Wednesday, 29 September 2010

A filha dos mundos

A filha dos mundos
Ceptro de Aezirs: livro I
Inês Botelho
Páginas: 240
Editora: Gailivro
Colecção: Jovens Talentos
Edição: 2004


Sinopse oficial: Ailura teve uma infância repleta de contos de fadas, elfos e duendes, de todo um mundo mágico e maravilhoso. Mas como todas as crianças ela cresceu e, lentamente, esqueceu esse mundo encantado, até que deixou de acreditar que a barreira que separa o noso mundo dos sonhos e do maravilhoso não é mais espessa que o próprio ar.

Deve ser a primeira vez que coloco aqui uma sinopse oficial, contudo após a leitura do livro, pequeno devo dizer, receei que estivesse a ser injusta para com a escritora Inês Botelho, por lhe ir descascar tanto, o que também não só poderá criar um mal geral, visto os portugueses não estarem muito habituados a lerem opiniões negativas. Normalmente é tudo uma questão de gosto e gosto porque sim e não gosto porque assado, no entanto quando um livro não reúne condições para efectivamente termos uma ideia positiva, a coisa está negra. Costumo dizer sempre o mesmo nas minhas críticas: o livro é engraçadito, lê-se bem, mas de suminho não tem nada. O problema da "Filha dos mundos" é este e muitos mais.

Magiquei durante algum tempo os motivos pelos diferentes fracassos, chegando à conclusão que a própria colecção "Jovens Talentos" deve ser a pior colecção de fantasia alguma vez a sair cá para fora. Desde o Paolini até ao Zuzarte (não estou a atacar os autores... tirando o Zuzarte, esse ataco, ferro e se possível ainda lhe dava uns tabefes), a qualidade dos textos parece-me que nem sequer foi revista. O editor leu os textos, pensou "muito bem, que lindo!" e não reveu NADA! Ou seja um trabalho, de jovens sair para o mercado livreiro, sem sequer ter uma revisão não se pode esperar grande coisa. A culpa não deve ser atribuída aos autores, que como tantos outros autores mandam os seus manuscritos à espera de serem aceites, mas da editora que leu e deve ter achado aquilo muito bonito. Em 2004 até podia ter sido, duvido, hoje em dia, ano 2010, não o é. Lamento profundamente, e penso que até a própria Inês se arrepende um pouco de ter envergado por um caminho, que nem era esse que queria seguir, que se calhar anteriormente nesta colecção saíram títulos, que nunca deviam de ter visto a luz do dia nas livrarias, enquanto hoje em dia se calhar a própria editora até poderá recusar-se a ler um manuscrito, que poderia ter mais qualidade que estes títulos.

Independentemente da decisão da Gailivro, penso e defendo que o livro "A filha dos mundos" deveria de ter estado na gaveta até hoje. Poderia com algumas alterações ser um livro bonito, com profundidade psicologica, mas que devido à sua rápida publicação será sempre lembrado como um livro "que poderia ter sido algo de bom". A acção decorre demasiado depressa, existe uma certa infantilidade em algumas descrições, nomeadamente na repetição do adjectivo "bonito" ou "belo": a Ailura é bela, o elfo é belo, mas dentro disso onde está a substância? A Ailura aparece como uma mulher de 28 anos, directora de um jornal, com responsabilidade, mas que por algum motivo não gosta do namorado e a presença deste torna-se algo desagradável. Tudo isso muda quando Ailura é atropelada por um camião e encontra um mundo paralelo ao nosso. Esta espécie de twist recorda um pouco o romance de Neil Gaiman "Neverwhere", onde a personagem principal também entra numa espécie de realidade alternativa, fruto da sua ânsia de se escapar do mundo real. E este twist apesar de já existir é o unico factor bom que o livro apresenta. O facto de todos nós gostarmos de um dia viver num mundo alternativo é uma premissa razoável para um romance fantasioso, apenas a maneira como usamos essa premissa deve ser tomada em consideração. As personagens falham, como referi e a acção peca pela rapidez, na qual é apresentada. Tudo é muito romântico, tudo decorre demasiado depressa: a Ailura tanto detesta o elfo, como no momento a seguir já o ama e beijam-se e querem filhinhos. Ou seja, se a Inês Botelho tivesse esperado mais uns tempinhos, poderia de facto ter apresentado algo mais substancial, talvez introduzir algo mais sobre o povo élfico, os anões. Como seria o seu dia-a-dia, explicar com maior detalhe como é que as pessoas se relacionavam, o próprio passado, a História daquele povo, etc.

Muito sucintamente "A filha dos mundos" estará sempre ligado a um condicional e é a prova viva que nem sempre devemos enviar algo que de futuro até nos poderemos "envergonhar". Erros todos nós cometemos. Não nascemos todos uns Saramagos, mas lá vamos evoluindo com o tempo, vamos crescer, ter novas experiências, que vão reflectir-se no que escrevemos. É um livro que pode apelar as pessoas que só querem ler uma história leve, mas que não satisfará o leitor mais experiente.

2 comments:

  1. Concordo com grande parte do que dizes, pois embora já tenha lido este livro há um ou dois anos, permanece-me na cabeça a ideia que ele precisava ter amadurecido antes de ser publicado.
    Não falo dos outros autores da colecção, porque nunca os li, mas pelo que oiço dizer a Inês tem um grande talento (nunca mais li nada dela) e o problema deve ter sido que foi publicada demasiado cedo.
    Ainda assim acho que, para as crianças e pré-adolescentes, a história não está má, e talvez esse seja o público alvo e não o adulto (se bem que a personagem principal é uma adulta bem grandinha).

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  2. Eu li o livro quando tinha uns 13 anos e na altura adorei! Pode não ser a melhor leitura para adultos, mas é um óptimo convite à leitura para os mais novos!

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