Saturday, 29 May 2010

Conversas no Clude Literário do Porto e Feira do Livro

Quando a colecção de viagens da "Tinta da China" iniciou-se no mercado com uma desconhecida do público português de seu nome Annemarie Schwarzenbach, pensei que a colecção de Literatura de Viagens iria fracassar, por começar por uma estrangeira desconhecida. Contudo os leitores reagiram bem e um ano apos a publicação da "Morte na Pérsia" seguiu-se o livro "Caderno Afegão" da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Para o nosso publico, Alexandra Lucas Coelho já não será uma desconhecida, mas sim uma conhecida colunista do “Público”. A convite do Instituto de Literatura Comparada Margarida Llosa a jornalista falou sobre as suas experiências no Afeganistão e também do motivo que a levou a visitar este país. Com uma introdução belíssima do Professor Doutor Gonçalo Vilas-Boas, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, entramos aos poucos numa realidade diferente sem nos movermos da cadeira. Uma discussão descontraída onde saímos com vontade de saber mais sobre esse país com aspectos positivos, mas também negativos. No cerne das questões esteve presente o tema das burcas e do papel das mulheres, passando brevemente pelas influências literárias da autora. Alexandra Lucas Coelho mostrou bastante profissionalismo sem qualquer rigidez, conseguiu abrir o apetite para descobrir-mos literáriamente este país que é o Afeganistão, ainda a tentar erguer-se das décadas do regime Talibã. É um país com bastantes problemas, mas com um passado cultural bonito e penso que estes livros de viagens ajudam fortemente a desmistificar certos estereótipos criados a partir do 11 de Setembro. Como Portugal também teve de reconstruir-se desde o 25 de Abril, também os afegãos e afegãs terão de lutar para as próximas gerações por um futuro melhor e mais justo.

Para quem passou pela Baixa estes dias notou que as barraquinhas já estão quase todas. Ainda não vi nenhuma barraca da "Edita-me", nem sei se a própria editora alugou um espaço, mesmo assim também ainda não vi a barraca da FNAC. Sempre que passo pelos Aliados é de carro ou autocarro, por isso as fotos nem sempre ficam boas.


Tuesday, 25 May 2010

Countdown para a 80º Feira do Livro do Porto

É na próxima Terça-Feira, dia 1 de Junho, que teremos a oportunidade de visitar a 80º Edição da Feira do Livro do Porto, após várias dúvidas quanto ao sítio e adiamento da data de abertura. Um dia após a confirmação do local, Avenida dos Aliados, as primeiras barraquinhas já se encontram montadas, o que é de louvar, visto que ainda este fim-de-semana o mesmo espaço serviu de palco para o "Porto Roadshow". Ás 12.40 encontravam-se prontas três ou quatro barraquinhas ao lado da Estátua de D. Pedro IV, quando lá regressei às 16.10 já se encontravam em construção mais barraquinhas. Pelo andar da carruagem quando lá regressar Quinta-Feira espero ver uma Avenida mais preenchida. Quantas mais barraquinhas houver, mais perto estamos de soltar o bichinho do "Consumismo Cultural".


Sunday, 23 May 2010

Pouco tempo para escrever

Apesar de conseguir ler a um ritmo normal, com tanto projecto e exames para a faculdade sobre livros ou contos, acabo por ter pouco tempo para escrever reviews. Por vezes adormeço sem sequer pegar num livro. Olho para o "O ano da morte de Ricardo Reis" de Saramago em cima da minha mesinha de cabeceira e tento alcançá-lo, mas sem sucesso. Graças a Deus carrego sempre um livro na minha mochila, por isso acabo sempre por tirar magicamente da minha cartola um livro para ler no comboio. Still quando consigo sentar-me à frente do computador noto que não vou ter tempo para escrever a review do livro. Quando acabarem as aulas apesar de ler menos 1hora por dia, não vou ter problemas de tempo com as reviews. A lista de livros para ler alterou-se, mas atá agora quase 30 livros, o que para meio-ano não está nada mau. Espero que neste Verão consiga aniquilar a lista que se vem a arrastar na minha estante (nada mais que uns 20 livrinhos), o que por si só não é nada mau.

Tenho escrito e planeado alguns livros para comprar na Feira do Livro do Porto. Sei que raramente leio livros escritos por portugueses, e essa lacuna deve-se sobretudo aos preços excessivos praticados no nosso país. Se, por cada encomenda que faço no Estrangeiro poupo metade, custa-me quando dou mais que 14€ por um livro. Até porque como vêm as minhas leituras são planeadas, sem grande espaço para aventuras. Não posso dar ao luxo de gastar 18€ num livro que depois chego ao fim e choro o dinheiro. Por isso quando chegar a Feira do Livro vou tentar dar mais atenção aos escritores portugueses e se na Barraquinha da FNAC houver livros estrangeiros em promoção aproveito e compro (ou cravo aos pais) uns quantos. A colecção de livros de Bolso "11x17" têm vindo a despertar o meu interesse, talvez por serem livros recentes e que parecem de boa qualidade. Infelizmente o dinheiro que pedem continua a ser demasiado, se por cada livro "partem-no" em 2 acabando por ficar quase ao mesmo preço que os livros normais. Como a minha irmã encontra-se mais na idade de desenvolvimento da leitura e não possui ainda conhecimentos suficientes de inglês, tenho de ser sempre cuidadosa a comprar livros que sejam bons tanto para ela, como para mim.

Espero com especial ansiedade pela edição Hardback do livro de Scott Westerfeld "Leviathan" que deverá chegar amanhã e pela chegada do livro de Juliet Marillier "Cybele's Secret". Para já ficam as leituras "pós-exames".


Sunday, 16 May 2010

As brumas de Avalon II

As brumas de Avalon II
A rainha suprema
Original: The Mists of Avalon
Marion Zimmer Bradley
Editora: Difel
Ano: 2001
Preço: 17€00
Tradutora: Maria Dulce Teles de Menezes
Revisão Literária: Maria Lúcia Garcia



Marion Zimmer Bradley apresenta um segundo volume mais focado nas personagens, sendo estas a voz dos mais variados temas feministas na prosa que tanto me deleitou no primeiro volume da saga de Avalon. Se no primeiro volume existia uma critica acérrima ao Cristianismo, em "A Rainha Suprema" a autora consegue pedir aos leitores que reflictam sobre injustiças que a Igreja comete durante séculos contra a mulher. Morgaine, apesar de longe de Avalon sente-se cada vez pior na corte de Arthur após o seu casamento com Gwenhwyfar. Gwenhwyfar apesar de ser uma mulher bonita pode ser considerada uma mulher ignorante, fanática e até mesmo interesseira, disfarçada de Rainha Suprema. Enquanto Morgaine não segue ordens e desafia a Deusa ao querer abortar do filho de Arthur por vontade própria, Gwenhwyfar fica obcecada com a ideia de ter um herdeiro para o trono, penitenciando-se e rezando a Deus para que lhe dê um filho. Não sei (visto que ainda não terminei a leitura da saga) qual fora a intenção da autora ao criar este pólo diferente de Morgaine. Duvido que possa ser visto como uma "moral" fora da moral religiosa. Penso que talvez a esposa de Arthur sirva para retratar a fraqueza das mulheres, quando subjugadas a uma religião que não as apoia, e subjugadas por homens, criaturas que não são menos que "nós", mulheres. Ao passo que Gwenhwyfar pensa que o acto sexual serve só para a procriação e dar um filho a Arthur, Morgaine consegue abstrair-se desses moralismos e como é descrito ao longo da obra têm relações sexuais com outros homens só pelo prazer. Ao contrários do Deus que os padres apregoam, a Deusa (encarada como representante da fertilidade) incentiva os seus seguidores a procriarem e encherem a terra com crianças, ao passo que o Deus que os padres defendem, simplesmente usa as mulheres como uma barriga para um valor mais importante que a simples gravidez. "To fuck or not to fuck" livre de qualquer compromisso, defendo que Morgaine, vindo de Avalon, é uma espécie de mulher-modelo para Marion Bradley. É bondosa, descontraída, inteligente, independente, mas tem também uma capacidade muito grande de amar, seja o irmão ou Lancelet. De facto o amor parece quase um plano secundário neste segundo volume, mas que no fim deste parece finalmente triunfar. O afastamento de pensamentos mais cristãos da cabeça da rainha, a traição de Arthur para com Avalon, o amor louco que Lancelet sente pela rainha e que poderá ou não triunfar são pontos importante a ter em conta no terceiro volume. Existem várias pontas soltas e embora já saibamos como a história irá acabar, uma curiosidade corroí o coração quando tentamos prever se a rainha conseguirá tornar-se uma Mulher, ou se continuará com a sua obsessão pela igreja e Deus e também se Lancelet finalmente irá casar-se com Morgaine a fim de acalmar o seu coração amargurado.

NOTA: Continuo a achar os homens normais para a época. É verdade que se o livro fosse escrito na Idade Média, Morgaine seria retratada como a bruxa má e estéril enquanto Gwenhwyfar seria a rainha que muitas alegrias trouxe ao rei Arthur. Contudo como a saga fora escrita no séculos XX parece-me mais que justo esta inversão de papeis e de lições. Marion Zimmer Bradley continua a defender as mulheres para que ganhem voz própria longe da rigidez da religião que mesmo em pleno séculos XXI continua a defender valores dos tempos medievais.

Wednesday, 12 May 2010

Meme de Hábitos de Leitura

Petiscas enquanto lês? Se sim, qual é o teu petisco favorito?

Raramente como enquanto leio, principalmente com medo de deixar cair alguma coisa no livro e sujar. É horrível pegar no livro e ter lá uma crosta de bolo de chocolate.

Qual é a tua bebida preferida enquanto lês?

Nunca bebo também com medo de deixar cair qualquer coisa, contudo quando estou no comboio e estou a lanchar normalmente é um iogurte líquido marca random.

Costumas fazer anotações enquanto lês, ou a ideia de escrever em livros arrepia-te?

Como estou a acabar de tirar a licenciatura em literatura inglesa e alemã seria impossível arrepiar-me com anotações, visto que é basicamente o meu dia-a-dia. Contudo quando estou a ler um livro sem ter que estudar a fundo evito ao máximo escrever. Recorro sobretudo aos famosos “note-it” para marcar as passagens mais importantes.

Como é que mar caso local onde ficaste na leitura? Um marcador de livros? Dobras o canto da página? Deixas o livro aberto?

Uso sempre um marcador de livros que vem com os livros que encomendo do site “Bookdepository”.

Ficção, não ficção, ou ambos?

Ambos. Leio bastantes essays devido à minha licenciatura, mas também bastante livros. Gosto de ambos. Os livros são uma paixão recente (4 anos), porém sempre que existe um livro que adorei tento encontrar essays sobre esse livro para saber mais coisas. Também é verdade que o facto de eu escrever ambos (tanto textos ficcionais, como essays) ajuda a contrabalançar.

És do tipo de pessoa que lê até ao final do capítulo, ou paras em qualquer sítio?

Deixo a leitura em qualquer sitio, quando a cabeça ou o comboio não dá para mais, não dá.

És leitor para atirar um livro para o outro lado da sala ou para o chão quando o autor te irrita?

Não tenho acessos de raiva desses, e sou uma pessoa com bastante auto-controle. Quando um autor irrita-me acabo de ler o livro e escrevo uma review a dizer porque é que não gostei.

Se te deparares com uma palavra desconhecida, paras e vais procurar o seu significado?

Se estiver a ler em inglês sim, senão não. Estou habituada a entender as coisas pelo contexto. Não é uma palavra que vai fazer com que não entenda nada da história.

O que é que estás a ler actual mente?

As Brumas de Avalon: a Rainha Suprema de Marion Zimmer Bradley

Qual foi o último livro que compraste?

Comprei 3 na feira do livro da FNAC:
From Whom the Bell Tolls de Hemingway
The Night Watch de Sarah Waters
The Observations de Jane Harris

Lês só um livro de cada vez, ou consegues ler mais que um ao mesmo tempo?

Se o livro que estiver a ler for muito grande, posso pegar noutro mais pequenos de vez em quando e ler. Mesmo assim é raro visto que também leio livros para a faculdade tenho tendência a misturar narrativas.

Tens um lugar/altura do dia preferido para ler?

Comboio. A única hora que não consigo ler é no comboio das 7.10 da manhã, visto que acordo às 6 da manhã e vou a dormir em pé.

Preferes livros incluí dos em séries ou independentes?

Livros independentes. Detesto séries. Até porque 70% tende a engonhar a partir de certa altura. E o dinheirão que se gasta só para seguir as séries no fim é medonho. A única série que estou a comprar é da Charlaine Harris (Sookie Stackhouse Series).

Existe algum livro ou autor específico que estejas sempre a recomendar?

Bastantes até, sei que a maior parte é clássicos da literatura, contudo acho impossível alguém conseguir apreciar literatura sem ter pelo menos um nível aceitável de clássicos. Autores como Annemarie Schwarzenbach (clássico da literatura de viagens), Ernest Hemingway, Oscar Wilde, Shakespeare, Angela Carter e Neil Gaiman.

Como é que organizas os teus livros?

Sou bastante desorganizada. Na estante os livros estão por editora ou colecção, mesmo assim ainda existe alguns livros órfãos que não se encaixam em nenhuma parte. Gostaria de ter uma estante onde os livros estivessem organizados por autor.

Para organizar o que vou ler, tenho uma wishlist básica, na qual vou adicionando ou desistindo de alguns livros. Nunca sigo as coisas à risca. A Wishlist serve só para guiar mais ou menos e criar um balanço entre clássicos, literatura contemporânea (fantasia, romance, poesia, etc) e literatura light.

Tuesday, 11 May 2010

As Brumas de Avalon I

As Brumas de Avalon I
A Senhora da Magia
Original: Mist of Avalon
Marion Zimmer Bradley
Editora: Difel
Páginas: 320
Preço: 17€00
Tradutora: Maria Dulce Teles de Menezes



Um livro excelente, inspirador e acima de tudo um marco na literatura feminista “As brumas de Avalon: A senhora da magia” consegue dar voz a personagens femininas como poucas escritoras fizeram. Marion Zimmer Bradley conjura a partir da lenda do rei Artur uma narrativa centrada em duas partes: a primeira metade foca na vida da condessa da Cornualha Igraine, uma mulher que há pouco tempo atingira a vida adulta e já se encontra com uma filha nos braços de um conde velho que não ama. A segunda metade é marcada pela vida de Morgaine em Avalon e os seus ensinamentos para se tornar uma sacerdotisa. As personagens masculinas têm um papel ainda demasiado importante na narrativa, como o de Gorlois (um homem rude, retrógrado), Uther (o pai de Artur, Rei Supremo, forte mas ao mesmo tempo apaixonado e fraco por Igraine) e por fim Arthur (um rei bonito ainda que um pouco ambíguo). Parece que neste primeiro volume Marion Zimmer Bradley ainda jogou pelo seguro e não se atreveu a levar as personagens a um extremo feminista, apesar da personagem Gorlois consegue suscitar muitas vezes raiva e nojo, enquanto a personagem de Arthur está construída de modo a que aos olhos do leitor este rei seja, para já, um rei bondoso e acima de tudo tolerante.
Apesar de ser cotado como um romance de fantasia, arriscaria a defender que Avalon não é um romance de fantasia, mas sim para já uma utopia feminista. Existe um contraste estabelecido não só entre a religião de Avalon e a Cristã, mas também na sociedade em si. Enquanto na religião Cristã a mulher tem um papel redutor, o de mãe  esposa ou então se não for mãe terá obrigatoriamente de ser virgem; em Avalon a mulher tem uma função que não aprende só a fiar e bordar, mas artes úteis como arte de curar, prever o futuro próximo. Em Avalon a virgindade e a gravidez tem uma conotação positiva, é um orgulho trazer uma criança no ventre, mesmo que a mãe tenha pais diferentes. Embora a virgindade quase sempre seja perdida por um homem, que não seja o verdadeiro amor, não é a perda que tem um maior peso, mas sim o que vem depois. Na verdade o papel do pai é mesmo só o de progenitor, visto que a maioria dos homens andavam na guerra a lutar e a casa era deixada para as mulheres. Avalon é o sítio onde as mulheres conseguem viver livres de morais restritas e sem sentido para conseguirem alterar o mundo terreno para um mundo melhor, mais próximo de Avalon do que do mundo Romano regido por Homens. Enquanto na moral Cristã o incesto, a “bruxaria”, o adultério é visto como pecado sem perdão, em Avalon o incesto e o adultério podem simbolizar paz para um país em constante guerra. Quebrar as barreiras, dar mais voz à mulher abordando temas controversos como o direito ao aborto e o dever estereotipado da mulher (casar/ ter filhos) com a própria vontade (cometer adultério em nome do amor sem ser julgada/ abortar de livre vontade) consegue-se sentir nas veias o grito que Marion Zimmer Bradley em 1982 soltou ao escrever esta história.
Fica, contudo, a expectativa do segundo volume a autora ir mais longe nesta linha feminista e chegar ao extremo de diminuir cada vez mais o poder dos homens e aumentar o das mulheres.

Citações importantes:

(Igraine) “Como é que se atreve a chamar-me esses nomes, quando me carregou de presentes como se eu fosse uma dessas mulheres fáceis que andam atrás dos exércitos? Se pensa que sou uma prostituta, onde é que estão os presentes que recebi dos meus amantes? Todas as prendas que tenho foram-me dadas pelo meu marido, o impotente filho da puta de língua suja que tenta comprar a minha boa vontade para a sua luxúria porque os padres o tornaram meio eunuco!”

(Morgaine) “Mas o que é que uma virgem pode saber da labuta e dos sofrimentos da humanidade?”

(Arthur) “Foste a primeira. Por muitas mulheres que possa vir a ter, durante toda a minha vida lembrar-me-ei sempre de ti e amar-te-ei e abençoar-te-ei. Juro-te.”



Thursday, 6 May 2010

Observações

The Observations
(Observações)
Jane Harris
Editora: Presença
Páginas: 448
Preço: 18,07€




Após várias leituras de livros clássicos, decidi começar a ler livros de autores mais recentes, entre eles: Neil Gaiman, Sarah Waters, Juliet Marillier e como foi lançada recentemente a tradução de “The Observations” para português, decidi aproveitar a promoção da FNAC e comprei dois livros recentes e um clássico. Os meus hábitos de leitura têm sido dos mais variados, alternando sempre que posso entre clássicos e “light”. Terminada a leitura de “Interview with a vampire” julguei que fosse boa ideia ler algo mais histórico com uma personagem feminina.“The Observations” foi uma surpresa agradável em todos os níveis: literário, linguista e simbólico.

Jane Harris consegue cativar o leitor com a sua protagonista cínica, sem papas na língua e com um discurso bastante coloquial. De um “background” pobre com uma mãe alcoólica e após a morte do seu Mr. Levy, Bessy (cujo nome verdadeiro é Daisy) decide procurar emprego noutro lado e aterra em Castle Haivers para ajudar a “missus” com um porco. Sem sítio para onde ir, é-lhe oferecido um trabalho como uma empregada faz-tudo. Bessy tem de cuidar da quinta, ler para o master James, escrever um diário onde relata o seu dia-a-dia e ainda servir de cobaia às experiências de Arabella, a sua patroa. Estas experiências levam a que Bessy pense que de facto Arabella não está no seu estado mental normal. A descoberta do livro “The Observations” por Arabella Reid despertará um plano de vingança delicioso, psicopata e bastante bem humorada, com um fantasma inexistente e várias partidas pregadas por Bessy que levam a um resultado maravilhoso.


“The Observations” aborda vários temas como identidade, algumas implicações lésbicas, o papel na mulher na sociedade vitoriana sendo o próprio diário um símbolo desse papel. Arabella esconde o diário com medo de ser alvo de chacota do marido. O único papel que lhe é destinado na sociedade será o de acompanhante do marido, como troféu de beleza e bondade. Quando Arabella perde o juízo já não faz parte deste mundo, o seu internato no Hospício dá-lhe liberdade de escrever as suas novas observações. A loucura pode ser encarada como uma metáfora para a liberdade, só nos Hospício é que a mulher pode ser livre de fazer o que quiser, sem ser reprovada. Podemos colocar também a verdadeira questão: será Arabella de facto louca? Ou a sua loucura fora, como em “Jane Eyre”, provocada pelo marido? Arabella é uma nova Bertha Mason, uma mulher bela que tem o azar de casar com um marido desinteressante. James Reid apercebe-se do seu erro quando é forçado a internar a sua mulher; mas Rochester precisa de ficar cego para fazer Jane Eyre feliz. Em “The Observations” Bessy não se apaixona pelo seu senhor, mas mantêm-se leal à sua senhora e fica com ela no Hospício a trabalhar. Ambas ultrapassam o seu “gender” e a moral da sociedade para ficarem juntas como uma irmandade entre as mulheres, longe dos homens.

Existem várias expressões características do período que traduzidas para português perdem metade do valor linguístico do livro. Portanto aconselho a lerem o original (existem muitas expressões que eu não conhecia, mas nem por isso afectam a leitura do livro). Se o leitor observar bem verá que também a escrita de Bessy desenvolve. Desde a primeira entrada do diário até ao livro em geral, a sua gramática, pontuação evoluem, passando de uma prosa despida, para um romance bem estruturado.
O único aspecto menos bom que posso apontar será a repetição de algumas cenas para o leitor não se perder. Apesar das intenções boas, senti que eram páginas desperdiçadas.

“The Observations” pode ser encarado como uma nova “Jane Eyre” com mais humor, a mesma dose de características góticas (o fantasma de Nora, Castle Haivers e a própria loucura de Arabella) e com uma protagonista menos insossa.

Saturday, 1 May 2010

O crime de Lorde Arthur Savile

O crime de lorde Arthur Savile
Original: Lord Arthur Savile's Crime
Oscar Wilde
Editora: Quasi
Páginas: 77
Preço: 1€50
Tradutor: Sebastião Ferreira



Oscar Wilde foi a seguir de Shakespeare, um dos autores que obrigaram-me a adorar a Literatura, quando esta me era indiferente. Com um humor sarcástico, crítica social inteligente e elevando o "dandi" a um estatuto artístico, Oscar Wilde é um autor obrigatório, que consegue deliciar-nos em poucas páginas. O conto "O crime de Lorde Arthur Savile" será uma pequena amostra do que Wilde é capaz.
Quando um quiromante lê a mão do Lord Savile revelha-lhe que este no futuro cometerá um homicídio. Decidido a cumprir esse homicio, Lorde Savile tenta matar duas pessoas sem sucesso: a primeira morre de morte natural e a segunda torna-se uma moda, relógio que executam pequenas explosões quando programados. A ponto de desistir do casamento e do seu propósito da vida, certa noite Lorde Arthur encontra o Quiromante e atira-o da ponte fazendo com que este morresse, concretizando por fim o seu objectivo. Casa-se com a sua noiva, a perfeita Sibyl e anos mais tarde o Quiromante acaba por ser recordado como um aldrabão. Existe sempre uma ironia na prosa de Oscar Wilde, que deixa qualquer pessoa bem-disposta, mesmo quando o assunto é mórbido. Wilde explora também temas como o casamento e a sociedade vigente, que como em "The Importance of being Earnest" usa uma máscara para manter os seus segredos escondidos. O Quiromante é uma pessoa à margem da sociedade, já que ele lê não só a vida mas também a personalidade das pessoas.

Um conto pequeno, mas a não perder.