Sunday, 31 October 2010

O regresso a Orbias povoado por Final Fantasy

Orbias: O demónio branco
Fábio Ventura
Editora: Casa das Letras
Páginas: 412
Género: Fantasia


Quando o nome de Orbias surgiu na Internet, admito que fui das primeiras a torcer o nariz quanto às influências do autor. Videojogos, música, anime cinema foram as inspirações primárias e fundamentais para a construção do Orbias I. Como conseguiria um autor escrever um livro deixando a literatura de parte como influência principal? Quando li as críticas (na blogosfera) os meus receios foram confirmados: o Orbias I tinha de facto lacunas a nível da maturação das personagens e a acção decorria demasiado depressa. Contudo e apesar de vários pontos negativos apontados, Orbias parecia ser cada vez mais badalado. O autor chegou a lançar uma série de contos online, onde deu continuidade à saga através das personagens estabelecendo uma ponte entre o primeiro e o segundo volume. As críticas deste segundo volume dispararam, a correria às livrarias dava origem a posts novos em cada blog com fotos do livro, restava agora o tempo de leitura e a espera de ver se o Orbias II tinha crescido para algo maduro.

Antes de mais quero adiantar que sem ler o primeiro foi bastante fácil entrar na história.

O início do livro é péssimo. Noemi encontra-se visivelmente abalada, quase louca devido à perda recente de Sebastian. A sua vida é um caos, é maltratada no estágio, descuida da sua vida pessoal devido à obsessão em tentar voltar para Orbias e negligência a sua saúde. Várias vezes questionamos as suas acções e pensamentos apesar de (Noemi) afirmar várias vezes que não estava louca, as suas reacções ditam o contrário. Embora o Orbias II possui um início lento e chato (já não se aguenta tanta “emoness”), o autor introduz rapidamente o mundo e o regresso de Noemi a este. Já não existe o problema do primeiro volume, onde as guerreiras aceitam tudo de leve animo, contudo começa-se a notar falhas a nível do discurso directo. O facto de a Belladonna (personagem “favorita” ou vá a que eu acho que tem mais potencial) revelou-se terrível! Sempre que abria a boca acabava cada frase com “querida” - o que soa traduzido do inglês como “darling” - e o facto de não ter mais nenhum interesse para além do seu cabaret e sexo. Sabemos que não gosta de ler, mas que capacidades tem esta mulher que entra voluntariamente para o mundo da prostituição e que se torna Guerreira da Morte? Não sabemos. O principal é sabermos como Noemi reage, como Noemi se sente, o resto das personagens têm muito pouco que falar. A grande ausência foi sobretudo Rouge, que tem, neste segundo volume, um potencial gigantesco. No entanto, penso que não foi explorada o suficiente, restando-lhe apenas três ou quatro situações chave, onde a sua voz escasseia em se fazer ouvir. Como única ligação entre a parte política de Orbias, seria interessante lermos mais atentamente o sistema político que mudou, o que mudou, a parte social de Orbias pós-separação. Infelizmente o retrato do povo Orbiano é péssimo. São literalmente zombies que não pensam, nem têm consciência política - votam na Riddel, devido à promessa da magia. Se traduzirmos isso para o nosso mundo, basicamente dá o mesmo que nós humanos. Muita gente que vota nos seus representantes, sem sequer pensar, ouvir ou se interessar pelos seus programas políticos - o que interessa são as promessas.

ALERTA SPOILLLLERRRR!!!!

Existem bastantes críticas ao nosso mundo - mais propriamente Portugal. O estado caótico da Comunicação Social, o apelo às energias renováveis, a crítica à política escolhida pelos orbianos e por fim o bullying sofrido por Noemi na sua adolescência que serviram para identificar a personagem com muitas leitoras. Há espaço também para discussões teológicas entre Deus e Deusa onde o autor consegue puxar da cartola nas últimas páginas uma crítica a Deus e à Deusa através da criação de dois seres imperfeitos expulsos dos Céus - Riddel e Sebastian. O paralelo que se cria entre Adão e Eva podia ser menos explícito, penso que existiam simbolismos engraçados que ganhariam se as personagens não explicassem tudo. Um pouco de mistério seria um ponto favorável à narrativa.

FIM DE SPOILER!!!!


O facto de o livro ter um aspecto narrativo muito semelhante aos RPGs não foi ainda mencionado em nenhuma crítica. Adianto mesmo que foi a parte mais criativa. O facto de a cada pedacinho de tempo haver uma nova missão e um novo desenvolvimento. Os leitores estão inconscientemente a jogar com a personagem Noemi e à medida que os obstáculos são ultrapassados, um pedaço da história é revelado. O que é engraçado, porque houve uma certa pessoa (pun intended) que revelou que o motto do seu livro seria “Play the book.” A verdade é que o Fábio Ventura inconscientemente conseguiu trazer à vida esse “motto”. Outro aspecto bastante positivo é a influência que um videojogo pode ter nos cenários e em algumas personagens. Algumas descrições do sexo entre Noemi e Sebastian estão bem-feitas, simples e eficientes, ao contrário de algumas frases que só causam pasmo (to say the least) no leitor, tais como: “Adorava desvendar os mistérios desse teu corpinho virginal” ou “A única coisa que faria contigo agora era usar o teu corpo para o meu prazer sexual” ou até mesmo “Depois de te violar vou estrangular-te e corta-te ao meio com um só golpe.” As últimas duas páginas tinham uma qualidade bem acima da média. Sebastian já não era nenhum demónio sedento de sangue e Noemi já estava feliz por ter o seu namorado ao lado dela, terminando a saga com um balanço que devia de ter aparecido a meio do livro para tornar a leitura menos montanhosa.

Orbias o demónio branco é um livro com altos e baixos, que apesar de não convencer totalmente com o desfecho da narrativa, pensamos que o autor pode evoluir e de facto deitar cá para fora algo bastante bom. Não sei se foi a limitação de uma literatura mais juvenil, que impediu de ir mais longe ou se foi o facto de no campo da fantasia ainda haver preconceito de certas regras. Orbias ficará marcado como o início da carreira de Fábio Ventura, um autor com potencial, com vários campos a explorar e sem medos de ferir. A literatura magoa, alerta, tem o papel de entreter mas também de mexer com o leitor, como Brecht tanta defendia o efeito de distanciamento, para fazer com que o espectador reflectisse na peça. Fábio Ventura não deve ter medo de criar por vezes esse afastamento para fazer as pessoas pensarem. Se queremos escrever sobre prostituição, não devemos ter receio de explorar campos dentro desse tema. As personagens são algo riquíssimas dentro da narrativa e devem ser tratadas não como um simples apoio, mas como seres humanos que erram, aprendem, mas que sobretudo enviam uma mensagem - seja de esperança ou dor.

PS: E só porque também sou fã do Final Fantasy revi a crítica a ouvir o Nobuo Uemtasu :)

1 comment:

  1. tenho por ler...mas li o primeiro tb :).

    gostei da crítica!

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