Thursday, 1 July 2010

Contos de Fábio Ventura

Fábio Miguel Ventura nasceu em Portimão a 24 de Julho de 1986, tendo completado a licenciatura em Comunicação Social e estagiado no canal de televisão português Sic. Orbias é o seu primeiro livro publicado pela Casa das Letras em Setembro de 2009, e o segundo volume irá ser publicado a Setembro deste ano. Por entre as várias inspirações constam o anime japonês como Sailor Moon, os videojogos como a saga de Hironobu Sakagushi Final Fantasy, no campo das letras destaca-se a influência de escritores como Stephanie Meyer, Scott Westerfeld, Neil Gaiman e Cassandra Clare. Convém salientar que nunca li o livro, mesmo assim os contos complementam a sua função com poucas noções da narrativa principal e servem para analisar a escrita e a criatividade do autor (e não do livro).

Os contos apresentam algumas oscilações, sendo o primeiro conto escrito em Maio deste ano e o último no mês passado, contudo o conto de Lily-Violet e do Rouge parecem interligados devido ao estilo "Märchen" que o autor adoptou. O orfanato, o clima fantasioso e a lição moral no fim do conto de Rouge parecem querer atingir um público de todas as idades. Através da acção e dos nomes conseguimos aproximarmo-nos das personagens: Lily-Violet símbolo da inocência e da harmonia parece-se com uma "Selphie", sempre alegre absorvendo as tristezas do passado; Rouge parece ter de acordo com a cor do seu cabelo um temperamento bastante tempestuoso e também parece um pouco mimada e inconsciente, Belladonna a personagem que achei mais equilibrada, ponderada e até mesmo auto-crítica e Lorelei foi a desilusão.

Os contos parecem ter em vista vários tipos de público-alvo, desde a adolescente mais "pop" ao leitor que está à espera de algo mais do que uma cara bonita a ir às compras de roupa. No conto de Rouge o autor parece condenar essa personalidade superficial, obrigando a Guerreira a aprender com os seus erros, lição esta que é de imediato apreendida pela Guerreira. Contudo o conto de Lorelei era o que tinha mais curiosidade e o que me desiludiu. O autor cai em alguns estereótipos: menina bonita + namorado gótico (emo?) = oh não amigas sem cérebro contra. A personagem de Adam é afastada pela própria Lorelei que rouba o protagonismo. O casal não parece ter nenhuma ligação emocional e perguntamos porque razão é que eles estão juntos quando ele mal fala ou não têm nada a ver um com o outro. Por um lado é positivo: nem todas as relações sobrevivem, por outro lado parece-me tudo mal de amores, já que Noemi também ficou sem o Sebastian.

Belladonna, como já referi foi a que me interessou mais. Imaginei-a de roupas interiores no cabaret e uma espécie de prostituta ou acompanhante, boémia e dandi. Fémme fatale, sedutora, perigosa que sabe usar o poder que tem. O facto de ter falhado na sua missão também revela uma maior maturidade da narrativa. Nem sempre se vence neste mundo e nem tudo é perfeito. O autor revela criatividade nos diferentes cenários, embora algumas cenas fossem previsíveis e caindo por vezes em estereótipos desnecessários: a Rouge e a Lorelei parecem ter 16 anos e por vezes caem como malcriadas e o Adam parece-me mais emo que gótico: sim ficariam surpreendidos ao ver o quão sociais os góticos são. A história de Rouge (orfã de mãe) também me parece algo estereotipado.

A escrita também revela algumas oscilações entre o "purple-prose" e o juvenil, por vezes roçando um pouco no imaturo:

"Tinha o biquíni perfeito para aquelas férias, o último modelo de Marc Jacob."

(ps: não sei quem é o Marc Jacob... mas deve ser alguém famoso pelos vistos). O estilo do conto de Lorelei lembrou-me um pouco o estilo da P. C. Cast com o de Toney Hurley, se calhar de forma inconsciente para o autor. Existem também passos engraçados que se calhar o autor poderá aproveitar como no conto da Rouge:

"…
…chão frio.
…muito pó e dores de cabeça."

Pareceu uma breve tentativa de "stream of consciouness" para desenjoar tantos queques e atitudes mimadas da princesa, mas que me fizeram sorrir por um bocado.

Em suma os contos serviram para aproximar um pouco da escrita do Fábio Ventura para analisar se valeria a pena comprar o livro, visto que muitas vezes a sinopse não é suficiente. Pessoalmente só o conto da Belladonna se aproximou do adulto, de resto pareceu-me prosa para adolescentes, sem tom pejorativo, o autor ainda terá muito tempo para aperfeiçoar a escrita e afinar algumas coisas - para isso é que servem as reviews.


Link para os contos:


1 comment:

  1. Achei a sua opinião muito completa e objectiva. Revela um análise muito atenta dos contos... uma verdadeira crítica!

    Queria convidá-la a visitar o nosso Fórum de Leitores em www.forumleitores.pt.vu
    Penso que irá gostar e adoraríamos se decidisse participar no fórum.

    Votos de sucesso com o seu blog ;)

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