Friday, 31 December 2010

Os melhores livros lidos em 2010

Chegamos mesmo ao fim do ano, no total li 61 livros - muitos em inglês e alguns em português (salve-se o alemão em raras excepções) por isso neste top 10 muitos livros bons foram deixados de lado.

#10 The Observations - Jane Harris (2009)
- Pela surpresa que foi descobrir esta nova autora;
- Por ser um livro com temas feministas bons;
- Pelo humor usado e excelente prosa;
(traduzido para português como "Observações" pela editora Presença)

#9 Wildwood dancing- Juliet Marillier (2007)
- Pela maravilhosa forma como Marillier usa a comunicação não-verbal;
- Pela forma original com que a figura dos vampiros foi usada;
(traduzido para português como "Danças na Floresta" pela Bertrand Editora)

#8 The left hand of darkness - Ursula Le Guin (1969)
- Pela grande coragem na desconstrução do "gender";
- Por abordar temas controversos de forma inteligente;
(traduzido para português como "A mão esquerda das trevas" pela editora Presença)

#7 Wide Sargasso Sea - Jean Rhys (1966)
- Pela personagem Antoinette (muito mais que uma personagem);
- Pelos temas feministas e não só (identidade, racismo);
(traduzido para português como "Vasto mar de Sargassos" pela Bertrand Editora)

#6 Memorial do Convento - José Saramago (1982)
- Por mostrar que o povo sempre foi "quem mais ordena";
- Por trazer para Portugal - não só com este livro - um grande orgulho para a literatura portuguesa
(publicado pela Caminho)

#5 Mists of Avalon - Marion Zimmer Bradley (1979)
- Pela audácia de publicar nos anos 70/80 uma das melhores sagas;
- Pelas críticas feitas à Igreja e às mulheres submissas;
- Pelas posições tomadas pela personagem Morgaine face a temas como o destino e o aborto;
(traduzido para português como "As brumas de Avalon" pela editora DIFEL)

#4 A máquina de fazer espanhóis - valter hugo mãe (2010)
- Por criar uma terceira idade maravilhosa e real;
(publicado pela Objectiva)

#3 Der Vorleser - Bernhard Schlink (1995)
- Devido ao tema da culpa e do holocausto;
- Por ser um romance tão polivalente;
- Por ser uma obra intemporal;
(traduzido para português como "O leitor" pelas ediçoes ASA)

#2 The Bloody Chamber - Angela Carter (1979)
- Por ser uma inspiração a nível feminista para tantas escritoras;
- Por encerrar na sua obra décadas de luta das mulheres;
(não está traduzido para português)

#1 Avalon - Anya Seton (1965)
- Por combinar um romance viking com a Idade Média;
- Por ser uma das melhores escritoras de romance histórico e ainda não ter uma única edição em português (tinha de vir a facada);
(não está traduzido para português)

Menção honrosa: Februarreise an den Tejo de Egyd Gstättner
(traduzido para português como "Viagem ao Tejo com Pessoa na Bagagem" pela editora Granito)

Um bom 2011 para todos e boas leituras

Thursday, 30 December 2010

Os melhores livros para serem lidos em 2011 - lançados em 2010

2010 foi um ano em grande, entre crises económicas, FMIs e Festivais para alegrar a malta das tristezas, não tão em alta esteve o ano a nível de literatura. Quando pesquisei livros lançados em Portugal em 2010 raros foram os que saltam à vista, a maior parte são traduções de livros e quando são de portugueses (de Portugal) os preços são de fugir. Contudo preços à parte elaborei uma lista dos melhores livros lançados cá dentro e lá fora, que valeram certamente a pena ler em 2011.

#10: Aphrodite's Hat de Salley Vickers




Aphrodite's Hat foi lançado em fins de Outubro e pela sinopse a coisa promete. Uma colectânea de várias histórias de amor para todos os gostos. Para quem prefere histórias com humor ou histórias de amor tristes, Aphrodite's hat parece se a aposta ideal.
(Sem data de lançamento em Portugal)









#9 Rainhas Medievais de Portugal de Ana Rodrigues Oliveira




Este ano foi muito generoso para com os Historiadores. A editora Esfera do Caos publicou diversos livros de História e considero este o mais curioso. Embora o preço não seja em nada apelativo, para quem goste de descobrir mais sobre as nossas rainhas e do papel importante que a mulher muitas vezes desempenhou. Por vezes aprendemos mais nestes livros no que nas aulas de História.

PvP de 30€







#8 Kraken de China Miéville




Mieville já mostrou que sabe o que quer quando escreveu Perdido Street Station e The City and The City. Esperemos que o Kraken esteja à altura. Para quem gosta de fantasia e de algo diferente a mais recente obra de Mieville é um livro a devorar.








#7 Mataram o Sidónio! de Francisco Moita Flores



É mentira quando dizem que Portugal não tem policiais decentes, ou se calhar até é verdade... Que os portugueses gostam pouco de escrever mistérios é verdade, mas "Mataram o Sidónio" foi um dos lançamentos de 2010. Retomando uma temática da história de Portugal, Moita Flores consegue bem retratar a época com uma escrita simples e eficiente. Já podem largar os calhamaços do Larsson e divertirem-se com CSI's portugueses.








#6 Room de Emma Donoghue




Room foi lançado em Agosto, mas só à um mês tive conhecimento desta obra. A sinopse é suficiente para sabermos que queremos ler este livro asap.

Sinopse em inglês:

It's Jack's birthday, and he's excited about turning five. Jack lives with his Ma in Room, which has a locked door and a skylight, and measures 11 feet by 11 feet. He loves watching TV, and the cartoon characters he calls friends, but he knows that nothing he sees on screen is truly real - only him, Ma and the things in Room. Until the day Ma admits that there's a world outside...




#5 O romance da Bíblia de Deana Barroqueiro




O novo livro de Deana Barroqueiro vem provar que as vozes feministas em Portugal ainda tem muito para se fazer ouvir. Com grandes elogios por parte de Teresa Horta só posso esperar o melhor deste livro.

PvP de 18€90










#4 A máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe




O livro que fez-me pensar como vai ser quando chegar à Terceira Idade e de como os idosos se devem sentir quando são abandonados pela família nos lares. Um livro tocante e magistral. Se o valter hugo mãe daqui a uns anos não ganhar o nobel - está mal.











#3 The Bards of Bone Plain de Patricia A.McKillip





Vencedora de um World Phantasy Award a capa emana Juliet Marillier por todos os poros e como devemos às vezes julgar um livro pela capa, a minha primeira acção maluca de 2011 será comprar The Bards pf Bone Plain (esperemos que tenha só acções ponderadas, pois a pilha de livros para ler não pára de crescer).
(sem data de lançamento em português)







#2 Angela Carter's Book of Wayward Girls and wicked women de Angela Carter




O livro foi lançado em inícios de Dezembro e caiu como uma bomba, não só o título é "Godlike" como aparenta ser tudo o que eu gosto "wicked women" e adivinho uns comportamentos "naughty" para acompanhar. Para quem cansou de ser boa menina, Angela Carter's Book f Wayward girls and wicked women parece ser um bom guia.

(sem data de lançamento em português)







#1 Novas cartas portuguesas de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreto e Maria Velho da Costa




Esta nova edição das novas cartas portuguesas merece ser o melhor lançamento a nível mundial. Depois do escândalo da primeira edição ainda na ditadura, a nova edição prova que as mentalidades conseguem mudar apesar do grande espaço temporal necessário. Graças ao trabalho e esforço por parte de Ana Luísa Amaral, os portugueses e o mundo podem adquirir uma edição esquecida à muito , mas que prova que os portugueses conseguem ser vanguardistas.

Friday, 24 December 2010

Friday, 17 December 2010

Friday, 10 December 2010

Sugestões de Natal II


Este natal não ofereça:
- Livros demasiado "light": do estilo Nicholas Sparks e Margarida Rebelo Pinto. Jogue pelo seguro, existem muitas pessoas que detestam esse tipo de autores;

- Livros cortados a meio: não ofereça livros como "O mago" em que força a pessoa que recebe o livro a ir comprar o segundo para acabar de ler uma história.

- Sequelas: O pior que se pode fazer é dar um livro estilo George R. R. Martin em que se gostar a pessoa terá de gastar pelo menos 100€ ao todo. Ofereça livros que funcionem sozinhos.

Tenha em mente que:

- Nem todos os livros são caros: Existem ainda muitos livros com um preço igual ou inferior a 15€ - aposte nos livros de bolso se souber que essa pessoa anda de transportes.

- Ofereça livros estrangeiros: Se souber que a sua sobrinha/irmã etc. está a aprender inglês existe na secção da FNAC e outras livros para adultos e crianças em inglês. Escolha um com poucas páginas e acaba também por poupar algum dinheiro e estimular a linguagem estrangeira.


Sunday, 5 December 2010

Bela lugosi is brain dead is certainly brain dead

Engraçado como algumas frases fora do contexto parecem bastante engraçadas e às vezes até idiotas, the key my friends lies inside the context. Muito sinceramente começo a achar que o bela lugosi is brain dead está mesmo ele próprio brain dead. De facto começo a achar que tenho de tratar os meus leitores como burros e explicar TUDO! Ora bem vejamos:

O contorcionismo
"Com o meu exemplar debaixo do braço dei uma vista de olhos pela revista […]"

Very funny, indeed... lido à letra... mas na verdade o meu post dizia:

Com o meu exemplar debaixo do braço dei uma vista de olhos pela revista no comboio de regresso ao Porto.



Não sei se o sr. ou sra. do BLIBD está com dificuldades na leituras, mas eu passo a explicar. Para ler uma revista é preciso PEGAR nela e depois sim SENTO-ME no comboio e aí sim LEIO com os olhinhos a dita cuja. Se ninguém entendeu este processo por demais complexo, peço desculpas se não fui bastante explícita quando quis mencionar que li a revista NO COMBOIO, SENTADA, COM OS OLHOS E NÃO COM AS MÃOS.

Adiante:

seu currículo preenchido influenciou certamente a minha leitura, que manteve-se neutra.
De facto o senhor Mancelos tem um currículo invejável, mas apesar de tentar ALIAR o seu currículo ao conto que escreveu, no fim não consegui SIMPATIZAR com o conto. Apesar dos seus estudos superiores pudessem ser uma BOA INFLUÊNCIA, no fim a minha opinião manteve-se neutra OU SEJA nem aqueceu, nem arrefeceu.

Se o sr. ou sra. do BLIBD não sabe ler, temos a "real pena", agora fazer os outros de burros santa paciência, por isso aconselho umas feriazinhas no Hawai, com muitos banhos de sol e longe do computador e de blogs, que isto da Internet está a afectar-lhe o cérebro.

Peço imensa desculpa aos leitores deste blog, pelo momento "snap", mas penso que ninguém gosta quando "gozam" com a nossa cara. Que o blog tenha razão às vezes nas calinadas que mete, tem sim, mas honestly existem outras que não são calinadas, apenas estão fora de contexto. Querem arranjar uma pessoa ou blog para perseguir, do it somewhere else. Gozar quando não têm motivo para tal, só significa que a pessoa ou não tem vida.

Sei que este blog nunca beija "o traseiro" às editoras portuguesas, ou aos autores, como muitos outros. Se digo mal de algum livro ou autor, estou-me a marimbar se é da Caminho ou da Gailivro. Não tenho problemas nenhuns em criticar de uma forma negativa os livros. Este blog mantêm-se afastado de polémicas, discussões e nomes. Se isso incomoda algumas pessoas a ponto de criticarem o que está correcto - temos pena.


Saturday, 4 December 2010

So long brainless zombies!

Boneshaker (1)
Cherie Priest
Editora: Tor books
Páginas: 416
Género: Steampunk

Sinopse: Seattle - século XIX, Leviticus Blue é contratado pelos russos para criar uma máquina de quebrar gelo para desenterrar ouro, assim nasce o Boneshaker, mas algo corre mal. Quando o Boneshaker emerge das profundidades lança um gás, que quando inalado começa a consumir aos bocados partes do corpo, com isso nasce os “rotters”. Passados quinze anos a viúva de Blue, Briar, vive em dificuldades com o seu filho Zeke. O facto de ser a viúva de Blue não ajuda em nada a sua fama e com uma guerra civil, as coisas tornam-se ainda mais difíceis, mas Zeke está decidido a voltar para Seattle e mostrar que o seu pai foi na verdade um herói. Com uma máscara de gás, mapas e uma pistola, Zeke parte para dentro das muralhas onde o gás - blight - se espalha e onde os “rotters” povoam o que resta da cidade. Cabe a Briar partir em busca do seu filho para que ambos saiam vivos da cidade.

Ainda não editado em Portugal, Boneshaker é um livro que promete. Nomeado para um Nebula e um Hugo Award prova que steampunk é um género que tem força suficiente para emergir das sombras para assumir identidade própria num país onde a proliferação do próprio género em que o steampunk está envolvido ainda é nula. As vozes queixam-se que em Portugal, a FC está em coma, contudo também existem faltas de incentivos. Scott Westerfeld já tem uma vasta obra publicada, contudo Boneshaker nem sequer data tem.

A demanda de uma mãe em busca do filho, misturado com zombies e uma Seattle “underground” tecnologicamente avançada constituem os encantos deste primeiro livro da série. Briar carrega o peso de um filho adolescente e de um destino que não foi ela que começou e apesar das personagens não terem uma caracterização directa, através da evolução da história, notamos que Briar fica na mesma. Inicia a sua demanda como uma mãe protectora e cumpre a sua função até ao fim. É Zeke, quem maioritariamente sofre a evolução. Parte como um jovem rebelde com uma intuição para o perigo, para no fim regressar já sabedor de toda a história em torno do Boneshaker e de seu pai. Sublinho também o jeito de Priest para criar uma sociedade nova quase mergulhada na anarquia, onde reina a sobrevivência dos mais fortes. Não pensem que todos os habitantes fugiram da cidade, tal como os gauleses muitos mantiveram-se quase indestrutível e lutam diariamente pela sobrevivência, contando apenas com a blight para fazer "sap". Para melhorar a vida de Briar e dos habitantes de Seattle, os "rotters" são velozes e transformam-se cada vez mais rápido e quando aliciados podem até subir escadas. Os canais e o ambiente claustrofóbico que as máscaras de gás provocam, aumentam a velocidade da narrativa, culminando com um fim aberto, que deixa um sabor agridoce no leitor.

Um bom livro para se iniciar no subgénero de Steampunk ao contrário do “Leviathan” do Westerfeld, onde a prosa é claramente dirigida a crianças, mesmo assim pode não ser para todos, nem para aqueles mais exigente e experientes na área do Steampunk. O segundo livro da série já se encontra disponível.

Tuesday, 30 November 2010

Sugestões de Natal I

Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 200
Editor: Editorial Presença
ISBN: 9789722342117
Colecção: Obras de Florbela Espanca
Preço: 12€11











Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 256
Editor: Livros Quetzal
ISBN: 9789725648223
Colecção: Série Língua Comum / José Luís Peixoto
Preço: 18€17













Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 152
Editor: 11 X 17
ISBN: 9789722521949
Preço: 6€06
















A história apaixonante da Rainha Santa Isabel, pela autora de "Afonso, o Conquistador"
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 400
Editor: 11 X 17
ISBN: 9789896371609
Preço: 10€09

Saturday, 27 November 2010

Nanowrimo day #4


Durante o mês tive bem mais trabalho do que o esperado :( Infelizmente e apesar de tudo ter corrido bem ao início, com a vinda de testes, apresentações e trabalhos para entregar desleixei-me tanto nas leituras, como na escrita. "Helgi e Herzeloyde" vai ainda a meio, mas hoje meto mãos à obra e penso chegar pelo menos ao climax da problemática do conto, depois é só enviar aos amigos para verem os prós e os contras e o que alterar... Escrever um conto tem muito que se lhe diga, bem sei que não se aproxima de um romance daqueles grandes, mesmo assim pode ter o mesmo efeito. Pelo que tenho lido nas Internets e por esses blogs fora, muitos leitores queixam-se que quando lêm alguns contos ficam sempre à espera de mais, o que piora ainda a tarefa. Como escrever algo que nos satisfaça, mas que também não deixe as pessoas a pedir por mais.

Quando reli os bocados que já tinha escrito para recontar as palavras, surgiram várias perguntas: será que esta parte está bem aqui? Será que as cenas de sexo estão demasiado seguidas? Conseguirão os leitores entender a personalidade de Helgi, ou vão achá-lo apagado? Se acharem, como vou mudar isso... por fim como não se agrada a gregos e troianos temos (escritores/ autores) que contar com a possibilidade destes quererem mudanças antes do conto definitivo ficar pronto. Até agora só recusei uma modificação no conto "Prisão de Gelo", onde me pediram para eu retirar a última parte.

Por isso posso dizer que cumpri bem os objectivos que tive para o Nano, ainda que nem sempre disponível para escrever freneticamente, a minha cabeça esteve sempre a pensar novas formas de evoluir e desenvolver a história.

Por vezes ao escrever as histórias e quando chego esgotada a casa das aulas e das explicações penso muito rapidamente em desistir do mestrado de ensino e correr para o mestrado de Estudos Feministas e estudar a fundo o que em casa estudo ao leve, mas depois penso na experiência que já acumulei num só semestre. Ao outro dia lá vou eu à minha vida outra vez com mais de 4 livros dentro da mochila e dezenas de .pdfs para ler no computador.

Thursday, 25 November 2010

Sexualmente explícito

Blood red
Vivi Anna
(Versão ebook)

Escolher um livro pode ser equiparado a escolher uma peça de roupa, olhamos, experimentamos, vemos se fica bem ou se volta para o cabide. Infelizmente devido à pequenez do mercado literário português muitos são os livros, que não podemos escolher e experimentar antes de comprar. Com uma crescente vontade de ler alguns “trashy” romantic novels escolhi um ebook da Vivi Anna para ter na lista dos livros a ler por pura curiosidade. Não tive de esperar para o livro chegar a casa e posso pegar nele em qualquer sítio. Já estive mais longe de estar tentada a comprar um “Kindle”, embora os preços não me agradem nem antes, nem depois das promoções.

Blood red narra a vingança do Capuchinho Vermelho (Blood red) agora já adulta, contra o Lobo mau (Wolf) devido à morte da sua avó. Após anos de treino e de se tornar numa máquina assassina e rancorosa, Blood Red vê a sua oportunidade chegar numa noite. Mas algo corre mal... Sensual, sexualmente explícito e com uma versão twisted dos irmãos Grimm, a prosa de Vivi Anna peca pela pouca mestria na escolha das palavras, que muitas vezes tendem a repetir-se de forma desnecessária e pela rápida sucessão de eventos. No geral é um mau livro para classificar mesmo a nível de palavras. Todo o livro está dependente do leitor e parece-me que os de Vivi Anna estão ainda mais dependentes. Engane-se quem pega no livro a pensar que vai ter uma Angela Carter a seu dispor, ou mesmo uma Anne Rice com a “Sleeping Beauty”, contudo e a nível de estudo de género, “Blood Red” tem os seus momentos altos. O corpo físico de Red é livre e ela usa-o como lhe apetece, não tem medo de dormir com um desconhecido, nem mesmo de prover prazer ou beijar mulheres. Se no fim, a prosa de Vivi Anna será simplesmente “cheap” ou no fundo poderá ser visto à luz de alguns estudos, terá de ser deixado para futuras leituras dos livros da mesma. Para já garanto que encontrarão um pouco de tudo: violência, ménages, sexo oral e uma “tentativa” de violação.

Sunday, 7 November 2010

E agora algo completamente novo

Fenix fanzine
Nº 0
Coordenada por Álvaro Holstein

Aquando a Tertulia do fórum BBDE em Braga, estive presente quando anunciaram a criação da Fanzine Fenix. Com o meu exemplar debaixo do braço dei uma vista de olhos pela revista no comboio de regresso ao Porto. O design do interior está bastante bom, melhor do que se pode julgar pela capa. Embora este projecto seja algo pequenino, o que se deve julgar é a qualidade dos textos e mandar o design por algum tempo às ortigas e mergulhamos de cabeça em direcção aos trabalhos.


O Satélite de Natal
João de Mancelos



Já tinha travado conhecimentos com o professor João Mancelos através das participações do mesmo no fórum nacional “Escreva”. O seu currículo preenchido influenciou certamente a minha leitura, que manteve-se neutra. O conto está bom e o final é de facto um ponto a favor na narrativa pequenina, mas apela pouco ao leitor.

A fabulosa raça das Ratazanas
Joel Puga



Já referido pelo autor como um conto que precisava de alguma revisão, penso que essa revisão seria crucial no fim do conto, que pareceu feito às três pancadas. Não encontrei marcas do Joel Puga, principalmente comparando com outros contos. Se querem realmente ler algo bom para além do texto publicado na Antologia da Edita-me, penso que não devemos esperar muito até ver o Joel Puga em acção.

O homem das Terças-feiras
José Pedro Cunha



A partir da primeira frase “O meu melhor cliente nunca comprou nada” adivinha-se um pouco como a coisa se desenrola vai desenrolar, embora não tão directo em relação ao tema fantasia/ FC é dos melhores textos da revista. Bem escrito, engraçado, com um tema agradável.


O roubo dos figos
Marcelina Gama Leandro



Com um ambiente infantil e fantasioso conhecemos o amigo da Maria, o “Kni” que gosta de comer figos. Comparando com o texto da mesma autora no Jornal “Conto Fantástico” penso que o leitor termina a leitura não tão abruptamente, mas ficamos a mastigar o fim, o que é bom. Questionamo-nos quem é o Kni, será só um amiguinho imaginário, será alguma criatura fantástica?


E agora algo completamente diferente
Regina Catarino



O melhor texto da revista. Já tinha adorado o texto da mesma autora no Jornal “Conto Fantástico”, mas desta vez em vez de uma despedida trágica, temos o nonsense a funcionar. É, de facto, algo diferente e bastante revigorante.

A separata "PUMBA!" também merece algum destaque. Apercebi-me que a literatura Fantasia/ FC em Portugal é como a politica - carece de humor. Para que a situação se inverta espero mais desenhos e caricaturas para o próximo número.

Apesar do preço da Fanzine ser "simpático" - 2€ - os métodos de pagamento não são os melhores e a fanzine não se encontrar disponível em FNACS e Continentes, nem nas esquinas próximas, mesmo assim este tipo de projectos é de aplaudir, para não enjoarmos sempre dos mesmo autores e das mesmas pessoas. Escusamos de ter de ler sempre livros de autores X, que estão à venda nas mesmas livrarias. Não há nada melhor que ler um conto, de pessoas novas.

Saturday, 6 November 2010

Nanowrimo #2

O terceiro capítulo está quase escrito :) Ler o "Avalon" e ter estudado durante três meses literatura medieval alemã ajudou imenso. Enquanto ando a ler o Tropic of Cancer, ajudou também a ter umas noções de como escrever sobre sexo sem cair na ordinarice - o que pode parecer um bocado estranho devido à linguagem que Henry Miller usa, principalmente devido ao uso quase abusivo das palavras "cunt" e "fuck". Anyway quase a chegar às 3 mil palavras comecei a duvidar o que fazer com o conto, pensei em enviá-lo para a Dagon, contudo se pensarmos que na definição de fantasia segunda a Wikipedia, que já salvou o curso a muita gente:

"Stories involving magic, paranormal magic and terrible monsters have existed in spoken forms before the advent of printed literature. Homer's Odyssey satisfies the definition of the fantasy genre with its magic, gods, heroes, adventures and monsters."

Well, the problem is não há monstros, não há magia... mas também não é um conto histórico... assim sendo acabo sempre por debater o mesmo. Escrevo algo, cujo género é uma salgalhada e acabo por perguntar-me: Há alguém que queira ler o que escrevo?

Monday, 1 November 2010

Nanowrimo day #1

Bem o desafio do Nanowrimo já começou e apesar de ter estado todo o dia ocupada a trabalhar ainda tive hipótese de escrever alguma coisinha. Comecei com vários planos, mas à medida que vou avançando, vejo que vou cortar muita coisa que escrevi e vou adicionar quando o Nanotime acabar. Começo a entender muito bem o porquê de não me dar bem com estes projectos. Se de um modo é uma excelente maneira de me fazer escrever, por outro a velocidade e o facto de nem sempre estar inspirada. É verdade que num ano é mais fácil haver espaço para inspiração do que num mês. Este ano se conseguir escrever os dois contos e ainda mais dois que tenho planeado, torna-se no único ano em que escrevi mais. Está certo que são contos... pequenos, com menos de 10 mil palavras... mas hey se demoro por vezes meses para escrever um conto, não admira que demore quase uma década para pegar num livro.

Sunday, 31 October 2010

O regresso a Orbias povoado por Final Fantasy

Orbias: O demónio branco
Fábio Ventura
Editora: Casa das Letras
Páginas: 412
Género: Fantasia


Quando o nome de Orbias surgiu na Internet, admito que fui das primeiras a torcer o nariz quanto às influências do autor. Videojogos, música, anime cinema foram as inspirações primárias e fundamentais para a construção do Orbias I. Como conseguiria um autor escrever um livro deixando a literatura de parte como influência principal? Quando li as críticas (na blogosfera) os meus receios foram confirmados: o Orbias I tinha de facto lacunas a nível da maturação das personagens e a acção decorria demasiado depressa. Contudo e apesar de vários pontos negativos apontados, Orbias parecia ser cada vez mais badalado. O autor chegou a lançar uma série de contos online, onde deu continuidade à saga através das personagens estabelecendo uma ponte entre o primeiro e o segundo volume. As críticas deste segundo volume dispararam, a correria às livrarias dava origem a posts novos em cada blog com fotos do livro, restava agora o tempo de leitura e a espera de ver se o Orbias II tinha crescido para algo maduro.

Antes de mais quero adiantar que sem ler o primeiro foi bastante fácil entrar na história.

O início do livro é péssimo. Noemi encontra-se visivelmente abalada, quase louca devido à perda recente de Sebastian. A sua vida é um caos, é maltratada no estágio, descuida da sua vida pessoal devido à obsessão em tentar voltar para Orbias e negligência a sua saúde. Várias vezes questionamos as suas acções e pensamentos apesar de (Noemi) afirmar várias vezes que não estava louca, as suas reacções ditam o contrário. Embora o Orbias II possui um início lento e chato (já não se aguenta tanta “emoness”), o autor introduz rapidamente o mundo e o regresso de Noemi a este. Já não existe o problema do primeiro volume, onde as guerreiras aceitam tudo de leve animo, contudo começa-se a notar falhas a nível do discurso directo. O facto de a Belladonna (personagem “favorita” ou vá a que eu acho que tem mais potencial) revelou-se terrível! Sempre que abria a boca acabava cada frase com “querida” - o que soa traduzido do inglês como “darling” - e o facto de não ter mais nenhum interesse para além do seu cabaret e sexo. Sabemos que não gosta de ler, mas que capacidades tem esta mulher que entra voluntariamente para o mundo da prostituição e que se torna Guerreira da Morte? Não sabemos. O principal é sabermos como Noemi reage, como Noemi se sente, o resto das personagens têm muito pouco que falar. A grande ausência foi sobretudo Rouge, que tem, neste segundo volume, um potencial gigantesco. No entanto, penso que não foi explorada o suficiente, restando-lhe apenas três ou quatro situações chave, onde a sua voz escasseia em se fazer ouvir. Como única ligação entre a parte política de Orbias, seria interessante lermos mais atentamente o sistema político que mudou, o que mudou, a parte social de Orbias pós-separação. Infelizmente o retrato do povo Orbiano é péssimo. São literalmente zombies que não pensam, nem têm consciência política - votam na Riddel, devido à promessa da magia. Se traduzirmos isso para o nosso mundo, basicamente dá o mesmo que nós humanos. Muita gente que vota nos seus representantes, sem sequer pensar, ouvir ou se interessar pelos seus programas políticos - o que interessa são as promessas.

ALERTA SPOILLLLERRRR!!!!

Existem bastantes críticas ao nosso mundo - mais propriamente Portugal. O estado caótico da Comunicação Social, o apelo às energias renováveis, a crítica à política escolhida pelos orbianos e por fim o bullying sofrido por Noemi na sua adolescência que serviram para identificar a personagem com muitas leitoras. Há espaço também para discussões teológicas entre Deus e Deusa onde o autor consegue puxar da cartola nas últimas páginas uma crítica a Deus e à Deusa através da criação de dois seres imperfeitos expulsos dos Céus - Riddel e Sebastian. O paralelo que se cria entre Adão e Eva podia ser menos explícito, penso que existiam simbolismos engraçados que ganhariam se as personagens não explicassem tudo. Um pouco de mistério seria um ponto favorável à narrativa.

FIM DE SPOILER!!!!


O facto de o livro ter um aspecto narrativo muito semelhante aos RPGs não foi ainda mencionado em nenhuma crítica. Adianto mesmo que foi a parte mais criativa. O facto de a cada pedacinho de tempo haver uma nova missão e um novo desenvolvimento. Os leitores estão inconscientemente a jogar com a personagem Noemi e à medida que os obstáculos são ultrapassados, um pedaço da história é revelado. O que é engraçado, porque houve uma certa pessoa (pun intended) que revelou que o motto do seu livro seria “Play the book.” A verdade é que o Fábio Ventura inconscientemente conseguiu trazer à vida esse “motto”. Outro aspecto bastante positivo é a influência que um videojogo pode ter nos cenários e em algumas personagens. Algumas descrições do sexo entre Noemi e Sebastian estão bem-feitas, simples e eficientes, ao contrário de algumas frases que só causam pasmo (to say the least) no leitor, tais como: “Adorava desvendar os mistérios desse teu corpinho virginal” ou “A única coisa que faria contigo agora era usar o teu corpo para o meu prazer sexual” ou até mesmo “Depois de te violar vou estrangular-te e corta-te ao meio com um só golpe.” As últimas duas páginas tinham uma qualidade bem acima da média. Sebastian já não era nenhum demónio sedento de sangue e Noemi já estava feliz por ter o seu namorado ao lado dela, terminando a saga com um balanço que devia de ter aparecido a meio do livro para tornar a leitura menos montanhosa.

Orbias o demónio branco é um livro com altos e baixos, que apesar de não convencer totalmente com o desfecho da narrativa, pensamos que o autor pode evoluir e de facto deitar cá para fora algo bastante bom. Não sei se foi a limitação de uma literatura mais juvenil, que impediu de ir mais longe ou se foi o facto de no campo da fantasia ainda haver preconceito de certas regras. Orbias ficará marcado como o início da carreira de Fábio Ventura, um autor com potencial, com vários campos a explorar e sem medos de ferir. A literatura magoa, alerta, tem o papel de entreter mas também de mexer com o leitor, como Brecht tanta defendia o efeito de distanciamento, para fazer com que o espectador reflectisse na peça. Fábio Ventura não deve ter medo de criar por vezes esse afastamento para fazer as pessoas pensarem. Se queremos escrever sobre prostituição, não devemos ter receio de explorar campos dentro desse tema. As personagens são algo riquíssimas dentro da narrativa e devem ser tratadas não como um simples apoio, mas como seres humanos que erram, aprendem, mas que sobretudo enviam uma mensagem - seja de esperança ou dor.

PS: E só porque também sou fã do Final Fantasy revi a crítica a ouvir o Nobuo Uemtasu :)

Sunday, 24 October 2010

Mataram o Sidónio!

Mataram o Sidónio!
Francisco Moita Flores
Páginas: 300
Editor: Casa das Letras
Colecção: Ficção Portuguesa


"Em 1918, Asdrúbal d'Aguiar era ainda um jovem legista mas o trabalho meticuloso já fazia adivinhar o lugar que iria ganhar na história da medicina legal. A autópsia "notável" que fez a Sidónio Pais repousa nos arquivos, mas a turbulência política dos anos que se seguiram ao assassinato do presidente da República fez com que passasse despercebida. Quase um século mais tarde, Francisco Moita Flores estudou detalhadamente as perícias feitas pelo médico e questiona a versão do crime que a história consagrou. O homicida, afirma o autarca, ex-polícia e escritor, não poderia ter sido José Júlio da Costa."

in ionline, 1 de Abril de 2010

"Mataram o Sidónio" muito sucintamente é uma espécie de C.S.I à la "tuga" com uma mistura de "Bones", com a tecnologia disponível em Portugal nos finais dos anos 10, onde as personagens foram pessoas reais, que contribuíram para o caso que ainda hoje não tem solução. Talvez por a obra ser marcadamente inspirada no caso real, que foi a investigação por parte de Asdrúbal de Aguiar sobre a morte do presidente Sidónio Pais, toda a narrativa não tem uma ponta de falsidade no seu discurso. A genuidade dos diálogos, as situações caricatas, contribui para uma sensação quase parecida com a leitura de um livro de Eça de Queirós. O início é um pouco lento, nota-se um pouco de insegurança, ainda não sabemos muito bem se vai ser um policial ou algo diferente. Começamos com o dia-a-dia de Asdrúbal e o contacto com a "esperanza" que não é algo mais que uma epidemia que dizima a população portuguesa quase em inícios dos anos 20. Talvez por o crime demorar a aparecer, a parte mais interessante seja mesmo a demanda que o leitor segue com Asdrúbal para provar que não foi Júlio da Costa quem matou Sidónio Pais. A narrativa é fresca, a escrita madura e actual. Não sei se foi pura coincidência, mas aquando uma reflexão mais profunda dos métodos usados para chegar à conclusão que não tinha sido Júlio da Costa a matar o presidente, tive uma breve sensação que Portugal encontra-se, a nível laboratorial quase no mesmo patamar que nos inícios do séculos XX. Se calhar fruto do fracasso do caso Maddie, dá a sensação que Portugal é um bocado mau a resolver este tipo de casos. Apesar do resultado ser inconclusivo, Moita Flores consegue retratar um Portugal caótico, sem governo, de luto e desesperado por encontrar um rumo sem gente competente para o fazer. A ditadura militar de Sidónio Pais durou apenas um ano, para passados oito anos vir-se instalada uma Ditadura Nacional.

Monday, 18 October 2010

A Estrela de Nariën

Estrela de Nariën
As sombras da Morte
Susana Almeida
Páginas: 430
Editor: Saída de Emergência
Colecção: Teen
Faixa etária: a partir dos 14 anos

A Estrela de Nariën foi uma prenda que comprei para a minha irmã mais nova, aquando a feira do livro do Porto (pouco tempo depois do livro ser colocado à venda). Como a leitura agradou-lhe e veio-me pedir o segundo volume, achei que deveria ler e quando li na sinopse que haveria uma divisão nova chamada "avatares" lembrei-me um pouco do "Handmaid's Tale". Para começar a Faixa etária, mesmo que seja meramente indicativa e não deverá ser tomada à letra, devo dizer que acerta mais ou menos na idade. Se um livro com 430 páginas deverá assustar o adolescente de 12 anos (visto o conteúdo não ter nada de chocante), penso que também para adultos já é esticar a corda.

A Estrela de Nariën tem tudo o que já foi dito na fantasia até agora: Elfos, cavaleiros, magia, traições e que enverga por alguns clichés. O início do livro é um pesadelo: nomes quase impossíveis de pronunciar, acontecimentos que se desenrolam demasiado depressa: Lilith ama Aheik, e perguntamo-nos porque raio ela gosta dele se nunca vimos o rapaz a fazer nada de digno e há a confissão de homossexualidade por parte do seu irmão Rhys. E se poderíamos aproveitar a questão da homossexualidade para introduzir alguma profundidade, ela simplesmente desvanece-se sozinha, sem sabermos muito bem o propósito pela qual o Rhys assume-se como homossexual à frente da irmã. As avatares também poderiam ter um papel melhorzinho, parecem restringidas a uma moral rígida, uma espécie de freiras com magia. Quando o seu papel mágico podia ser maior e podiam no fim dar bem mais luta.

A narrativa apesar de bem escrita, sem grandes falhas aparentes, carece de romantismo propriamente dito. Tudo é obra do destino e da reencarnação, não havendo voz própria dentro das personagens principais para entender o porquê deles sentirem amor. Aheik é o tradicional cavaleiro corajoso e nobre e Lakshmi ainda não é nada, devido ao seu papel apagado. Étain é a vilã tradicional e cliché: bela, sedutora, irresistível, que quer a Estrela de Nariën para conquistar o mundo. Os diálogos estão bem construídos, porém existe mesmo uma insistência por parte da autora na conjunção adversativa "porém", o que causa por vezes estranheza a sua sucessiva utilização.

O cliffhanger final é inteligente, pois obriga o leitor mais curioso a salivar pela continuação da história. A nível narrativo achei a pausa um bocado brusca, na medida em que o leitor ficar pelo menos um pouco na expectativa de pelo menos algo acontecer. (Fez-me lembrar do final do cd1 do Final Fantasy VIII quando o Squall é atingido por uma ponta de gelo e eu e a minha prima corremos a inserir o cd 2)

Saturday, 9 October 2010

O Evangelho do Enforcado

O Evangelho do Enforcado
David Soares
Editora: Saída de Emergência
Colecção: Bang!
Páginas: 368

Sinopse: Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal.

Primeiro quero só referir que não sou facilmente impressionável. Nada me choca. Podem descrever a situação mais macabra que muito sinceramente não vou ficar impressionada ou pensar "ew que nojo". Por conseguinte e ao contrário de outras críticas/ opiniões que li, não fiquei chocada, mas enfadada. David Soares pinta um Nuno Gonçalves, claramente psicopata, filho do Diabo com um gosto especial por cadáveres e sangue. O pintor é a personagem menos verosímil. Não tem pontos positivos no seu carácter, é simplesmente alguém que quer subir na vida e que acaba por se tornar um assassino. Aqui a história descamba. O autor inunda a personagem histórica de Nuno Gonçalves com os seus próprios gostos e introduz vertente de terror para chocar o leitor. No entanto poderia aproveitar as escassas informações de sua vida para criar uma personagem na qual podíamos sentir alguma empatia. No fim o que fica de Nuno Gonçalves é nada. Quem foi ele? Um louco que matou duas prostituas e um chulo, que só a meio do livro pinta os painéis de São Vicente. A personagem secundária oscila como Nuno - o infante Henrique é apresentado como um homossexual sem escrúpulos e também com um pouco de loucura. O livro lê-se bem e de facto nota-se que a prosa de David Soares pode ser agradável quando este não se esforça para querer chocar em situações completamente descabidas. Penso que o "O evangelho do enforcado" não é o melhor livro para ver o talento de Soares, é demasiado pessoal e nota-se o esforço para chocar ou para ser profundo, inundando o leitor com imensa simbologia e citações de outros livros, fórmulas cujo leitor normal não entende e frases em latim sem tradução. Sou apologista de que com coisas simples fazem-se grandes livros, penso que este só tem uma palavra para o descrever: exagero. Os simbolos são exagerados, as frases em latim demasiadas, demasiado gore, demasiado uso do calão e descrições de sexo homossexual "cruas". Lamento verdadeiramente não ter apreciado o livro, mas penso que este livro deve satisfazer apenas um grupo bastante restrito de pessoas. David Soares escreveu uma vez que não devemos tratar os leitores como idiotas (pessoalmente concordo a 100%), contudo esta obra é a prova que Soares trata os leitores como génios que tudo vão entender. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Citações do livro:

"O rapaz da faca manteve a lâmina junto ao pescoço da rapariga enquanto a violava.
"Tu és, tu és..." gaguejou ele. "Tu és..."
Apressou os movimentos. Às tantos, suspirou e, agarrou o pé inútil, ejaculou sobre a deformidade. Riu. O sémen resvalou pelo calcanhar e pingou para o chão; batendo com a glande no peito do pé, o rapaz sacudiu o que sobejava. (...) No exterior Nuno concentrou a sua atenção nas pernas abertas da rapariga; à claridade que entrava pelo postigo, viu os sémens dos mancebos a fluírem para fora e ambicionou ser capaz de fazer como eles. (...) Viu a rapariga pousar um braço sobre a testa e imobilizar-se. Percebeu, de imediato, o que é que precisava. «O cheiro a mortos.»
Precisava de fingir que ela estava morta. " (45)

"A maioria das mulheres que vendiam os corpos na Putaria, em quartos cheios de trates, não comiam fruta ou sentia o cheiro de flores; em certas ocasiões deitavam a unha a uns pedaços podres de carne, roubados à lixeira vizinha. Ao contrário dos mouros, as prostitutas não tinham nenhum pudor em beber: muitas já nem tinham dentes e o vinho escorregava sem dar trabalho. «Cum se cutis arida laxat, fiunt obscuri dentes.»" (77)

"Os animais pularam em volta da rapariga, puxando-lhe as roupascom as dentuças afiadas; ela arranhou o chão com as unhas, tentando fugir, mas os cães pareciam estar em todo o lado.

Δ x Δ p ≥ 1/2 ħ

"É uma gaja, não é?", perguntou Júlia, confundida pelas sombras e pela chuva." (165)


"Boa noite" disse Veríssimo.
"Boa noite", respondeu o homem.
"Queres..." Veríssimo vacilou. "Queres ir-me ao cu?"
O homem não disse nada." (259)



Thursday, 30 September 2010

Prendas de aniversário

Apesar do meu aniversário ainda estar relativamente longe, recebi dos meus pais um vale da wook de 14€ e outro de 2€, por isso como prenda vou comprar dois livrinhos :) Um já está planeado a algum tempo:


Agora existe uma mão de livros que gostava de comprar, com algum receio de apostar. Vou meter uma poll no canto direito para poderem votar CONSOANTE a vossa opinião do livro.

Wednesday, 29 September 2010

A filha dos mundos

A filha dos mundos
Ceptro de Aezirs: livro I
Inês Botelho
Páginas: 240
Editora: Gailivro
Colecção: Jovens Talentos
Edição: 2004


Sinopse oficial: Ailura teve uma infância repleta de contos de fadas, elfos e duendes, de todo um mundo mágico e maravilhoso. Mas como todas as crianças ela cresceu e, lentamente, esqueceu esse mundo encantado, até que deixou de acreditar que a barreira que separa o noso mundo dos sonhos e do maravilhoso não é mais espessa que o próprio ar.

Deve ser a primeira vez que coloco aqui uma sinopse oficial, contudo após a leitura do livro, pequeno devo dizer, receei que estivesse a ser injusta para com a escritora Inês Botelho, por lhe ir descascar tanto, o que também não só poderá criar um mal geral, visto os portugueses não estarem muito habituados a lerem opiniões negativas. Normalmente é tudo uma questão de gosto e gosto porque sim e não gosto porque assado, no entanto quando um livro não reúne condições para efectivamente termos uma ideia positiva, a coisa está negra. Costumo dizer sempre o mesmo nas minhas críticas: o livro é engraçadito, lê-se bem, mas de suminho não tem nada. O problema da "Filha dos mundos" é este e muitos mais.

Magiquei durante algum tempo os motivos pelos diferentes fracassos, chegando à conclusão que a própria colecção "Jovens Talentos" deve ser a pior colecção de fantasia alguma vez a sair cá para fora. Desde o Paolini até ao Zuzarte (não estou a atacar os autores... tirando o Zuzarte, esse ataco, ferro e se possível ainda lhe dava uns tabefes), a qualidade dos textos parece-me que nem sequer foi revista. O editor leu os textos, pensou "muito bem, que lindo!" e não reveu NADA! Ou seja um trabalho, de jovens sair para o mercado livreiro, sem sequer ter uma revisão não se pode esperar grande coisa. A culpa não deve ser atribuída aos autores, que como tantos outros autores mandam os seus manuscritos à espera de serem aceites, mas da editora que leu e deve ter achado aquilo muito bonito. Em 2004 até podia ter sido, duvido, hoje em dia, ano 2010, não o é. Lamento profundamente, e penso que até a própria Inês se arrepende um pouco de ter envergado por um caminho, que nem era esse que queria seguir, que se calhar anteriormente nesta colecção saíram títulos, que nunca deviam de ter visto a luz do dia nas livrarias, enquanto hoje em dia se calhar a própria editora até poderá recusar-se a ler um manuscrito, que poderia ter mais qualidade que estes títulos.

Independentemente da decisão da Gailivro, penso e defendo que o livro "A filha dos mundos" deveria de ter estado na gaveta até hoje. Poderia com algumas alterações ser um livro bonito, com profundidade psicologica, mas que devido à sua rápida publicação será sempre lembrado como um livro "que poderia ter sido algo de bom". A acção decorre demasiado depressa, existe uma certa infantilidade em algumas descrições, nomeadamente na repetição do adjectivo "bonito" ou "belo": a Ailura é bela, o elfo é belo, mas dentro disso onde está a substância? A Ailura aparece como uma mulher de 28 anos, directora de um jornal, com responsabilidade, mas que por algum motivo não gosta do namorado e a presença deste torna-se algo desagradável. Tudo isso muda quando Ailura é atropelada por um camião e encontra um mundo paralelo ao nosso. Esta espécie de twist recorda um pouco o romance de Neil Gaiman "Neverwhere", onde a personagem principal também entra numa espécie de realidade alternativa, fruto da sua ânsia de se escapar do mundo real. E este twist apesar de já existir é o unico factor bom que o livro apresenta. O facto de todos nós gostarmos de um dia viver num mundo alternativo é uma premissa razoável para um romance fantasioso, apenas a maneira como usamos essa premissa deve ser tomada em consideração. As personagens falham, como referi e a acção peca pela rapidez, na qual é apresentada. Tudo é muito romântico, tudo decorre demasiado depressa: a Ailura tanto detesta o elfo, como no momento a seguir já o ama e beijam-se e querem filhinhos. Ou seja, se a Inês Botelho tivesse esperado mais uns tempinhos, poderia de facto ter apresentado algo mais substancial, talvez introduzir algo mais sobre o povo élfico, os anões. Como seria o seu dia-a-dia, explicar com maior detalhe como é que as pessoas se relacionavam, o próprio passado, a História daquele povo, etc.

Muito sucintamente "A filha dos mundos" estará sempre ligado a um condicional e é a prova viva que nem sempre devemos enviar algo que de futuro até nos poderemos "envergonhar". Erros todos nós cometemos. Não nascemos todos uns Saramagos, mas lá vamos evoluindo com o tempo, vamos crescer, ter novas experiências, que vão reflectir-se no que escrevemos. É um livro que pode apelar as pessoas que só querem ler uma história leve, mas que não satisfará o leitor mais experiente.

Saturday, 18 September 2010

O ano da morte de Ricardo Reis

O ano da morte de Ricardo Reis
José Saramago
Editora: Caminho
Páginas: 408
Colecção: Obras de Saramago

Não sendo propriamente uma estreante na prosa de Saramago, afirmo firmemente que “O ano da morte de Ricardo Reis” é um dos melhores livros que já tive o prazer de ler. Saramago não desilude perante a árdua tarefa de dar vida a uma criação do supra-Camões: Fernando Pessoa. È preciso separar a fantasia da realidade, pegar na personagem e misturar através de sítios e outras marcas de realidade, uma história coesa. Se a narrativa fosse somente coesa, duvidaria que se trataria de um Saramago, por isso sem querer adiar as provas da sua genialidade a primeira frase do romance “aqui acaba o mar e a terra principia”, alusão ao canto terceiro, estrofe vigésima da epopeia “Os Lusíadas”:


"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.”

A primeira frase do romance aliada ao título resulta numa das primeiras dúvidas para descortinar mais sobre a personagem de Ricardo Reis. Se o título aponta para a morte não sabemos se é física ou apenas simbólica. De salientar que até a figura principal, ao contrário de Fernando Pessoa nunca existiu. Assim podemos primeiramente especular sobre os verbos “acabar” e “principiar” como uma metáfora da própria existência.

O ciclo da existência pressupõe sempre um início e um fim, nascimento e morte associada à imagem da água, símbolo da vida em contraste com a terra, que pode ser encarada como um sítio subterrâneo (Inferno). Se a morte de Ricardo Reis fora somente espiritual e simbólica, podemos aliar os dois elementos: mar (travessia para o além) e terra - Europa (Inferno). A chuva e o mau tempo que se fazem sentir durante a estadia de Ricardo Reis em Portugal é, de igual forma, um espelho do estado de uma Europa totalitarista. “Tem chovido muito, perguntou o passageiro, É um dilúvio, há dois meses que o céu anda a desfazer-se em agua, respondeu o motorista, e desligou o limpa-vidros.” (17) O Hotel Bragança é um ponto onde o tempo aparece ritmado, ao contrário do apartamento que Ricardo Reis aluga mais tarde. Temos a noção do tempo a passar através do relógio na sala, ao invés do apartamento, onde Ricardo Reis dorme até ao meio-dia e perde-se no tempo. O dia-a-dia no hotel contribui para a veracidade da ficção e é preciso separar a criação do criador através da visita ao cemitério.

O narrador brinca com a ficção e a realidade com o livro “The God of labyrinth” de Hebert Quin não é nada mais do que um conto de Jorge Luis Borges (e aqui temos um caso de um livro dentro de outro livro). Esta alusão a um “deus labiríntico” que no fundo de labirinto não tem nada tem basicamente a função de ajudar o leitor a situar-se na psicologia de Ricardo Reis e as suas questões. O labirinto (também típico de Kafka e Dürrenmatt) não é um labirinto físico mas sim espiritual. O tema da morte presente em bastantes obras de Saramago, consegue nestas páginas apresentar quatro mortes diferentes: morte física de Fernando Pessoa, a morte do braço de Marcenda, a morte espiritual de Ricardo Reis e por último a duvida se Lídia sempre realizará um aborto após a morte do pai da criança. Saramago pega na musa inspiradora de Ricardo Reis e dá-lhe vida num corpo de uma empregada de limpezas que trabalha no hotel Bragança. Ao contrário do amor existente em “Memorial do Convento” e “Evangelho segundo Jesus Cristo” Lídia e Ricardo Reis terão uma relação puramente sexual, esquecendo os poemas mais platónicos:

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)”

Nada na relação entre eles sugere esta pacatez de espírito, muito pelo contrário. Ricardo reis surge como um predador e Lídia com uma presa, na qual na sua qualidade de empregada não poderá resistir, sem ceder às vontades do “senhor doutor”. Curiosa a escolha de Saramago pela profissão de Lídia, uma mulher do povo, mas que sem querer consegue proferir opiniões de uma forma encantada. Assim Saramago consegue mostrar mais uma vez que o povo tem uma certa magia: “Fica sabendo, Lídia, que o povo nunca está de um lado só, além disso, faz-me o favor de me dizeres o que é o povo, O povo é isto que eu sou, uma criada de servir que tem um irmão revolucionário e se deita com um senhor doutor contrário às revoluções.”(375) Apesar de ter um irmão revolucionário, Lídia várias vezes prefere simplesmente revelar a sua ignorância através da desculpa da sua pobre escolaridade, o que torna o romance entre os dois ainda mais apetecível. Ricardo Reis, o grande poeta, um sr. Doutor, deitado na sua cama com uma criada quase analfabeta. Talvez por isso Saramago achou por bem criar uma outra personagem: Marcenda, mais ao gosto do próprio Ricardo Reis.

Marcenda representa um desafio à profissão do doutor, com um braço paralisado e sem cura possível. Ambos parecem viver em função daquele braço paralisado: Marcenda desespera com a demora da cura e Ricardo Reis tenta encontrar a cura através da psicologia. “A esta mesma hora, naquele segundo andar da Rua de Santa Catarina, Ricardo Reis tenta escrever um poema a Marcenda, para que amanhã não se diga que Marcenda passou em vão, Saudoso já deste verão que vejo, lágrimas para as flores dele emprego na lembrança invertida de quando hei-de perdê-las, esta ficará sendo a primeira parte da ode, até aqui ninguém adivinharia de que Marcenda se vai falar, embora se saiba que muitas vezes começamos a falar de horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração.” O poema “Saudoso Verão que vejo” demonstra como ambas: Lídia e Marcenda ocupam um espaço importante na poesia do heterónimo. Ao contrário de Lídia a relação entre Marcenda e Ricardo Reis é mais platónico.

"Marcenda herself, too, is physically imperfect, with a withered arm that leaves her effectively one-handed, like Baltasar; and she hails from Coimbra, the city of the priest Bartolomeu Gusmão. Lídia, the barely literate hotel chambermaid, recalls the illiterate Blimunda in her poised yet daring vivacity. At certain moments in the text, the narrator recalls other elements from Memorial do Convento: the convent of Mafra (p. 401), the flying machine of the inventor-priest (p. 670). “Literature as History: José Saramago's O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Chris Rollason

Saramago prova que mesmo uma mulher de alta classe terá os problemas de uma pessoa do povo.

Em suma, “O ano da morte de Ricardo Reis” é um livro onde o génio de Saramago pode ser confirmado através das intertextualidades cuidadosamente expostas e dos locais reais de Lisboa, onde o leitor pode seguir Ricardo Reis como se estivesse a seu lado. As marcas de realidade: jornais e os locais ajudam à exactidão da prosa. Não é um livro fácil de ler, bastante denso e metafórico o leitor conclui a leitura com tristeza, com uma ânsia de querer mais, no entanto não há nada mais real que a morte e a certeza de que todos vamos morrer um dia.

Friday, 17 September 2010

Revista Conto Fantástico

Revista Conto Fantástico

Organização: Roberto Mendes


A revista “Conto Fantástico” é o segundo projecto de Roberto Mendes a ganhar vida no mercado editorial, depois da revista de fantasia “Dagon”.

A revista poderá ser adquirida em qualquer FNAC (se não houver disponível podem sempre encomendar) e já conta com dois números. O objectivo da revista é dar a conhecer somente novos autores portugueses, no âmbito da fc, quando sabemos que a FC portuguesa anda pelas ruas da amargura. Não sou nenhuma especialista em ficção científica, pelo que não haverá nenhuma crítica aprofundada.

Considero que os contos que mais me encheram as medidas foram sem dúvida “Space Oddity” de Regina Catarino e “Aleninan” de Marcelina Gama. “Space Oddity” é um conto pequeno, que provavelmente alguns poderão considerar pequeno de mais, mas não é na quantidade de palavras que se mede a qualidade. O narrador autodiegético ajuda a criar uma ligação com o leitor, ao contrário de todos os outros contos que decidem seguir uma prosa com um narrador heterodiegético, criando uma espécie de barreira. Space Oddity é o nome de um single e um album do cantor David Bowie. As marcas de intertextualidade são subtis, Regina Catarino parte da premissa de Bowie:

Though I'm past one hundred thousand miles
I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell me wife I love her very much

Mas no fim consegue dar um outro significado à ideia original de Bowie. Não sabemos o que leva o astronauta a viajar pelo espaço na canção, mas no conto “Space Oddity” dá uma ideia de suicídio: “A nave é velha, reparada à ultima da hora”, a personagem sabe que a nave tem problemas, contudo arrisca e viaja até ao espaço. É sobretudo uma viagem que tanto pode correr bem como mal. Um conto muito bom, cujo fim deixa um sabor especial na boca.

“Aleninan” o último conto da revista, escrito por Marcelina Gama pode ser lido quase em paralelo com o conto de Pedro Pedroso “Cometas Extintos”. Embora pense que Aleninan seja mais de um alinha “The host” de S. Meyer (com um domínio de língua completamente diferente). Ambos os contos conseguem no fim criar suspense através da tortura . O fim é deixado em aberto de propósito, segundo a autora “pode ser para continuar” e assim sendo poderá dar origem a algo maior e aprofundado. As bases e o suspense estão lançados, resta só ao leitor guardar este pedacinho para talvez mais tarde.

Thalormis Zeta marca uma evolução positiva na escrita de Carla Ribeiro. Longe do “purple prose” e das frases intermináveis, Carla Ribeiro consegue pela primeira vez provar que consegue fazer algo diferente. A escrita simples e directa, as personagens que não são catalogadas directamente como nem boas, nem más, faz com que o leitor leia o conto sem ter noção que está a ler algo cliché. Penso que Carla Ribeiro devia de se dedicar mais a FC e deixar a escrita pseudo-gótica para trás. Assim dá gosto ler algo!

Por ultimo falta-nos “Cometas Extintos” de Pedro Pedroso, uma distopia, que de alguma maneira fez-me lembrar os videojogos, mas que através do narrador heterodiegetico não consegue criar drama suficiente para sentirmos empatia. Pedro Pedroso contribuiu igualmente para o número 3 e 4 da revista “Conto Fantástico”.

Falta infelizmente o conto de João Rogaciano, que me foi impossível de ler, devido à minha ignorância perante a série “Star Trek”, mesmo assim gostaria de ler o conto que publicou na Antologia da Edita-me, antologia na qual eu, Marcelina Gama e Carla Ribeiro participamos.

Resta-me recomendar a crónica de Álvaro Holstein, uma retrospectiva da FC na época da Nebulosa e das máquinas de escrever, onde publicar era difícil ou quase impossível. Desde esse tempo até agora, tempo dos computadores, portáteis e da Internet, nada ou quase nada mudou. Indirectamente Álvaro Holstein demonstra a importância de apostar em novas vozes da FC através destes pequenos projectos, que no fundo são sempre melhor que nada.

Wednesday, 15 September 2010

Steampunk, Saramago e Facebook num só post

Bem já à algum tempo que estava à espera que o livro estivesse com uma promoçãozita e ontem quando fui ao Bookdepository vi que o preço do livro tinha finalmente descido. Não me contive e tive mesmo de comprar o livro da Cherrie Priest - Boneshaker :) Só espero que não seja uma desilusão como foi o "Leviathan".




Entretanto continuo a estudar o livro do Saramago "O ano da morte de Ricardo Reis". Por mais palavras que eu escreva sinto sempre que podia explorar mais sobre os assuntos, especialmente a intertextualidade que é bastante rica.

Na sequência de uma duvida de uma amiga minha face à criação de grupos no Facebook, para experimentar tinha de criar um grupo e dar um website. Nada melhor do que experimentar com o blog e assim deu nesta asneira. Como sabem este blog não tem propriamente passatempos, nem livros recentes, nem bajulações a novos autores, no entanto tem algo em comum com outros leitores - o gosto pela leitura, seja desde a Ilíada até ao mais recente livro colocado nas editoras. Por isso é uma maneira de saberem o que se passa neste cantinho pequenino.

Wednesday, 8 September 2010

Coraline

Coraline e a Porta Secreta
Neil Gaiman
Páginas: 120
Tradução: Inês Aboim Borges
Colecção: Estrela do Mar
Editora: Editorial Presença



Neil Gaiman, you did it again. Não sei como ele o faz exactamente. Não sei se é o seu ar horripilantemente charmoso, que tem um certo quê de Tim Burton com feições britânicas, que nos levam a suspirar por cada palavra que escreve. Coraline é uma Alice in Wonderland gótica, que também se deixa levar pelos seus sonhos. Enquanto Coraline representa a alienação das crianças de hoje em dia e a solidão, Alice, com os seus tabus da época nada mais era do que uma metáfora do crescimento e da descoberta sexual. Sendo assim podemos considerar Coraline mais adequado para crianças ou jovens. Em ambas as histórias existe um gato, mas um fica famoso por ser de Cheshire e outro simplesmente se chama gato. O facto de o gato não ter nome atrai para si um sentimento maravilhoso de identidade. Nós somos todos únicos independentemente do nome que nos é atribuído. Quando Coraline é confundida por Caroline, não é o facto de ela não gostar que o nome seja trocado. Simplesmente ela é Coraline e não Caroline. Se a chamassem rapariga era fácil de a identificar. Caroline, por outro lado, implica um nome próprio que não lhe pertence.

A simplicidade das palavras de Gaiman conseguem atingir miúdos e graúdos, contudo há sempre algo de macabro nas histórias inventadas pelo autor. Em “The Graveyard Book” Nobody Owens cresce e vive a sua infância num cemitério, em “Neverwhere” a dupla Mr. Vandemar e Mr. Croup eram capazes de causar um medo na espinha, em “Coraline” a outra mãe é uma bruxa, com olhos de botão, cujo maior desejo é ficar com a filha para sempre. Para isso Coraline terá de se livrar dos seus olhos e cosê-los com dois botões. O mundo moderno é assim - as crianças precisam de uma dose certa de terror, com uma dose q.b. de literatura juvenil.

Um livro muito mais complexo do que se poderá pensar à primeira vista. Well done, mr. Gaiman.