Sunday, 24 October 2010

Mataram o Sidónio!

Mataram o Sidónio!
Francisco Moita Flores
Páginas: 300
Editor: Casa das Letras
Colecção: Ficção Portuguesa


"Em 1918, Asdrúbal d'Aguiar era ainda um jovem legista mas o trabalho meticuloso já fazia adivinhar o lugar que iria ganhar na história da medicina legal. A autópsia "notável" que fez a Sidónio Pais repousa nos arquivos, mas a turbulência política dos anos que se seguiram ao assassinato do presidente da República fez com que passasse despercebida. Quase um século mais tarde, Francisco Moita Flores estudou detalhadamente as perícias feitas pelo médico e questiona a versão do crime que a história consagrou. O homicida, afirma o autarca, ex-polícia e escritor, não poderia ter sido José Júlio da Costa."

in ionline, 1 de Abril de 2010

"Mataram o Sidónio" muito sucintamente é uma espécie de C.S.I à la "tuga" com uma mistura de "Bones", com a tecnologia disponível em Portugal nos finais dos anos 10, onde as personagens foram pessoas reais, que contribuíram para o caso que ainda hoje não tem solução. Talvez por a obra ser marcadamente inspirada no caso real, que foi a investigação por parte de Asdrúbal de Aguiar sobre a morte do presidente Sidónio Pais, toda a narrativa não tem uma ponta de falsidade no seu discurso. A genuidade dos diálogos, as situações caricatas, contribui para uma sensação quase parecida com a leitura de um livro de Eça de Queirós. O início é um pouco lento, nota-se um pouco de insegurança, ainda não sabemos muito bem se vai ser um policial ou algo diferente. Começamos com o dia-a-dia de Asdrúbal e o contacto com a "esperanza" que não é algo mais que uma epidemia que dizima a população portuguesa quase em inícios dos anos 20. Talvez por o crime demorar a aparecer, a parte mais interessante seja mesmo a demanda que o leitor segue com Asdrúbal para provar que não foi Júlio da Costa quem matou Sidónio Pais. A narrativa é fresca, a escrita madura e actual. Não sei se foi pura coincidência, mas aquando uma reflexão mais profunda dos métodos usados para chegar à conclusão que não tinha sido Júlio da Costa a matar o presidente, tive uma breve sensação que Portugal encontra-se, a nível laboratorial quase no mesmo patamar que nos inícios do séculos XX. Se calhar fruto do fracasso do caso Maddie, dá a sensação que Portugal é um bocado mau a resolver este tipo de casos. Apesar do resultado ser inconclusivo, Moita Flores consegue retratar um Portugal caótico, sem governo, de luto e desesperado por encontrar um rumo sem gente competente para o fazer. A ditadura militar de Sidónio Pais durou apenas um ano, para passados oito anos vir-se instalada uma Ditadura Nacional.

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