Saturday, 26 June 2010

Cybele's Secret

Cybele’s Secret
Juliet Marillier
Editora: Alfred A. Knopf
Ano: 2008
Páginas: 432
Preço: 11€
ISBN: 9780375833656



“Cybele’s Secret” é o segundo livro da trilogia “Wildwood” que marcou o regresso da escritora neo-zelandesa em 2007, apenas um ano após ter lançado o primeiro volume da série “Wildwood Dancing”. Se em “Wildwood dancing” Marillier prova mais uma vez o seu grandioso talento para re-contar contos de fadas, tal como aconteceu na trilogia de Sevenwaters, desta vez Marillier aproveitou para contar uma história sua, pegando na figura da Paula, uma “scholar” irmã de Tati, Jena, Iulia e Stela (personagens principais no primeiro livro) que parte para Istambul com o seu pai Teodor em busca do artefacto “Cybele’s gift” que segundo dizem traz boa fortuna ao seu dono e aos seus descendentes. Quando chega a Istambul vê Tati que a avisa sobre uma missão (quest) que terá de cumprir. No porto cruza-se com um pirata português com fama duvidosa, Duarte de Aguiar, também um possível comprador do artefacto. Paula assume-se como uma mulher independente, possuidora de grandes conhecimentos a nível de línguas, História e mitos, não travasse ela tantos conhecimentos com os académicos do “Other Kingdom” na série anterior. Ao contrário dos outros livros, achei que aventura não é propriamente a praia de Marillier. Acho-a uma escritora brilhante com capacidades maravilhosas a nível da reescrita dos contos de fadas e sem dúvida que os seus livros têm todos um fim apropriado para um conto, contudo houve coisas que foram demasiado previsíveis a certo ponto e a meio do livro já sabia o que ia acontecer no fim, ou pelo menos quem seria o dono do coração de Paula. Por isso tive de mudar a minha leitura e focar-me principalmente numa possível moral. A mais óbvia pareceu-me ser o amor sincero sempre triunfa. Mesmo que as personagens sejam teimosas e cometam erros, o amor volta para elas, pois ninguém deverá ficar sozinho a sofrer por amor. Outra moral será nos julgamentos das pessoas. Se fosse naqueles livros dos “Mais belos contos de Grimm” onde no fim de cada história é-nos apresentada uma moral, em Cybele’s Secret seria algo do género: Não julgai as pessoas somente pelas aparências ou pelo que dizem delas. Um homem que tenha um passado negro, poderá mostrar-se como uma pessoa digna e honrada. As pessoas devem tirar as suas próprias conclusões. Nota-se que Marillier estuda bem as lições quando viaja para um país. As cores, os sítios em Istambul parecem ganhar vida no papel e embora a própria História não seja um ponto a favor, os temas que Marillier aborda através das suas personagens parece-me ser o seu ponto forte durante a narrativa. A comunicação é sempre ilimitada com certas personagens, por vezes através de pensamentos, sem ser preciso a presença da pessoa no mesmo espaço. Esta comunicação telepática continua a transmitir certos poderes entre as personagens, sendo quase sempre um sinal de uma ligação de amor ou amizade. Em “Wildwood dancing” Jena não precisava da linguagem para falar com Costi, e em “Cybele’s Secret” Tati e Soyan não precisam da voz para alertarem ou comunicarem com Paula. As culturas misturam-se, tal como a linguagem. Existem um rolo de línguas tais como: o turco, o grego, o português, o francês e ainda algum dialecto, o que contribui e muito para o enriquecimento da obra em si. Apesar de só o português ser merecedor de aparecer através do poema dedicado a Paula “de brancura singela”, Marillier chega a desculpar-se no fim pela irrealidade por vezes sentidas, visto que muitas vezes a língua que une as personagens é o grego. Esta advertência deve ter sido feita para recuar um pouco alguns “ranhosos” que apontam qualquer falha possível, mesmo quando o livro trata-se de pura fantasia misturada um pouco com o histórico. A cultura e a linguagem são duas características principais de um país, e não nos esqueçamos da mitologia. Todo o país tem mitologia e Marillier recupera rituais pagãos, tal como o próprio título do livro indica: Cybele, a deusa da Terra, presente na Eneida, como a mãe de todos os Deuses. A personagem Adriadne, a protegida de Irene, é claramente uma alusão a Adriadne da mitologia grega, uma princesa que ajudou Teseu a derrotar o Minotauro, oferecendo-lhe uma espada e um novelo. Abandonada após a vitória contra o Minotauro pelo seu amor, casa-se com Dionísio. O papel da mulher contrastando com o da mulher turca, que cobre a cabeça com um lenço, que não tem direito a uma educação e que em certa medida é tida como ou “servant” do marido ou então completamente ausente da vida pública. Paula, inteligente, culta e livre é quem ensina Stoyan a escrever o seu nome em troca de lições de auto-defesa. Este casal prova que nem sempre as pessoas que têm coisas em comum acabam por ficar juntas. Stoyan é um guarda-costas, com atributos físicos fortes, mas que no entanto é analfabeto e segundo ele, Paula, uma mulher tão culta não iria querer um homem rude e simples. Enquanto o português Duarte da Costa Aguiar possuía tanta cultura como Paula e ambos partilhavam os mesmos interesses. Não existe por isso nenhum desafio por parte de Paula para com Duarte Aguiar, enquanto Paula poderá vir a ensinar Stoyan tudo o que sabe, partilhando algo de si. Pessoalmente achei a proposta de Duarte, bem mais aliciante, mas iria contra a personagem de Paula. Marillier desenvolve um coração e vontade própria e mesmo que digamos que Paula no fim parece retroceder e tenta até provar à mãe de Stoyan que não é somente uma estudiosa, mas também sabe cozinhar. Não sei se terá sido prudente atribuir a Paula um futuro onde terá de ficar em casa com uma Biblioteca, enquanto poderia viajar pelo mundo a descobrir novas culturas. Mesmo assim o nosso coração fica descansado ao saber que Paula fica feliz e completa assim.

Fico à espera do 3º livro da série “Wildwood”.

Thursday, 24 June 2010

As brumas de Avalon IV

As brumas de Avalon IV
O Prisioneiro da Árvore
Original: The Mists of Avalon
Marion Zimmer Bradley
Editora: Difel
Ano: 2001
Preço: 17€00
Tradutora: Gabriela Alves Neves
Revisão literária: Maria João Favila Vieira



O livro mais medieval da saga escrita pela Marion Zimmer Bradley. Embora tenha uma estrela a menos, este facto não se deve à perda de qualidade, mas sim à brusca mudança de leitura. Se nos primeiros livros notava-se um tom leve e descontraído em que tudo flui com calma, cheguei a pensar que estava a ler de novo “A Canção dos Nibelungos” devido às mortes que ocorreram em tão pouco espaço de tempo. As personagens que vimos nascer e crescer passando pelos casamentos e infortúnios amorosos, entram agora em declínio. Arthur está velho e com paz no seu reino; Avalon ameaça fechar-se para sempre entre as brumas e as gerações futuras parecem querer recuperar o nome da corte de Arthur como uma corte de homens guerreiros, em vez de ser uma corte mesquinha onde só se ouvem mexericos por entre as aias mais novas. Nota-se um certo declínio nas aias mais jovens, que só se interessam pelos cavaleiros mais belos e fortes e que vivem da vida alheia sempre ociosas, ao passo que no tempo de Gwenhwyfar e Morgaine, as aias, apesar de também cochicharem, pareciam mais comedidas.

Contudo acho que esta aproximação à literatura medieval não se deve só ao banho de sangue. A separação da vida privada com a pública muito bem caracterizada, o ambiente de festas e cerimónias como entretenimento da época, a questão da honra (bastante importante na Idade Média) e ainda o papel de Gwydion como guardião da Memória. Comecei a ler “As Brumas de Avalon” como se fosse um exemplar de literatura feminista e não como um livro de fantasia, o que pelas minhas reviews tem-se notado certas observações. Não acho que as brumas sejam o exemplo mais radical que tenha lido dentro da área feminista. Existe uma certa dicotomia entre ódio - poder: ódio em relação às mulheres para com os homens e poder visto que os homens eram mais forte fisicamente do que as mulheres. Porém esta força física é claramente diminuta nos homens a nível psicológico. As mulheres conseguem manipular a vontade dos homens, que tudo fazem para satisfazer os caprichos das donzelas, levando ao declínio de Avalon. Neste último capítulo das Brumas, Morgause diz explicitamente que odeia os homens, sendo a primeira vez que uma personagem feminina verbaliza o seu descontentamento pelos homens, contudo Gwenhwyfar solta-se dando mais uma oportunidade agora em velha para ser feliz com Lancelet. Mas se Avalon está a morrer aos poucos, também não resta muito tempo para as personagens que tanto batalharam por Camelot. Finalmente conseguimos ver que as personagens livram-se dos seus tabus e medos através do aborto, adulteração e introduz temas como a menopausa. Tudo acaba com as personagens nos seus sítios preferidos, com o destino a parecer uma coisa tão cruel, mas que nos deixa a salivar por mais.

Apesar de ainda ter escrito mais coisas sobre Avalon, desde a sua morte (1999) que a sua sucessora Diana L. Paxon tem vindo a escrever novas séries, contudo não sei se se calhar esta "nova" autora conseguiu se calhar criar um mundo melhor do que Marion Zimmer Bradley ou se estragou se calhar um pouco a mística de Avalon.

Para todas as mulheres este é um livro obrigatório.

Wednesday, 16 June 2010

The Handmaid's Tale

The Handmaid's Tale
Margaret Atwood
Editora: Vintage
Páginas: 320
Preço: (amazon.co.uk) 5£27
ISBN: 978-0099740919



Normalmente quando se acaba de ler um livro pensamos um pouco nele e se for um livro bom fica-nos um pouco na memória, no entanto “The Handmaid’s Tale” é um livro, que tal como a grande obra de George Orwell “1984”, é impossível sair da nossa cabeça. Em conjunto com outras autoras feministas da segunda vaga tal como Marion Zimmer Bradley (aborto) e Angela Carter (pornografia), Margaret Atwood cria um sistema totalitário onde as mulheres são protegidas, não trabalham e o único propósito da sua existência é procriar para a sociedade. Abordando temas como sexo como acto de procriação e não por prazer, "My red skirt is hitched up to my waist, though no higher. Below it the Commander is fucking. What he is fucking is the lower part of my body. I do not say making love, because this is not what he's doing. Copulating too would be inaccurate, because it would imply two people and only one is involved. Nor does rape cover it: nothing is going on here that I haven't signed up for." (94) de algum modo também aborda o “anti-pornography feminism”, quando as “Aunts” mostravam filmes pornográficos dos tempos anteriores para educar as novas mulheres. Contudo como em todos os sistemas tem de haver sempre clandestinidade, as “Jezebels” prostitutas e lésbicas incapazes de se adaptarem à nova sociedade, servem de conforto aos Commanders, que requisitam os seus serviços. Apesar de a sociedade repudiar a violência contra as mulheres em especial a violação, o que é ter sexo só para procriação? A própria farda usada pelas “Handmaids” da cor vermelha, símbolo do sangue da menstruação e fertilidade, pode ser visto como símbolo do pecado, visto que as Handmaids são, segundo as Wives, consideradas “prostitutas”. Existem também várias implicações e críticas a nível religioso. Gilead por exemplo, originário do “Genesis”, significa “mount of witness”, as Marthas são o símbolo da vida doméstica “mistress”. É possível de igual modo estabelecer uma ponte entre os “Guardians of Faith”, “Angels” e o Cristianismo. Contudo não existem só referências cristãs. O nome Jezebel origina do “Primeiro Livro dos Reis” onde Jezebel é descrita como uma mulher cruel, independente e determinada que expulsou os sacerdotes israelitas para apoiar os profetas do Deus Baal (fenício). Como consequência deste acto a princesa fora atirada pela janela e devorada por cães. Muito rapidamente gostaria de referir ainda o tema da linguagem, como um tema crucial para o fim da narrativa. Quando Offred (narradora embora este não seja o seu verdadeiro nome) torna-se amante do Commander, ambos jogam “Scrabble” um jogo para formar palavras, mas que constitui um símbolo de inteligência. Ao jogar com o Commander, Offred começa a lembrar-se de palavras algumas usadas na sociedade pré-Gilead. Embora o exercício mental fora proibido, descobrimos aos poucos que o Commander é um amante do passado e uma espécie de “coleccionador” de relíquias. Impossível de exercer este jogo proibido com a mulher Serena Joy, terá de exercer com alguém de fora, com que pode conversar. A narradora entra também em contacto com um grupo de rebeldes “Mayday”, que a narradora relembra que vem do francês “m’aidez”.
“The Handmaid’s Tale” é um retrocesso em relação à realidade. Enquanto a sociedade tem tendência a caminhar para à frente, tal como em “1984” de Orwell, também Atwood parece ter pouca esperança num futuro livre. O sistema de Gilead aproxima-se drasticamente dos séculos pré-feministas, onde as mulheres não podiam votar, escrever ou ter prazer nas relações sexuais. O cigarro é um símbolo de clandestinidade, mas também de liberdade. O stress causado pela sociedade que rompe completamente com a anterior, leva a que a narradora anseie por um cigarro para reviver os tempos passados. Passado esse que a narradora muitas vezes relembra através de flashbacks para estabelecer uma ponte entre o passado e o presente. O fim é deixado em aberto, deixando uma réstia de esperança para os mais optimistas, mas também pode ser um “sad ending” para quem prefere fins mais dramáticos. O importante acho que é meter as pessoas a reflectirem e suspirarem de alívio por a nossa sociedade ainda não ter chegado a este extremo.


Friday, 11 June 2010

Novela lírica

Novela lírica
Annemarie Schwarzenbach
Original: Lyrische Novelle
Editora: Granito Livreiros
Páginas: 112
Preço: 10€97
Tradutor: Lídia Oliveira Rainha de Barros
ISBN: 9789728594220




Para quem é assíduo deste blog tem notado que de vez em quando leio um livrinho da "Annemarie" ou então faço alguns artigos sobre a mesma. Quem leu o meu perfil sabe que ela é das minhas principais influências quando escrevo. Quem é inteligente sabe que vou bajular, idolatrar e basicamente ameaçar as pessoas para lerem este livro. Contudo não pensem que a Novela Lírica é um livro de viagens. Este manuscrito foi elaborado em 1930 quando Hitler ainda não tinha subido ao poder e quando Annemarie Schwarzenbach conseguia desfrutar da vida boémia em Berlim, onde frequenta bares gays e vive a vida nocturna que tanto adora e que aos poucos a destrói. Mais tarde a escritora viria a realçar as saudades do seu país e da sua cidade pré-hitlariana. "Novela lírica" não conta uma história, não tem fim e aproxima-se do estilo de Hemingway. O "eu" narrativo é um homem que descreve a sua relação com uma actriz/cantora Sybille, centrado nos seus problemas emocionais, mas também os problemas com o álcool e como já característico da prosa de Schwarzenbach a doença, a febre e a fraqueza. Como sempre Schwarzenbach busca algo, mas o quê? Quando escreveu "só escrevo quando estou triste" podemos esperar uma narrativa desorientada, desesperada, contudo majestosa e agradável. Continuo a achar que Annemarie Schwarzenbach é uma das melhores escritoras de sempre e que devia ter mais projecção internacionalmente.

Sunday, 6 June 2010

Ghostgirl

Ghostgirl
A rapariga invisível
Tonya Hurley
Original: Ghostgirl
Editora: Contraponto
Páginas: 336
Preço: 17€50
Tradutor: Rosa Amorim




Quando a minha irmã mais nova fez onze anos decidi dar-lhe algo novo para ler, sem ser os livros do António Mota ou da Sophia de Mello Breyner. Lembro-me que tinha só doze anos quando a minha mãe me deu “Os Filhos da Droga” para ler, o que foi basicamente um choque, devido a cenas que na altura nunca teria imaginado. Quando vi que a minha irmã já estava na pré-adolescência, decidi que iria fazer os possíveis para guiá-la nas suas aventuras literárias, para evitar tornar-se como eu. Por entre nomes clássicos da literatura como Oscar Wilde, Eça de Queirós, Wolfram Von Eschenbach, La Fontane e Edgar Allan Poe pensei que seria uma boa prenda um livro mais levezinho onde pudesse identificar-se com alguma personagem. Após ler críticas muito boas do livro de Tonya Hurley e perante a capa pseudo-gótica, lembrei-me que talvez seria boa ideia dar-lhe um livro mais próximo de algo de terror. Se o resultado fosse bom ou mau seria um risco a tomar em conta. Chorei os 17€ e fiz “fingers crossed” para que ela gostasse do livro. Devorou-o e disse que o livro era muito bom o que só me fez aumentar a curiosidade. Ontem peguei finalmente no livro e também o li bastante rápido. É bastante fácil de gostar do livro, a história parece um filme feito à medida para adolescentes que passa no Disney Channel, provavelmente com o Zac Efron a fazer de Damen para as “pitas” andarem aos gritos na sala de cinema. Contudo não pensem que é uma história desmiolada, dei comigo por vezes a pensar como efémera é a vida devido à morte de Charlotte Usher (Usher para quem não sabe é uma alusão a um conto de Edgar Allan Poe “A queda da casa de Usher”) devido a um ursinho de goma. Existe uma coisa na vida que eu nunca hei-de entender: o sistema americano passado nos filmes de adolescentes sobre a popularidade dos jovens e a sua divisão na escola: as raparigas populares que são maior parte das vezes más, burras, vaidosas e só vivem da vida alheia; os desportistas igualmente burros, mas que não falam mal das pessoas porque são rapazes; os góticos que segundo “toda” a gente pensa adoram Satã e têm cadáveres no quarto (lol) e por fim as pessoas normais que não merecem destaque (mas que acabam por ser sempre as destacadas nos filmes ou livros). Tonya Hurley serve-se destes estereótipos importantes na América, mas que em Portugal não faz sentido, para dar vida às personagens. Charlotte Usher a rapariga invisível; Damen o rapaz perfeito, Petula a víbora que só pensa em maquilhagem, Scarlett (mais emo que gótica) que vai ter um papel importante ao longo de toda a narrativa. E é aqui que Hurley revoluciona basicamente a história, transformando um liceu onde Petulia é a “rainha” e onde governa a superficialidade, num liceu onde Scarlette e Damen com os seus gostos musicais “punk-rock” ou “pop-rock” (whatever) influenciam a escola. Como ponto menos positivo temos Charlotte, que está tão agarrada a Damen que só pensa nele e esquece-se de casa ou até mesmo das outras pessoas. É perfeitamente normal que os adolescentes liguem pouco aos pais (been there, done that), mas o que me meteu confusão foi esta obsessão pelo rapaz, cuja vida não sabia nada (pouco sabia dos gostos dele e chegara até a visitá-lo no quarto ou no balneário enquanto ele tirava a roupa). Apesar do corpo e o conhecimento deste ser outro papel importante na adolescência, achei o comportamento quase parecido com o de Bella Swan na saga “Twilight” que também parece avariada por Edward. Outro ponto positivo será o desenvolvimento de uma realidade paralela no liceu: uma parte para os vivos, outra para os mortos, onde ambas “espécies” coexistem sem que os vivos tenham conhecimento dos mortos. A especulação do que está para além da morte torna-se a parte mais divertida, com aulas sobre morte e algumas “poderes” que os mortos têm.
O que mais me encantou não foi a história, nem as personagens, muito menos o fim, mas sim as citações que abrem os capítulos com nomes sonantes como: Edgar Allan Poe, Kurt Cobain, Sylvia Plath (esta foi uma surpresa), Emily Brontë, William Blake (outra surpresa) e Oscar Wilde. São referências e talvez incentivos para a nossa juventude pegar não só em “Ghostgirl” mas também em outros autores que trataram do mesmo tema: o amor e a invisibilidade de uma forma mais adulta. Este sim foi o factor que me fez sorrir várias vezes sempre que abria um capítulo novo e dei por mim a avançar só para saber qual seria a citação seguinte.
Se sair a tradução do segundo (visto que este fora publicado em 2009 e a colecção original já vai para o 3º volume) vou comprar, visto que pelo que ouvi Tonya Hurley corrige algumas faltas que cometeu neste primeiro (e será também uma boa prendinha de Natal ou de anos).

Friday, 4 June 2010

Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem

Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem
Egyd Gstättner
Original: Februarreise an den Tejo
Editora: Granito Editores
Páginas: 108
Preço: 9€98
Tradutor: Mário Matos



“Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem” pode ser usado como contraste entre Koeppen e Annemarie Schwarzenbach (os três são autores de livros de viagens), ambos com características singulares, que poderá ajudar o leitor mais distraído a arranjar o seu tipo de livro. Gstättner apresenta uma narrativa bem-humorada com Lisboa como pano de fundo da sua viagem, mas também de um encontro meramente hipotético entre o nosso grande poeta Fernando Pessoa e o escritor Italo Svevo. O que interessa a Gstättner não será transpor a sua vida pessoal, nem descrever as paisagens, somente realizar uma viagem para conhecer a cidade onde este grande homem de nome Fernando Pessoa viveu. Tal como acontece mais na literatura de viagens com Koeppen do que em Schwarzenbach existem várias marcas de (inter)textualidade que o leitor se diverte a encontrar e descobrir novos possíveis autores. O livro é relativamente pequeno, fácil de transportar e não apresenta grandes dificuldades de interpretação. Não é um guia de viagens como Koeppen, antes consegue transpor dentro de uma viagem, outra ficcional, mas que nem por isso perde a beleza. Não é recomendado, no entanto, que o leitor dê inicio à leitura deste belo texto quando estiver a fazer uma viagem de avião. É que o viajante parece logo desde o inicio ter um medo terrível de voar e procura calcular as catástrofes possíveis que podem acontecer num avião. “Admito contudo que na História da viação já se tenham despenhado mais textos do que aviões.” Pensa também por que razão não haverá uma 13º fila, no fundo deverá haver um bom motivo, não vá o diabo tecê-las e algum azar acontecer. Mais à frente no 3º capítulo o viajante poético brinca com a ambiguidade da linguagem, troçando o nome do capitão Leicher (em alemão Leiche significa “cadáver”) que afirma “There is point of no return” provocando gargalhadas aos leitores mais malicioso que gosta de se rir com a possível desgraça alheia (em que me incluo). O viajante pesa ambas personagens contrastando ambas as vidas e comparando as obras. Bernardo Soares e Alfonso Nitti foram ambos guarda-livros niilistas (pessoas que dizem “não”) que o narrador opõe às pessoas que dizem sempre “sim”. Enquanto o “não” é uma palavra bonita que se contrapõe ao mundo, o “sim” é algo insignificante. Veremos que este narrador é um pouco do contra, quando também menciona a sua simpatia pelo clube de futebol português “Belenenses” por este não estar sempre a ganhar. Pessoa e Svevo têm muito em comum: ambos foram maioritariamente escritores anónimos que pagaram do seu próprio bolso os livros, sem qualquer importância para o panorama literário da época. Contudo Svevo consegue atingir alguma popularidade quase no fim de vida através do escritor James Joyce que foi seu professor de inglês. Em contrapartida Pessoa permanece um estranho. Um dos capítulos mais engraçados do livro será o 7º em que o viajante imagina as aulas de inglês de Svevo e a sua relação com o cigarro. “My wife is called Livia. She is very beautiful. I love her. (…) Livia doesn’t want me to smoke. She says, if I don’t stop smoking, some day she will burn down our wedding certificate. I guess, this is a joke.” (37) O cigarro é um elemento essencial à criação e produção literária, sugamos o filtro como a cada passa sugamos a própria vida ou como se estivéssemos a consumir aquilo que não temos. O tabaco alimenta o vício, mas também a alma já que o corpo vai ficando pior. O cigarro pode também ser um símbolo de uma proximidade ou estabelecer uma relação pessoal (quando se partilha um) já que pode constituir um elemento de proximidade (quando duas pessoas fumam). Svevo (fictício) admite que fuma, porque não pode consumir todas as mulheres que quer: “Fumo porque não posso ter todas as mulheres que desejo. Fumo porque nem sequer tenho a maioria das mulheres que gostaria de ter. Fumo porque já não tenho as mulheres que tive e ainda não conheço as mulheres que terei, caso ainda venha a tê-las. Tudo isto são verdadeiras catástrofes, e é por isso que fumo.” (62) Os diálogos entre Pessoa e Svevo atravessam frequentemente a barreira entre o verosímil e o espalhafatoso, com muitos pensamentos, filosofias e guias turísticos à mistura.
Sei o que estão a pensar... será este um livro de viagens ou não? E se é, porque raios ainda não falei da viagem em si? Basicamente em “Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem” sem Pessoa não haveria viagem e sempre que o narrador verifica os sítios em Lisboa, dá vontade de saltar, não porque as descrições são más, mas porque a narrativa sem Pessoa parece incompleta. Aliás o próprio narrador segue um guia turístico que o próprio poeta escreveu sobre a cidade de Lisboa.
Para concluir gostaria de referir ainda que o livro foi uma pequena pérola que tive o prazer de ler e que despertou a minha curiosidade sobre este autor austríaco. Uma nota ainda muito positiva ao tradutor e coordenador Mário Matos: não só pela excelente tradução do título (na minha opinião melhor que o original), mas também pelas notas de rodapé que são um auxilio importante ao leitor mais desleixado.