Tuesday, 10 August 2010

Sangue-do-coração

Sangue-do-coração (Heart’s Blood)
Juliet Marillier
Tradutor: Maria Teixeira Pinto
Género: Fantasia/ Contos de fadas
Páginas 400
Editora: Bertrand Editores

Há sempre algo de mágico no mundo de Marillier, algo que não sabemos o que é, um segredo guardado a sete chaves, que só a autora possuiu, para nos presentear de vez em quando com livros tão bonitos que mexem connosco. Sangue-do-coração é um livro que para fãs de Marillier não será provavelmente nada de novo, quem lê a sinopse sabe muito bem como irá acabar a história, tal e qual como um conto de fadas. Sabemos a história de cor, mas isso não evita que relemos a mesma velha história, Coração-do-sangue faz parte desse grupo restricto de histórias que apesar de sabermos como acaba queremos ler mais, queremos saber como a história desenvolve, o importante não é o fim, mas sim o que se passa entretanto. Existe em alguns livros de Marillier, e Sangue-do-coração é um deles, um paralelismo estranho com Hemingway. Ambos conseguem atirar o leitor para situações de desespero, quando pensamos que tudo irá acabar mal, Marillier consegue resuscitar o leitor através da esperança, contudo Hemingway simplesmente deixa o leitor estatelado no chão esmagado e aniquilado através da realidade. O mundo de Marillier está repleto de esperança, de luta e de força interior, as relações pessoais são desenvolvidas ao extremo até o leitor se deixar entrelaçar na sua teia de palavras e jogos mentais. Marillier escusa de desenvolver as personagens, o leitor sem se dar conta é levado pelas inseguranças e pelos pensamentos, pelo que não é dito, mas pensado, pelo que as personagens nem sequer pensam, mas o leitor adivinha o futuro, o leitor sabe o que as personagens vão fazer, mesmo antes de elas o saberem. Se um livro de Juliet Marillier tivesse o mesmo fim que um livro de Hemingway, o comum dos leitores não iria gostar de ler os seus livros. A realidade é dura, mas a fantasia faz-nos sonhar. Caitrin é uma mulher escriba, uma mulher intelectual, que sofre de o que hoje em dia chamaríamos de “violência doméstica” e que consegue fugir e encontrar refúgio nos braços de um Chefe Tribal aleijado e amaldiçoado. Enquanto encontramos paralelismos com o conto “Bela e o Monstro”, encontramos também alguns com a obra “Jane Eyre”. Anluan é um homem aleijado que precisa de apoio dos seus amigos, mas também de uma mulher que o entenda e lhe dê forças, elevando-o à figura de Rochester, um homem que fica cego e dependente da mulher. Ao contrário da vida que levava em sua casa, Caitrin consegue ser útil e aprende a completar o lado vazio de Anluan. Juliet Marillier consegue estabelecer um nível intermédio nas relações entre homens e mulheres, sem esquecer o lugar da mulher na sociedade, mas também sem exagerar nas críticas aos homens (que Marion Zimmer Bradley cultivava). Coração-do-sangue é um livro para ler depressa, incansavelmente, sempre com o coração nas mãos, à espera de um desfecho típico dos contos de fadas.

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