Thursday, 6 May 2010

Observações

The Observations
(Observações)
Jane Harris
Editora: Presença
Páginas: 448
Preço: 18,07€




Após várias leituras de livros clássicos, decidi começar a ler livros de autores mais recentes, entre eles: Neil Gaiman, Sarah Waters, Juliet Marillier e como foi lançada recentemente a tradução de “The Observations” para português, decidi aproveitar a promoção da FNAC e comprei dois livros recentes e um clássico. Os meus hábitos de leitura têm sido dos mais variados, alternando sempre que posso entre clássicos e “light”. Terminada a leitura de “Interview with a vampire” julguei que fosse boa ideia ler algo mais histórico com uma personagem feminina.“The Observations” foi uma surpresa agradável em todos os níveis: literário, linguista e simbólico.

Jane Harris consegue cativar o leitor com a sua protagonista cínica, sem papas na língua e com um discurso bastante coloquial. De um “background” pobre com uma mãe alcoólica e após a morte do seu Mr. Levy, Bessy (cujo nome verdadeiro é Daisy) decide procurar emprego noutro lado e aterra em Castle Haivers para ajudar a “missus” com um porco. Sem sítio para onde ir, é-lhe oferecido um trabalho como uma empregada faz-tudo. Bessy tem de cuidar da quinta, ler para o master James, escrever um diário onde relata o seu dia-a-dia e ainda servir de cobaia às experiências de Arabella, a sua patroa. Estas experiências levam a que Bessy pense que de facto Arabella não está no seu estado mental normal. A descoberta do livro “The Observations” por Arabella Reid despertará um plano de vingança delicioso, psicopata e bastante bem humorada, com um fantasma inexistente e várias partidas pregadas por Bessy que levam a um resultado maravilhoso.


“The Observations” aborda vários temas como identidade, algumas implicações lésbicas, o papel na mulher na sociedade vitoriana sendo o próprio diário um símbolo desse papel. Arabella esconde o diário com medo de ser alvo de chacota do marido. O único papel que lhe é destinado na sociedade será o de acompanhante do marido, como troféu de beleza e bondade. Quando Arabella perde o juízo já não faz parte deste mundo, o seu internato no Hospício dá-lhe liberdade de escrever as suas novas observações. A loucura pode ser encarada como uma metáfora para a liberdade, só nos Hospício é que a mulher pode ser livre de fazer o que quiser, sem ser reprovada. Podemos colocar também a verdadeira questão: será Arabella de facto louca? Ou a sua loucura fora, como em “Jane Eyre”, provocada pelo marido? Arabella é uma nova Bertha Mason, uma mulher bela que tem o azar de casar com um marido desinteressante. James Reid apercebe-se do seu erro quando é forçado a internar a sua mulher; mas Rochester precisa de ficar cego para fazer Jane Eyre feliz. Em “The Observations” Bessy não se apaixona pelo seu senhor, mas mantêm-se leal à sua senhora e fica com ela no Hospício a trabalhar. Ambas ultrapassam o seu “gender” e a moral da sociedade para ficarem juntas como uma irmandade entre as mulheres, longe dos homens.

Existem várias expressões características do período que traduzidas para português perdem metade do valor linguístico do livro. Portanto aconselho a lerem o original (existem muitas expressões que eu não conhecia, mas nem por isso afectam a leitura do livro). Se o leitor observar bem verá que também a escrita de Bessy desenvolve. Desde a primeira entrada do diário até ao livro em geral, a sua gramática, pontuação evoluem, passando de uma prosa despida, para um romance bem estruturado.
O único aspecto menos bom que posso apontar será a repetição de algumas cenas para o leitor não se perder. Apesar das intenções boas, senti que eram páginas desperdiçadas.

“The Observations” pode ser encarado como uma nova “Jane Eyre” com mais humor, a mesma dose de características góticas (o fantasma de Nora, Castle Haivers e a própria loucura de Arabella) e com uma protagonista menos insossa.

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