Monday, 19 July 2010

a máquina de fazer espanhóis

a máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe
páginas: 287
editora: objectiva
data: fevereiro 2010
preço: 17€



valter hugo mãe dedica este pedaço genial de literatura ao seu pai, que segundo notas do autor não viveu o suficiente para descobrir a terceira idade. logo no inicio somos transportados para o hospital onde o senhor silva visita a sua querida esposa laura que acaba por morrer. o senhor antónio silva, de oitenta e quatro anos é levado para o lar feliz onde conhece o senhor esteves, o homem que inspirou o poeta fernando pessoa a escrever a “tabacaria” e que todo ele era feito de metafísica, o senhor pereira e o senhor silva da europa e o senhor anísio. apesar de amuado e magoado com a família por o ter jogado naquela lar que é sinónimo de morte, o leitor descobre uma personagem fascinante, desbocada, cheia de defeitos, mas que nos ensina bastante sobre a vida na terceira idade. “como é que tu achas que se convence um velho como eu do valor da vida depois da morte da tua mãe. como achas que se justifica a vida para alguém depois dos oitenta anos quando perde a mulher que amou e quem partilhou tudo durante meio século.” (171) fascinou-me a descrição maravilhosa do resto de vida cheia de peripécias de um bando de velhinhos num lar, que ao contrário do que muitas pessoas pensam ainda têm muito para dar ao mundo. a morte adquire um lugar especial no pensamento quando estamos não só perto dela, mas também quando ela nos rodeia, por exemplo através dos sonhos dos abutres que entram no quarto e debicam o senhor silva. este sonho constante serve para aproximar a personagem de uma humanidade maior. O senhor silva tem medo da morte e tem um coração de ouro (através das cartas à dona marta) e também é um ateu malcriado e bastante cómico, o que ajuda o leitor a aproximar-se e simpatizar com a personagem e com o resto dos senhores e senhoras.

A escrita de valter hugo mãe é simples, eficiente e ajusta-se bem à história. Relembra um pouco Saramago quanto ao desrespeito pela gramática e em especial das maiúsculas, mas penso que nada disso contribui para alguma estranheza por parte do leitor. Se alguém critica esta “diferença” por parte do autor é simplesmente algo mesquinho, pois a beleza da escrita também se deve às diferenças e às inovações.

Foi dos melhores livros que li este ano e espero ler mais coisas dele.

2 comments:

  1. Também concordo, foi o melhor livro que li este ano. A história é de uma beleza extrema, mas o autor não fica por aqui, também fala da nossa história recente e além disso critica a nossa sociedade contemporânea. (confesso que por vezes julgava quem estava a ler Saramago)

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  2. Tenho este livro de que gostei imenso, pelo que fiquei muito satisfeita pelo prémio que lhe foi atríbuido.

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