Monday, 16 August 2010

Sobre os livros de bolso portugueses

Quando ligamos a televisão é usual ouvirmos a palavra CRISE mais do que uma vez, por vezes no mesmo segmento de notícia, contudo cada vez que vamos à FNAC, Bertrand ou até à livraria nota que a palavra crise não se faz sentir. Com edições a ultrapassar os 20€ os portugueses quase tanga, se querem ler têm de optar pelas edições de bolso, ou simplesmente riscam das despesas a cultura. As edições de bolso têm vindo a aparecer timidamente na vida dos portugueses, sem muito sucesso. Provavelmente a causa maior será o facto de as edições de bolso serem maioritariamente dedicadas a clássicos, de modo a não haver direitos de autor e em alguns casos nem ser preciso tradutor. Decidi então pegar em quatro editoras e colecções respectivas de bolso e comparar os prós e os contras de cada, para no fim comparar com uma edição inglesa.



A editora que pode-se gabar de possuir mais livros de bolso no mercado é a Europa-América. Com mais de mil títulos publicados em vários géneros, estes livros têm sobrevivido aos tempos, e embora o preço não seja completamente desproporcionado, se tivermos em conta as traduções horríveis, mais do que cinco euros parece um preço elevado. Ainda assim existem livros editados somente pela chancela da Europa-América, que permanecem sem tradução decente.


Uma das minhas colecções de bolso favoritas, a Bis/Leya, pode-se gabar de uma mistura agradável de títulos clássicos e recentes, cujo preço não ultrapassa os 10€. Um facto importante a ter em conta quando pensamos em livros de bolso é barato e fácil de transportar e a colecção de bolso da Bis/ Leya possui essas duas qualidades. O único senão é a escassez de títulos que a colecção ainda dispõe.


A nível de preço a colecção da Biblioteca Editores Independentes será a mais justa. Livros, cujo preço mínimo rondam os 4€ são de facto uma boa oportunidade e terá à sua disposição clássicos com formato semelhante à colecção Bis/Leya. Contudo alguns títulos encontram-se divididos, e se virmos bem acaba por não compensar comprar estes títulos divididos. Ainda assim consegue competir com as publicações da Europa-América a nível de clássicos.


Por último temos a colecção de livros de bolso 11X17, uma colecção fresca, com capas atractivas, títulos recentes tal como Nora Roberts, Anne Bishop, Juliet Marillier e Stephen King. Ideal para quem quer experimentar um autor e não quer arriscar a pagar normalmente 18€, pode pagar só 10€ e poupa dinheiro. A colecção por muito inovadora que seja é a que apresenta mais falhas, primeiro o próprio tamanho é despropositado. O facto de se chamar livro de bolso não implica que o livro tenha de caber no bolso ou na mais pequena carteira. O facto de ter este tamanho só contribui para que os títulos tenham mais páginas que as edições normais, o que torna o livro mais pesado e desconfortável. Os preços chegam aos 12€ por vezes com livros divididos em dois, fazendo com que o leitor tenha de gastar 20€ para ler um livro cuja qualidade devia de ser barata. Podemos ter em conta o livro “Mary, called Madgalene” traduzido para português como “A Paixão de Maria Madalena” de Margaret George.

O livro em inglês poderá ser adquirido por 8€ e tem quase 900 páginas, a colecção 11X17 cortou o livro sendo que a primeira parte tem 544 páginas e a segunda 480. Como cada livro custa 10€ a leitura deste livro ficará por 20€. A pergunta que se coloca é fácil: porquê cortar o livro a meio? Render o peixe? Livros de bolso não servem para fazer render o peixe, mas sim para tornar a leitura acessível a todos. Mesmo com estes contras a colecção de livros 11X17 pode vir a evoluir e a dar que falar.


Para concluir gostaria de apresentar uma pesquisa rápida pela internet com duas situações semelhantes. Muitos livros de bolso são traduções, visto que existem imensos clássicos universais em inglês ou até francês, pensando nisso decidi pegar num grande autor de língua inglesa: William Shakespeare e num grande autor de língua portuguesa Fernando Pessoa e comparar as suas obras em livros de bolso.


Com William Shakespeare não é preciso ser-se muito criativo, basta pegar na sua peça mais conhecida “Romeo and Juliet” e pesquisar os preços nas duas maiores colecções de bolso: Wordsworth e Penguin. Já com Fernando Pessoa escolhi a sua obra “Mensagem” e peguei nas colecções de bolso: 11X17 e Biblioteca Editores Independentes. Os resultados ficam em jeito de conclusão para quem ler isto reflicta nos anos que ainda temos de trabalhar para que a cultura seja mesmo acessível a todos.

Romeo and Juliet
William Shakespeare
Wordsworth Classics: 160 páginas - 2€25
Penguin Classics: 160 páginas - 2€27


















Mensagem
Fernando Pessoa
Colecção 11X17: 100 páginas - 6€06
Colecção Biblioteca Editores Independentes: 96 páginas - 4€04


3 comments:

  1. Relativamente às edições em Inglês, eu acrescentava as pertencentes à Oxford World Classic's. Em muitos dos casos com preços ligeiramente inferiores às versões da Penguin, e com introduções e anotações superiores nalguns dos casos.

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  2. A edição da Oxford que encontrei está a venda por 9€, tem 400 páginas, no entanto as edições Wordsworth também já vêm com algumas introduções razoáveis para o preço. Ao passo que as edições portuguesas nem anotações trazem :(

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  3. Concordo totalmente com o que dizes e por isso é que cada vez menos compro livros em português (com muita pena minha). Mais vale comprar em inglês em que se quiser consigo uma edição de capa dura (mas normalmente compro capa mole que fica ainda mais barato) por muito menos que uma de capa mole aqui em PT.
    Claro que preferia ler em PT, mas o dinheiro não estica.

    Quanto aos livros de bolso, fico pasma em ver alguns que são divididos em dois e se formos a comprar os dois fica mais caro que comprar a edição normal (Julliet Marillier por exemplo). Não cabe na cabeça de ninguém! Mas concordo quando falas nas principais editoras do género. Tenho vários da Europa-América e da Bis-Leya (que além do mais tem uma apresentação linda) e só tenho pena que não apostem noutros géneros para este tipo de edições.

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