sabia muito bem para onde a história caminhava, visto eu ter esperado um cenário histórico mais real. Quando Claire toca no rochedo e se vê transportada para o século XVIII esfreguei as mãos de contentamento, faltava mais de meio livro, a acção iria começar, mas de repente lembrei-me de uma coisa: este livro estava em PORTUGUÊS! E com certeza que o original teria imensas expressões características de um inglês escocês. Logo aí fiquei desiludida, pois metade do divertimento ia ser encontrar as marcas da diferença entre o escocês e o inglês.

Para piorar Jamie deve ser a pior personagem de sempre: um escocês que está sempre às portas da morte para ser salvo pela sua enfermeira, Claire. O homem para além de estar sempre a ser capturado, espancado, chicoteado ainda no fim é violado por um homem na prisão. Para além de não ser a melhor leitura do mundo vermos um homem constantemente a correr em direcção ao perigo, temos sempre a mesma acção: Jamie mete-se em sarilhos, Claire salva-o, Jamie mete-se outra vez me sarilhos, Claire salva-o das portas da morte. Quando Claire mete-se em sarilhos, para mudar pelo menos uma vez de cenário - Jamie manda-a para o quarto para lhe bater com o cinto!!! E ela feita estúpida luta um bocado, cede e pior perdoa passado um dia. Ora, considero isto um insulto às mulheres que no século XX não eram propriamente submissas e idiotas para se deixarem bater pelos maridos (tirando Portugal onde isto era normal). Que raio de moral é esta que uma mulher perdoa o marido e este promete que nunca vai acontecer? Só me lembra uma coisa: violência doméstica. O que a autora me pareceu defender foi: perdoem os maridos se eles prometerem nunca mais fazerem isso... yeah right. *facepalm*

Houve outras coisas que me irritaram: as descrições de sexo serem um bocado amadoras e pouco poéticas, até chegarmos à dicotomia do Jamie ser virgem (um homem no século XVIII com 23 anos virgem - essa é para rir) e após serem atacados e às portas da morte a única coisa que salta à cabeça de Jamie é ter sexo com a sua esposa (hein?). Muitas vezes as cenas de sexo parecem despropositadas, outras vezes parecem escritas por uma adolescente e outras por um brutamontes sem cérebro (que raio de homem diz à mulher que quer fazer sexo com ela como se fosse uma prostituta?).

Estas são as piores partes. O bom do livro é que é uma leitura leve e bastante rápida, para um leitor menos exigente ou até mesmo para desanuviar de leituras mais rigorosas. A edição portuguesa brindou o livro com uma capa excelente e com um grafismo muito bom em contrapartida a edição inglesa é mais barata, mas também julgo que se tivesse acesso à versão original não teria se calhar descascado tanto no livro. Em suma, leve o livro para a praia se quiser, de preferência no original se uma capa feia não lhe fizer espécime, senão poderá levar esta belíssima edição (a qualidade da encadernação é perfeita), mas terá de se sujeitar à abismal diferença de preços.

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