Friday, 4 June 2010

Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem

Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem
Egyd Gstättner
Original: Februarreise an den Tejo
Editora: Granito Editores
Páginas: 108
Preço: 9€98
Tradutor: Mário Matos



“Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem” pode ser usado como contraste entre Koeppen e Annemarie Schwarzenbach (os três são autores de livros de viagens), ambos com características singulares, que poderá ajudar o leitor mais distraído a arranjar o seu tipo de livro. Gstättner apresenta uma narrativa bem-humorada com Lisboa como pano de fundo da sua viagem, mas também de um encontro meramente hipotético entre o nosso grande poeta Fernando Pessoa e o escritor Italo Svevo. O que interessa a Gstättner não será transpor a sua vida pessoal, nem descrever as paisagens, somente realizar uma viagem para conhecer a cidade onde este grande homem de nome Fernando Pessoa viveu. Tal como acontece mais na literatura de viagens com Koeppen do que em Schwarzenbach existem várias marcas de (inter)textualidade que o leitor se diverte a encontrar e descobrir novos possíveis autores. O livro é relativamente pequeno, fácil de transportar e não apresenta grandes dificuldades de interpretação. Não é um guia de viagens como Koeppen, antes consegue transpor dentro de uma viagem, outra ficcional, mas que nem por isso perde a beleza. Não é recomendado, no entanto, que o leitor dê inicio à leitura deste belo texto quando estiver a fazer uma viagem de avião. É que o viajante parece logo desde o inicio ter um medo terrível de voar e procura calcular as catástrofes possíveis que podem acontecer num avião. “Admito contudo que na História da viação já se tenham despenhado mais textos do que aviões.” Pensa também por que razão não haverá uma 13º fila, no fundo deverá haver um bom motivo, não vá o diabo tecê-las e algum azar acontecer. Mais à frente no 3º capítulo o viajante poético brinca com a ambiguidade da linguagem, troçando o nome do capitão Leicher (em alemão Leiche significa “cadáver”) que afirma “There is point of no return” provocando gargalhadas aos leitores mais malicioso que gosta de se rir com a possível desgraça alheia (em que me incluo). O viajante pesa ambas personagens contrastando ambas as vidas e comparando as obras. Bernardo Soares e Alfonso Nitti foram ambos guarda-livros niilistas (pessoas que dizem “não”) que o narrador opõe às pessoas que dizem sempre “sim”. Enquanto o “não” é uma palavra bonita que se contrapõe ao mundo, o “sim” é algo insignificante. Veremos que este narrador é um pouco do contra, quando também menciona a sua simpatia pelo clube de futebol português “Belenenses” por este não estar sempre a ganhar. Pessoa e Svevo têm muito em comum: ambos foram maioritariamente escritores anónimos que pagaram do seu próprio bolso os livros, sem qualquer importância para o panorama literário da época. Contudo Svevo consegue atingir alguma popularidade quase no fim de vida através do escritor James Joyce que foi seu professor de inglês. Em contrapartida Pessoa permanece um estranho. Um dos capítulos mais engraçados do livro será o 7º em que o viajante imagina as aulas de inglês de Svevo e a sua relação com o cigarro. “My wife is called Livia. She is very beautiful. I love her. (…) Livia doesn’t want me to smoke. She says, if I don’t stop smoking, some day she will burn down our wedding certificate. I guess, this is a joke.” (37) O cigarro é um elemento essencial à criação e produção literária, sugamos o filtro como a cada passa sugamos a própria vida ou como se estivéssemos a consumir aquilo que não temos. O tabaco alimenta o vício, mas também a alma já que o corpo vai ficando pior. O cigarro pode também ser um símbolo de uma proximidade ou estabelecer uma relação pessoal (quando se partilha um) já que pode constituir um elemento de proximidade (quando duas pessoas fumam). Svevo (fictício) admite que fuma, porque não pode consumir todas as mulheres que quer: “Fumo porque não posso ter todas as mulheres que desejo. Fumo porque nem sequer tenho a maioria das mulheres que gostaria de ter. Fumo porque já não tenho as mulheres que tive e ainda não conheço as mulheres que terei, caso ainda venha a tê-las. Tudo isto são verdadeiras catástrofes, e é por isso que fumo.” (62) Os diálogos entre Pessoa e Svevo atravessam frequentemente a barreira entre o verosímil e o espalhafatoso, com muitos pensamentos, filosofias e guias turísticos à mistura.
Sei o que estão a pensar... será este um livro de viagens ou não? E se é, porque raios ainda não falei da viagem em si? Basicamente em “Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem” sem Pessoa não haveria viagem e sempre que o narrador verifica os sítios em Lisboa, dá vontade de saltar, não porque as descrições são más, mas porque a narrativa sem Pessoa parece incompleta. Aliás o próprio narrador segue um guia turístico que o próprio poeta escreveu sobre a cidade de Lisboa.
Para concluir gostaria de referir ainda que o livro foi uma pequena pérola que tive o prazer de ler e que despertou a minha curiosidade sobre este autor austríaco. Uma nota ainda muito positiva ao tradutor e coordenador Mário Matos: não só pela excelente tradução do título (na minha opinião melhor que o original), mas também pelas notas de rodapé que são um auxilio importante ao leitor mais desleixado.

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